quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

SEGURA PRA NÃO CAIR - LETRA DO SAMBA 2005

de Edmundo Souto, Eduardo Goldenberg, Mariana Blanc e Fernando de Lima

Vai me leva, ô, carnaval é ilusão.
Nesses mares, de Ponte Nova já partiu a embarcação.
Clementina, abençoando o mineiro que chegou...
Meu São Benedito do Sinal Vermelho:Tiro de misericórida não!
Salva esse meninos, ouça meu conselho,
traz a nossa redenção!

Bate forte o tambor, no terreiro!
Olokum é João, brasileiro!
Segura Pra Não Cair
Da África à Sapucaí

Não vai desbotar, papel marchè, me faz sonhar...
O meu coração lá na Serrinha eu vou deixar.
É, tudo isso é mistério, a Vila e o Império,
vão nos tornar eternos!
Salve Marias e Clarices
o sonho já me disse: o show tem que continuar.

Foi só pegar no cavaquinho
Deu samba
Vila Isabel homenageia um bamba
Bala com bala, dois pra lá e dois pra cá
Eu sou Carlitos nos oitis do Boulevard!

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Uma declaração de amor

Recebi esse poema da amiga Vera Mello, companheira de bons momentos, que divide o gosto pela poesia, pela alegria, pela boemia, todas essas coisas que terminam com ia e que a gente fica sempre indo a elas, bebendo da fonte, alimentando a alma. Não sei se tem nome, mas mando mesmo assim.

Autor: Ferreira Gullar

Se é fato que
toda a massa do sistema
solar (somando a de Saturno e Marte
e Terra e Vênus e Urano e Mercúrio
e Plutão, mais
os satélites, mais
os asteróides, mais) equivale
apenas a 2% da massa
total do Sol e
que o Sol não é mais
que um mínimo ponto
de luz na estonteante tessitura de
gás e poeira da Via
Láctea e que a Via
Láctea é apenas uma
Entre bilhões de galáxias
que à velocidade de 300 mil km por segundo
voam e explodem
na noite
então pergunto:
o que faz aí
meu poema com seu
inaudível ruído?
E respondo:
Inaudível
Para quem esteja
Na galáxia NGC 5128
Ou na constelação
de Virgo ou mesmo
em Ganimedes
onde felizmente não estás,
Cláudia Ahimsa,
poeta e musa do planeta Terra.

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Fala oi, Oscar! Posted by Hello

Struthio Camelus


Por isso, porque és só minha e eu sou só teu
É que eu não sou mais eu
Foi bem mais que um milagre, vida minha...
Foi como a própria vida:
ACONTECEU.
(Por que amo Paris – Vinícius de Moraes)


Hoje eu prometi falar de avestruzes.

Como um deles sentou-se em cima de mim, tá complicado de escrever. Tá difícil até pra enxergar o teclado com esse bicho enorme aboletado na minha pessoa.

Avestruz é um bicho interessante.

Consultemos a Enciclopédia de Banalidades Intermitentes: Struthio camelus, é a maior ave do mundo. Seu habitat principal é a África, mas alguns têm especial predileção pela Muda, esse bairro tão aprazível e atualmente concorrido do Rio (tão concorrido que esta madrugada tinha uns cinco caras tentando roubar o mesmo carro, mas entraram num acordo: cada um levou um pneu e pronto).

Avestruz não voa, só depois do terceiro ou quarto Redbull e gosta muitíssimo de sorvete de flocos, embora a gente saiba que são assim feito homem recém-divorciado: não são exatamente seletivos com relação ao que comem.

Pertence à família Struthionidae, ordem Struthioniformes. Um macho adulto — avestruzes fêmeas são difíceis de estudar porque além de avestruzes ainda são tímidas — pode medir 2,5m sendo que metade de sua altura é pescoço, um fiscalizador da vida alheia nato. Pesquisas apontam que tanta curiosidade serviria para compensar a falta de inteligência, já que, segundo a bíblia, Deus o teria privado de esperteza.

Pratica jogging, segue uma dieta especial rica em objetos brilhantes (o estômago do avestruz é dotado de poderoso suco gástrico que é capaz de dissolver metais, desaforos, intrigas e resiste até mesmo a alguns tipos de cantada) porém, mesmo com todos esses cuidados, chega a pesar 155 kg. Frustrações são, portanto, perfeitamente compreensíveis. Eu nem me esforço tanto, mas também peso muito menos.

Machos são pretos e brancos, fêmeas são marrons, e as emas gostam de uma purpurina que só vendo, mas não entraram na história ainda.

A cabeça e o pescoço têm apenas uma fina penugem. As pernas são nuas, depilação natural. A cabeça é pequena e completamente oca, o bico largo e os grandes olhos castanhos têm grossas pestanas pretas, rímel Lancôme com certeza, que é pra aumentar a veracidade das cenas dramáticas.

Vivem em grupos de até 50, junto com outros animais de pasto, assim feito a casa da mãe Joana mesmo. Sua defesa é a fuga. Um avestruz apavorado pode alcançar uma velocidade de 65km por hora e quando encurralado distribui perigosos chutes que nada têm a ver com habilidade de auto-preservação, não. É que eles ficam meio histéricos mesmo.

Seus ovos, medindo cerca de 15cm de comprimento por 12cm de diâmetro e pesando 1,35 kg, são os maiores do mundo. Haja saco. Vem daí a “paciência de concílio com abuso”, algo como a de Jó. São tão pacientes que podem esperar suas vítimas por várias horas na porta do bar e quando a vítima sai, distraída... blam!! Eles aboletam.

Aboletar é a atividade preferida de um avestruz. Um aboletamento pode durar alguns minutos, várias horas ou mesmo dias. Pode ser feito por uma ou mais aves. A vítima fica assim... ahn... assim meio... como quem tem um avestruz aboletado. Perde o apetite, não sai de casa, vê em preto e branco, ouve mal (só “Good Times 98 FM”), e costuma emitir sons estranhos, mais ou menos como uma lamúria incessante. Sente muita saudade de qualquer coisa, tem crise de inversão de importâncias, chora com propaganda de fundo de investimento, fica insone e quando dorme tem pesadelo. “Estar na tumba” é um expressão comum para designar aboletamentos.

Avestruzes ficam sem beber água por longos períodos, mas dispensar uma Bohemia gelada é difícil. Vinhos também agradam, e sua ressaca se traduz apenas num péssimo humor. Atenção: eu disse péssimo. Todos sofrem de TPM crônica, inclusive os machos, o que ajuda a explicar a natureza dos sintomas de vítimas de aboletamento.

A reprodução é complexa. Apesar de enlouquecedoramente críticos (óbvio que, pra eles, só serve a crítica depois que a merda já tá feita), estas aves não se contentam com pouco e reúnem haréns de 3 a 5 esposas. As fêmeas fazem o mesmo, mas não declaram, podem não ser espertas, mas também não são estúpidas. Os relacionamentos são conturbados e comumente terminam em bate-boca. Adoram discutir a relação, se retraem com facilidade e sua vida longa, de 50 a 70 anos, permite que criem inúmeros motivos pra se aborrecer, motivos estes cuidadosamente alimentados, nutridos e arquivados. Durante um ataque mais pesado, todo esse arsenal acumulado pode ser atirado na cara da vítima.

Machos chocam de dia, fêmeas à noite. Isto é importante porque machos e fêmeas devem ser espantados por meio de posições sexuais distintas. É o melhor antídoto conhecido, embora seja perigoso se mal administrado – neste caso tem o poder de atrair outros avestruzes em progressão geométrica.

[Na verdade, existem outros antídotos sim, mas pela raridade, têm divulgação restrita. Por exemplo: ovos nevados da Dodô, risoto do Eduardo, reunião de Marcelo Miranda com Alfredo Galhões no Bar da Maria, casquinha de siri da Adega Tudo do Mar e, completando a lista com os já extintos,  show do Aldir e Villa-Lobos em concerto particular]

Se você estiver sendo perseguido por uma fêmea, levante as mãos para o céu. Fêmeas podem ter o ânimo arrefecido com apenas uns beijinhos aqui ou ali, meia dúzia de rosas e um sushi básico. Nada muito grave e pode perfeitamente ser resolvido em público.

Agora: se o seu avestruz é macho... pode começar a apelar. Repita os procedimentos para espantar uma fêmea, acrescente uma banda de cover dos anos 80, umas velas, Drambuie aos galões, uma casa de praia e uns quinze vídeos pornô. Se nada disso der certo, tente Balla 12. Nadinha? Ah, desanima não... cada avestruz tem sua receita.

Com paciência você pode conhecer melhor seu avestruz como eu já conheço o Oscar (Hí!, eu nem apresentei o Oscar, né? Fala “oi!” pras pessoas, Oscar! E tira a cara da frente do monitor que eu já tou acabando!).



PS:Em inglês se chama “ostrich”, que parece mesmo com ostra, mas eu não entendi a graça da piada.
PPS: Se você conhece outra receita, mande pra nós. Afinal, nós, vítimas de aboletamento, temos que nos manter unidos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Ando assim, a respirar por flores, a sorrir pro dia, a nem temer a noite. Ando assim, como que encantada, a ansear a volta, a não querer mais nada. Posted by Hello

Era mais ou menos isso...

... que eu queria dizer e não sabia como.
Uso então as de um amigo querido, Fernando.
Espia o link

À procura de Paula

e responde: o que dizer do meu encontro?
Será que seu coração terá apenas uma nostalgia vaga, com goteiras vazando aos pouquinhos a memória?
E se eu pusesse um anúncio, viria? :)

4° Motivo da Rosa

Cecília Meireles

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Água de Chuva no Mar

(Em homenagem ao Dia Nacional do Samba, 2 de dezembro, deixo aqui a letra de um dos sambas mais ouvidos em Oswaldo Cruz na festa do Trem.)

De: Gerson Gomes, Carlos Caetano e Wanderley Monteiro
Tom: C
Intr.: C Em Am Em Dm Dm7+ Dm7 G7 C G7 ...


C7+ C6 Ebº C7+ C6
O meu coração hoje tem paz
Ebº Dm Dm7+
Decepção ficou pra trás
Dm7 Dm7+ Dm
Eu encontrei... um grande amor
G7 C7+ C6
Felicidade enfim chegou
Ebº C7+ C6
Como o brilho do luar
Ebº Dm Dm7+
Em sintonia com o mar
Dm7 Dm7+ Dm
Nessa viagem de esplendor
G7 Gm7 % C7
Meu sonho se realizou

F7+ Bb7
A gente se fala no olhar... no olhar !
Em7 A7
É água de chuva no mar... no mar !
D7/9
Caminha no mesmo lugar
G7
Sem pressa, sem medo de errar
Gm7 C7
É tão bonito... é tão bonito o nosso amor
F7+ Bb7
A gente tem tanto querer... querer !
Em7 A7
Faz até a terra tremer... tremer !
D7/9
A luz que reluz meu viver
G7 C7+
O sol do meu amanhecer... é você

É você meu bem querer! ;)

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

Sebastião Salgado Posted by Hello

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Entrar pra perder

— É o que eu te digo, Alfredo. Só otário entra pra perder.

— Também não é assim, Nestor. Existem diversas razões pra um cara entrar meia-bomba num jogo.

— Me diz umazinha só.

— Ué, às vezes o cara já sabe que vai perder. Ou nem perder, mas já sabe que boa coisa não vai dar. Aí o melhor é economizar recurso e energia pra uma oportunidade realmente boa.

— Então, já que está na merda, liga o “foda-se”?

— Por aí.

— Nunca ouvi tanta asneira junta, Alfredo. Imagina se esse sujeito hipotético que você inventou fosse a regra. Como ia ser? Primeiro que ninguém casava, o mundo ia ser gay, a única forma de comunicação perfeita que existe. Título de eleitor virava artigo de colecionador. Companhia de seguro, faliriam todas. Campeonato ia ser decidido na primeira rodada, quem perdesse na primeira e já ficasse pra trás nem precisava jogar de novo. Atletismo então? Não existiria o gosto pela superação, o treinamento incansável, ninguém batia recorde! Não existiria o famoso sprint, a arrancada final. Não existiria emoção, virada... Quer saber? Não existiria torcedor!!

— Você está exagerando...

— E não existiria, principalmente, o vascaíno. O vascaíno, Alfredo, é uma esfinge. O que sofre e ama, como agüenta é um mistério, mas continua sempre ali, impávido. Percebeu? Espanto, meu caro, espanto! O Vasco é o time da virada porque ninguém crê tanto como o vascaíno. Jogo do Vasco só esvazia quando o juiz apita. Até os quarenta e quatro e meio tem nego torcendo. Apesar de tudo, apesar até do Bruno Lazaroni. Te digo mais: o que estão fazendo com esse time não é só uma simples questão de cagar o campeonato desse ano. Esses caras estão manchando uma história, destruindo o futuro. Estão esvaziando as arquibancadas dos próximos trinta e cinco campeonatos! Estão evitando a paixão de outros guris. Tem criança olhando, Alfredo! Do mesmo jeito que eu já estive, que você já esteve, como meu filho estava hoje. Com que cara eu olho pro moleque? Sabe o que ele me perguntou outro dia? Virou-se pra mim e disparou: “Ô pai, o Vasco é assim feito Atlético, que tem um monte? Porque esse daí não parece nada com o Vascão que você fala. Esse é do outro?”. Do outro! Ele acha que tem mais de um tipo, que eu falo de um time que não existe mais, que não é aquele que ele vê jogar, Alfredo! Nada justifica entrar pra perder!

— Tudo bem, Nestor. Mas teu caso é diferente. Não dá pra comparar o time do Galvão e a tua linha de passe com a Alzira!

— Como não? Como não? Raciocina, Alfredo. Ela também tá entrando pra perder! Não prestaste atenção numa vírgula do que eu contei, seu pulha. Prestenção: a Alzira disse que teve um pressentimento, uma visagem ou como seja, de que nosso relacionamento ia pelo ralo. Por isso resolveu fazer boicote, piquete, chochar a coisa toda. Não adiantou nada. Eu continuei firme. Ela dormiu de calça. Eu firme. Ela deixou as cuecas sujas empilharem. E eu no amor. Cozinhou jiló cinco dias seguidos. Virou evangélica, e eu resistindo, amando, amando... tirava o telefone do gancho e fingia que falava com outro homem e eu rindo na extensão, sabendo que do outro lado só tinha o tu-tu-tu de ocupado. Banho? Que banho? De gato, e olhe lá. Colocava vinagre nas minhas garrafas de Magnífica, mastigava dente de alho o dia inteiro, pra eu não chegar nem perto. Disse pra vizinha, bem alto pra eu ouvir, que o nosso caso está na hora de acabar. Dolores é apelação, Alfredo! Hoje ela exagerou: ameaçou botar um pôster do Beto na parede. Mas não levou adiante, essa nem ela mesma agüentava. Também aí nem era separação, era homicídio.

— Mas então o que é que você vai fazer agora?

— Sei não. Mas eu não entro em jogo pra perder. Dessa mulher eu já quis tudo, já roubei a alma, tive o coração dela na mão, rapaz. Mistura uma calcinha dela no meio das de outras trinta mulheres e eu acho de olho fechado. Eu conheço minha flor de cor e salteado. Nem me sei longe dela...

— Há malas que vão para Belém, Nestor. Quem sabe é melhor assim.

— Perder a Alzira? Pirou! Perder por que pode ser que um dia talvez quem sabe a gente se separe? Faça-me o favor. Vergonha cresce na minha cara junto com a barba, meu chapa. Me aguarde.

— Que vai fazer?

— Xacomigo.

Um mês depois, os dois amigos se esbarram de novo na saída do jogo.

— Ô Nestor! Quanto tempo! Como é que vão as coisas? Você tá com uma cara ótima, rapaz! E a Alzira?

— Alzira tá uma pétala. Só você vendo. Vamos às mil maravilhas.

— É mesmo? O que você fez? Milagre?

— Casei.

— Casou? Puxa, meus parabéns! Mas nem convidou, Nestor? Puxa vida, eu pensei que a gente fosse mais amigo... Já sei. Você e Alzira resolveram assim de súbito.

— Não, não foi bem assim.

— Ué... Então por que o mistério? Ninguém lá no bar comentou nada também.

— É que eu casei, mas...

— Mas?

— Não foi com a Alzira.

— ...?

— Eu casei com a Carminha.

— A tua prima boazuda?!?

— Prima de consideração, ô figura. Olha o respeito. A Carminha é irmã da Míriam, mulher do Osvaldo, esse sim meu primo.

— Mas péra lá... Não tem bem um mês você tava cabisbaixo, dizendo que não ia conseguir nem viver sem a Alzira... E agora casou com outra e ainda diz que ela tá ótima? Num tou entendendo nada!

— Sempre te achei curto de idéia. Mas eu explico. Lembra que ela teve um pressentimento?

— Sei. Que vocês iam se separar definitivamente e então ela começou a melar a relação de vocês pra não sofrer depois.

— Pois é. Casei com a Carminha pra tranqüilizar a Alzira, provando que ela estava certa. Mulher e cliente sempre têm razão, Alfredo, lembre-se disso. Contei que tinha um caso, que na verdade só começou depois, nós nos separamos, o presságio virou realidade e aí não sobrou mais ameaça nenhuma, já tinha acontecido. Compreendeu? Agora a gente pode namorar em paz.

— Macacos me mordam, eu nunca ouvi nada parecido com isso Nestor. Você ia perder a Alzira e agora não só ainda está com ela como casou com a Carminha, as duas mulheres mais desejadas do bairro!

— Na vida como no futebol, Alfredo. Pra não perder um jogo eu faço até gol contra pra acender os brios, pego rebote, contra-ataco, cruzo e finalizo. Espantei o tinhoso encarnando o cão! Eu não entro em jogo pra perder!

— É, Nestor... eu ainda volto a ver o Vasco jogar assim, que nem você. Vamos tomar umas brejas pra ver se você me ensina direitinho como é que se aplica essa filosofia... Por acaso a Carminha não tem outra irmã?

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Coruja!

http://oglobo.globo.com/jornal/suplementos/segundocaderno/capa.asp

Eu não consigo parar de sorrir! :)

PS: Valeu, Hugo.
Sukman é poder! ;)
Quem vc consegue identificar? :) Posted by Hello

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Insônia III

Trilha: SCRIABIN - LE POÈME DE L’EXTASE, OP.54
Pra Milena

Hoje eu tava vendo você dormir e foi como se um vento frio passasse no meu coração, através de uma janela empenada que eu tento, tento, mas não consigo fechar, fica sempre meio aberta, eu já te contei um pouco sobre isso, que me dá calafrio, você é muito pequena, o meu amor é muito grande, o meu coração é muito, muito feio, não que nem o de toda gente grande, um pouco assim também, mas errado que nem o meu eu tô pra ver ainda, só você faz, só você, com que eu pareça um pouco menos inepta, por isso eu gosto de te espiar dormindo e o vento sopra sem parar.

Não sei se você foi feita pra esse mundo, esse mundo com certeza não é meu, se for de alguém, que esse alguém se pronuncie, alguém tem que cuidar do que é próprio, como eu cuido de você, mas desse mundo de ninguém quem é que cuida, essa nau desgovernada no meio da incúria humana, e foi bem nele que nós caímos e eu queria que tivesse jeito aí eu fico com uma pontinha de esperança, não é possível o nunca, detesto todo o irrefragável, e nunca vão deixar a gente pensar em paz e bate daqui e dali, todos os lados apanham e só a rafaméia é que não entende lhufas, como sempre, e esse vento frio fica me lembrando o tempo todo que eu não sei qual é o certo, que ninguém quer ter filho néscio, presta atenção, pra sofrer na mão dos outros antes eu do que você, antes eu sempre, em qualquer situação, mas não consigo te incutir o mal, me dá arrepio, você é muito bonita pra ser menos boa, como é que eu vou saber se devo te ensinar a se defender, como saber se devo empedernir a tua casca?

Melhor vestir um casaco e parar de pensar besteira, fico com insônia e as minhas razões fatigam-se, os olhos ressecam e enxergam torto, mais torto que meu nistagmo, de madrugada só o opróbio se sustenta e não adianta sair pelo reino de Morpheus atrás de alguma honra ou virtude que elas só existem em contraposição, só existe a graça depois da angústia, eu ainda tenho que agradecer por chegar em casa inteira e fico o dia inteiro longe de você imaginando as piores coisas, preciso ver menos TV, as vicissitudes morais se realimentam no coletivo, e a gente se sente mais de um na frente de uma TV, tem gente até que só dorme com elas ligadas de tanta solidão e não percebe que os pensamentos se liquefazem, os temores empedram e cada vez existem mais frinchas na alma prestes a rachar.

Na dúvida entre te ensinar a gostar de passarinho ou brincar de atiradeira, entre torcer pela princesa ou pela bruxa, entre se deixar usar ou chutar cabeças, entre essas e tantas outras dúvidas, eu vou estar sempre errada. Sei agora que sempre vou estar errada e não será por ignorância, mas por opção. Prefiro assim. Se eu estiver certa, nós duas não pertencemos mesmo a este mundo, e não cabe a mim erguer teus muros, infelizmente, os meus ficaram altos, altos demais. Errada, filha minha, mas sempre do teu lado.

Um beijo da Mamãe.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Parabéns pro aniversariante! JONGO - 17/11/2002 Posted by Hello

Saudades de Aldir Cronista II

Pra matar as saudades, enquanto as novidades não chegam, pedi pra colocar aqui esta crônica, uma das mais pedidas pelos fãs saudosos. Eu tb a-do-ro. ;)

PALAVRA DE HOMEM

Aldir Blanc


No apartamento onde moro existe um cômodo misterioso: o escritório. Não escrevo nele, mas lá estão os livros, o computador, a velha máquina de escrever, o fax, os discos... De vez em quando, peço licença e entro lá pra apanhar alguma coisa. O lugar é dominado por minha mulher e quatro filhas.
Uma noite, fui atrás de um livro policial com Pepe Carvalho, meu detetive favorito, e dei de cara com as cinco me olhando.
Só o homem que vive com cinco mulheres sabe os riscos dessa convivência. Ë preciso ser o que meu amigo Mello Menezes chama de "canalha cálido": terno, compreensivo, com apurado senso de justiça, jamais deixando que ciúmes extrapolem, ajeita daqui, manera de lá, tentando não perder um pedacinho sequer do imenso amor que todas sentem por mim e que eu, modéstia à parte, mereço. Bom, manter essa peteca no ar sem uma certa dose de canalhice, sinceramente, não dá.
Na tal noite, que mudou minha vida, as cinco me olhavam, intensas, e pude sentir que o homem não é nada quando mulheres tomam uma decisão. Os olhares diziam mais ou menos assim: isso é assunto nosso, morou? Estamos envolvendo você por consideração, etc, mas ESSE NÃO É SEU DEPARTAMENTO, CERTO?
Uma delas me deu uma lata de cerveja geladinha, outra me passou uma cigarrilha holandesa, botaram um disco de jazz que eu amo na vitrola, e Isabel, a caçula, me jogou um beijinho como quem diz: coragem! Cumprido esse preâmbulo ritualístico, a Rainha das Amazonas anunciou:
- Tatiana está grávida.
Elas dizem que é folclore, mas eu senti direitinho a fumaça da cigarrilha saindo pelas orelhas. Engasguei, fiz gestos estranhos, e a Pátrícia suspirou:
- Eu disse que era melhor acender um troço mais forte...
Eu nasci no Estácio, pô! Qualé? Fui criado em Vila Isabel! Não vou perder a pose mole, não! Eu e o Bruce Willys somos duro de matar, neguinhas! Vou mostrar pra vocês meu famoso jogo de cintura. Quando vocês iam, eu já estava voltando, tá legal?
Parei de espernear, levantei do chão, Isabel enxugou a lourinha entornada em minha camisa, e tomei ali, na hora, uma decisão de macho: não vou permitir que elas percebam meus verdadeiros sentimentos. Nunca! Par o próprio bem delas, tenho que ficar frio. Vou fazer minha imitação de Robert Mitchum.
Pronto. Nervos devidamente colocados no lugar, tive um acesso de choro. Nada de BUÁÁÁÁÁÁ e SNIFF, coisa de criança. Sou da Zona Norte. Foi assim: AAAMMMHHHNNNN!
Vendo que eu havia conseguido o completo domínio de minha emoção, Mari Lúcia continuou:
- São gêmeos.
- AAAIIIIIMHHNNNHHHIIIIGRFSSSS!
Mais lenha:
- A Mariana também está grávida.
Voltei a mim, igualzinho no antigo samba, nos braços de Isabel. "Nos braços de Isabel eu sou mais homem, nos braços de Isabel eu sou um deus..."Afagando minha barba em desalinho, Isabel brincou:
- Vai ser vovô...
Mari Lúcia me abanava, Mariana pingava gotinhas de Efortil dentro de outra latinha, Jung (meu bravo e fiel cão de guarda), lambia minha cara, Patrícia rezava um mantra aprendido em Búzios, e Tatiana repetia, sorridente:
- Assim a gente mata o velho...
Minha garganta emitia sons gorgolejantes. Todas insistiam:
- Fala, tenta falar. Cê vai se sentir melhor.
Consegui articular:
- Tô com uma vontade louca de comer carambola.
É isso, amigas. Fecundado pela palavra vovô, eu estava irremediavelmente grávido de meus netos.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Diário de um desvario

Trilha: Francanapa - Astor Piazzola

Dia 1
Se esse for o tempo, o tempo das flores e o tempo de viver só, pra cada adeus uma saudade e das saudades as razões se esvaem, brincam de orvalho, caindo serenas e manchadas de lua, transfiguradas em desvarios e de volta pra saudade.
Quantas serão as horas passadas ao largo, as horas mortas e as outras tantas trancadas no baú, em meio a pilhas de lembranças puídas, mofando no banheiro onde uma poça de solidão faz brilhar os azulejos sujos.

Dia 2
Da ponta dos dedos, um lumaréu estaciona no em torno. As mãos atadas por cordas de embira, os olhos cerrados e cobertos de nuvens, suor. Dos pés e pernas trançados em movimentos suaves, desliza o apaziguado coração, parcial enganador que suga de dentro do átimo sua pálida e fugidia segurança. Bestializado e cansado, o pobre apaixonado deixa-se levar pelo tango marcado, pisado, batido nas palmas, no susto, na alma e aguarda, clemente, que a cadência o redima, a cintura o vitime, de tal temor, de tanta despedida.

Dia 3
Como que caído de um buraco negro, o anjo pousou-se águia em seus ombros. Com as ofensas na ponta da unhas afiadas, cortou-lhe a pele, matou de novo o assassinado. Torturado este moribundo, exigiu outro sacrifício, ergueu o altar, ressucitou-lhe as carnes, mas não a pele. E cravou outra vez na vítima as garras envenenadas. Morrer morrendo.

Dia 4
Na quinta, foi domingo. E na sexta idem. Depois veio o sábado e o domingo foi uma quinta. E essa segunda? Vai ser sexta, provavelmente, mas não sei se teremos cadeiras para todos.

Dia 5
Cuspir na cara. É bom pra desabafar. Melhor do que chope, porque a tulipa é cara e na cara quebra. No duro. Dizem que se o cuspe é fino é boa saúde, mas se for grosso desliza melhor. Satisfação pessoal é subjetiva. Aliás, pessoal é subjetivo. Ninguém faz mais nada escondido e todo mundo ficou sabendo. Eles ficam sempre sabendo. Tem um que espia tudo. Finge que usa óculos, que tem mais idade e que compreende tudo. Disseram que foi viadagem, mas também podia ser disritmia. Buzinaram horas sem que ele respondesse, aí os grilos desistiram, entraram pra dentro da noite e a lua foi dormir.

Dia 6
Ab imo corde.

Dia 7
Um despropósito de silêncio veio antes dos pássaros. Quando eles invadiram o quarto, as paredes já estavam mudas. Só uma fronha pequena, com bordados na barra, dava um ou outro suspiro de vez em quando. As aves roxas e vermelhas chegaram juntas e tentaram fazer barulho. Nada. Só o suspiro da fronha. Aves vermelhas provocavam disparatadas as roxas que respondiam com ofensas irretratáveis, mas o breu de ouvido não cedia. Agitavam-se, grasnavam, crocitavam, arensavam, bramiam, batiam furiosamente as asas, misturavam-se às roupas no chão, chocavam-se com o ventilador, arremessavam contra os vidros e as treliças. Rasgaram os lençóis de seda brancos, derrubaram os quadros, destruíram o guarda vestido, loucas, furiosas com o silêncio irredutível. Não era mais um sem som, era um quebranto. Um avestruz apareceu de repente e bebeu sozinho uma garrafa de Balla 12. A pequena fronha deu o último suspiro.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Love is about guts. Posted by Hello

CESTA DE BOMBOM

TRILHA: “EN LA ORILLA DEL MUNDO” – CHARLIE HADEN

O despertador tocou. Sonolenta e vacilante, ela tateia pela mesinha, agarra o telefone, diz alô no nada, o despertador apitando loucamente, que raiva, que sono, ela encontra o infeliz e o desliga. Larga a cabeça no travesseiro dando bufas e sonda o outro travesseiro da cama, que está vazio. De onde raios saiu esse despertador? E programado pra tão cedo ainda por cima? Ela se ergue com uma expressão descontente, esfrega os olhos e percebe a seu lado uma linda cesta de presente com um enorme laço de fita e um envelope.

“Meu amor:
Hoje é nosso aniversário de casamento. Sei que esta minha viagem de trabalho te desagradou profundamente, mas afirmo-te ter sido absolutamente necessário. Sabes como é este mundo em que vivemos, nunca dá tempo de ter tempo. Ou nunca se tem tempo suficiente pra dar. A fim de tentar compensar esta e muitas outras descortesias minhas para contigo é que preparei esta surpresa. Pus o despertador para tocar e tenho em mãos uma cópia desta carta, que leio também neste exato momento. Dentro da cesta, vais encontrar uma generosa porção daqueles bombons que tanto gostas, os de cereja. Lembras? Eu jamais me esquecerei.

Coma um bombonzinho. Eu como outro daqui e para cada um destes bocados você deve pensar num beijo meu. Combinado? Mas tem que ser juntinho pra dar certo. Lá vai: um dois três e já, um bombonzinho e um beijinho.

Durante todos estes anos de casamento, tu me fizeste o homem mais feliz do mundo. Cada pequeno gesto de carinho ficou registrado. Duvidas? Pois eu provo então ser esta a expressão mais pura da verdade. Sei, por exemplo, que escolheste a camisola das núpcias na cor azul por minha preferência. Sei que aprendeste a cozinhar meu pratos prediletos, copiando as receitas de minha família com precisão.

Outro bombonzinho, minha linda, outro beijinho.

Sei também que fechaste os olhos para meus defeitos, minhas variações de humor. Agradeço-te por cada lição aprendida, coisas que só tu, com tamanha doçura, poderia me fazer ouvir. Sou um homem melhor hoje, sei cuidar de meus cabelos, de minha barba, até das unhas dos pés e dos pêlos nas orelhas. Tudo por ti.

Mais um bombom, amor meu. Quase posso sentir-lhe a boca!

Quero que saibas também dos meus esforços, que apesar de muito menores e ordinários, os foram não por falta de amor. Dei-te tudo, do bom e do melhor. Dediquei-te minhas horas extras, malditos serões intermináveis, durante os quais eu só pensava em ti. Sentia-me terrivelmente só, mas a tua imagem, candidamente dormindo em nosso leito, a esperar por mim, era todo o meu consolo.

Bombonzinho, vai, mais um para que eu possa beijar-te.

Também procurei respeitar teus humores, as dores de cabeça cada vez mais freqüentes nos últimos meses, as pequenas desatenções, como deixar de passar-me as camisas, ou dar meias sem cerzir para calçar. Nem poderia arreliar-me tanto com episódios comezinhos, pois pela manhã tua disposição era sempre das melhores. A mesa do café sempre posta e bem arrumada, teu sorriso, tua voz a cantar um sucesso de Dircinha, o beijo de despedida na porta da rua...

Eu disse beijo? Outro bombom!

Pena que nos finais de semana, justamente quando era possível passar mais tempo em tua companhia, te acometiam as mais furiosas indisposições. Como temi por tua saúde. Gastei, você bem o sabe, muito dinheiro com especialistas das mais diversas áreas. Fiz promessa até. Meu coração doía de pena de ti, sofrendo tanto.

Bombonzinho, bombonzinho...

E, exatamente com a única intenção de te agradar, eu já tinha decidido voltar desta minha viagem mais cedo, de surpresa. Foi o que fiz ontem, no fim da tarde. Eu falei em surpresas? Eu é que fiquei perplexo. Sabes o que vi quando cheguei? Ah, bem sei que o sabes. Não, minha querida, não foi a traição propriamente dita que me destruiu. Encontrar outro homem em minha cama poderia ser perfeitamente sobrepujável, não fosse o pequeno detalhe de serem dois homens, não um, e negros, reluzentemente negros, e com caralhos colossais, prodigiosos. Havia porra espalhada por todo lado, do seu rosto à cortina e o cheiro do quarto era insuportável. E os três num estado animalesco de tal ordem que sequer notaram minha presença espiando pela porta entreaberta. Nojo? Náusea, enjôo? Não. Repulsão, repugnância, asco. Aversão. Ojeriza. Tanta que preferi deixar a casa imediatamente. Vaguei algumas horas e decidi retornar para a cidade em que estava, o mesmo quarto de hotel de onde eu nunca deveria ter saído.

Mas senti e sinto ainda vontade de beijar e abraçar minha mulher. Não a pérfida, traiçoeira e repelente mulher que dormia com aquelas aberrações, mas a doce e imaculada criatura com quem me casei. Porém, enquanto a memória da meretriz em mim permanecer, jamais minha alma terá paz de amar minha santinha. O demônio se apossou de seu corpo e de seu espírito e agora cabe a mim resgatá-la. Por isso mandei a cesta e os presentes. Realmente estou neste exato momento lendo a carta junto contigo. Também estou a comer os mesmos bombons, juntinho. Só que os teus têm arsênico. Os meus não.

Com todo o amor deste sempre teu,
Orlando.

PS: Corno é a putaquepariu.”

Arritmia em pêndulo

Pro Babo, no amor de quem eu fui morar

A cada passo
Do meu caminhar,
Se eu me perco
Ou se me acho,
Sei que só faço
O que mandar
O meu feitio.

A cada respirar
Do meu impulso,
Se é profundo
Ou mais suspiro,
Sei que só desfiro
O golpe justo
Do nosso vazio.

A cada grito
Inesperado,
Cada desamor
Propositado,
Cada manhã arruinada
Por outra noite mal curada,
Eu desmancho mais
E te quero mais,
Matando todos os meus dias.
Esperando, acorrentada a cada instante,
Que o teu amor inconstante,
Ainda que hesitante,
Venha calar-me o pranto incessante.

A cada arroubo
Inopioso,
Cada ceder
Virtuoso,
Cada silencioso martírio
Atado ao beijo ausente,
Eu desvelo ainda,
Prisioneira ainda.
Batendo no peito um relógio
Que conta o tempo pra trás.
Boquiaberto,
O coração cedeu espaço incerto
Pra um tique-taque deserto.

A cada batida
Monocórdia tento
Aceitar o meu destino
Assustoso – quiçá só um
Mal pressentimento:
Ainda vou morrer de amar
Mais do que agüento.

quinta-feira, 11 de novembro de 2004

Obrigada, obrigadão, obrigadíssima!!

Essa semana andei muito jururu com a perda de alguns textos antigos que eu queria muito colocar aqui no blog. Eis então que surge Edu, o Árduo (muuuito infame, minha nossa! rs) e não é que ele, tutor dos meus bebês, achou-os todos? Ah, mas eu fiquei tão feliz que fiz até a dança do elefantinho pra comemorar!!
Edu, amado, muito muito muito e outros tantos muito obrigadas, viu? Estou preparando uma surpresa bunitinha.

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Miró - Figure and Birds, 1948. Posted by Hello

terça-feira, 9 de novembro de 2004

TEM EM QUALQUER LUGAR

Eram duas horas da manhã quando ela chegou em casa. Os pés doíam, a meia-calça tinha desfiado da coxa ao tornozelo, a maquiagem meio desmanchada tinha feito um olho de panda na cara, o penteado também já não estava mais essas coisas e, ainda assim, um sorriso insistia em brincar nos cantos da boca, pegando-a desprevenida no meio dos melhores pensamentos. Jogou-se no sofá, com as pernas pra cima, ligou o som, escolheu a faixa certa e começou a cantar. Fez um agradecimento silencioso à Conspiração Universal, muito obrigada por ter me tirado de casa hoje. Não podia ter aprendido lição mais valiosa nesse momento. Mas a verdade é que não tinha sido de todo assim tão fácil...

Os dias anteriores foram de pura decepção. O tão esperado reencontro com o amor de sua vida, aguardado ansiosamente durante semanas, tinha começado como um conto de fadas e terminado num retumbante fiasco. Depois de seduzir, acariciar, depois usar todos os clichês românticos, depois até mesmo de beijá-la, aquele homem tão imensamente amado, aquele homem pelo qual ela se manteve alheia e distante de qualquer outro, aquele cuja ausência irremediava o destino, aquele homem negou seu carinho. Negou seu afago, negou colo, negou lamber as feridas que ele mesmo causara, negou socorro. Negou o passado, negou o presente. Assassinou o futuro. Ela ainda pediu uma última vez: “não vai. Fica comigo hoje, apenas se deixe ficar ao meu lado, não vai...”. Covarde, ele respondeu: “ficar hoje não adianta nada, não resolve meus problemas. Trepada boa tem em qualquer lugar”.

Ela sentiu as entranhas revirarem como se estivessem tentando lhe arrancar as tripas pelo buraco do umbigo. Cinco meses. Cinco meses fechada, sem permitir que ninguém a tocasse, fugindo, inventando pra si mesma as desculpas mais estapafúrdias, cinco meses pra ouvir que um trepada boa tinha até na esquina. O peito calcinava... ela agarrou o cordão que trazia no pescoço e instintivamente, pra se defender, arrancou com corrente e tudo o relicário com a foto dos dois juntos e atirou longe. Num arroubo de dor e de vergonha, ela não teve mais forças pra continuar. Saiu correndo pelo corredor, deixando o sujeito estatelado na beira da escada, bateu a porta de casa atrás de si, uivando de tanto chorar. Os pensamentos chocavam-se uns contra os outros, como é possível amar um corpo sem alma, sem sangue nas veias, capaz de tanto destrato? Queria levantar do chão e as pernas não deixavam, o choro não cessava, ficou ali sentada, doendo, remoendo, do avesso pro direito, até as pernas ficarem dormentes.

Adoeceu. Febre alta, crises intermináveis de calafrio, cãibras nas pernas, nos braços, amígdalas em pandarecos, enjôos incuráveis, três dias de cama.

Quando o telefone tocou, seu primeiro pensamento foi arrancar da parede aparelho, tomada fio, tudo de uma vez. Respirou fundo, pode ser importante, e atendeu. “vem pra quadra da escola agora. Tá todo mundo esperando por vc”. Não posso, não, não quero, não dá, nem adianta, nem te conto, doendo a vida, do cabelo à unha, mais ou menos, umas coisas aí, nada demais, porque não, porque não quero, não insiste, quem, não brinca, mas é melhor não, é mesmo, mentira sua, tanto assim, até aqui?, só pra me buscar?, verdade?, me arrumo em vinte minutos.

Foi. Se cobriu da purpurina que não tinha, usou o Lancôme que tinha acabado e foi. Foi com tudo, que a bicha pode até ficar bege, mas não cai do salto jamais...

A sensação ao chegar na quadra da escola era a de que a vida voltaria a ser contente. Mesmo sem saber bem porquê.

Bastou um sorriso.

Bastaram (é pouco?) três passos, dois rodopios, muita atenção, três meias-voltas, cinco compassos, outros tantos sorrisos, mais dedicação, um abraço... Passaram-se muitos minutos, horas. Seria possível? Cautelosa, semi-entregue, ela se deixa levar na trança das pernas, no ritmo do afago, na felicidade da descensura, e dançou a noite inteira, até a última nota, do último samba. Foi pra casa com o coração tranqüilo. Já na porta do prédio, o celular apita um recado. Ela lê o torpedo com a frase redentora: “você devia ter ficado comigo hoje. Nós merecíamos”.

Às duas da manhã, com as pernas pra cima do sofá, ela é obrigada a concordar. Realmente.
A próxima trepada boa até que pode mesmo estar na próxima esquina...

E a vida sorriu.

Sorri
A/G D6(9)
Depois do beijo, sorri
F° Em Asus4
Depois do abraço, parti
A7 C#7(#9)
Marcamos um novo encontro
Tu não vieste
F#m7(b5)
Fiquei triste
B7 G#m7(b5)
A lua cheia fez-me sorrir
A/G D6
Depois do beijo, sorri
F° Em Asus4
Depois do abraço, senti
A7 D6(9) Am
Muitas saudades de ti
D7
Amei
Porque amor por ti
G7M D7
Eu tinha demais
G7M
Te adorei
Esus4 E7 Gm6 A7(9)
E tu roubaste a minha alegria de viver
B7
Eu chorei
G#m7(b5)
Depois eu sorri...

(Sorri, de Elton Medeiros e Zé Ketti)

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

PLANTÃO 24H !! Posted by Hello

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

ORAÇÃO PERDIDA

Aldir Blanc / Jayme Vignoli / Luiz Flavio Alcofra

Por esse Amor estarei
na cruz do meu dia a dia.
Até a Virgem Maria
acha estranho o que eu passei.

Meu Amor chegou assim,
cavaleiro de cordel.
Fiquei grávida de mim.
Gêmeos, sim: Inferno e Céu.

O Amor me encheu de todo,
de queixumes, de jasmim,
de estrelas e de lodo,
de um perfume carmesim.

Sou um barco de segredo
brilhando feito um altar,
navegando um rio negro
que vai se atirar no mar.

Se a aflição me atingir
será raio prateado,
luar assombrando o monte,
cavalo branco assustado.

Amor vero e mentiroso
feito um caco de horizonte,
um incêndio criminoso
no manancial da fonte.

Meu Amor me dará pedra
e sangue pra comungar.
O Amor é meu pastor:
tudo me faltará.

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Jack in Mariel's Posted by Hello

Batata! A essa hora?!?

Desculpe, princesas, mas eu tinha que contar isso agora. Na casa do Batata, o que se procura sempre se acha. Às vezes a gente acha até aquilo que não tava procurando. Ou perde o que nem sabia que tinha pra perder. E dessa vez não foi diferente. A festa de segunda-feira, véspera do feriado de finados foi uma lou-cu-ra!

Quando essa humilde narradora que vos fala aportou no terreiro de Pai Batatã de Lobó-Unhé na intenção singela de apenas reverenciar os eguns, a coisa já parecia estar esquentando há tempos, apesar do toró monumental que se abateu sobre a cobertura do Rio Comprido. Aliás, perdeu-se um guarda-chuva, tá bem? Aliás, perdeu-se um tanto mais de coisas, algumas irrecuperáveis, outras nem tanto, um anel, um brinco de boneco agarradinho e uma ou duas belíssimas oportunidades... Aliás, a única coisa que eu não perdi foi a viagem, porque depois do tombo cinematográfico, nem a vergonha na cara me sobrou... meu joelho parece uma bola de boliche. Acho que quebrei alguma coisa, doutor... Ai, ui, tem certeza? Nem um emplastro sabiá no meu quintal? Ai, doutor, deixa pelo menos eu vestir alguma coisa...

De maneiras que vamos em frente.

A cena na minha chegada: fizeram festa pra minha garrafa de vodka. E olha que era só uma Smirnoff. Comecei a me preocupar. O Pulga já descalço na churrasqueira com cara de alquimista louco (eu acho que ele colocou alguma coisa no tempero da lingüiça – sem trocadilhos, por favor...), uma circulação frenética de pessoas subindo e descendo a escada em caracol, o Mateus cercado de moças desfalecidas com tanto garbo (muito donaire pra pouco tomaire, queixaram-se as pobres desafortunadas depois). Nosso anfitrião batatíssimo perdido entre picanhas, latas de cerveja e solicitações das mais diversas (“tem lata de lixo?”, “onde eu coloco as cervejas?”, “melhor pegar outro pano de chão...”, “traz um rodo!”, “cadê o limão da caipirinha?”, “alguém viu o Marcos Vinícius?”, “acabaram com o gelo!”, “quem pegou a porra da faca que tava aqui?”, “e o rodo?”, “pode usar o banheiro lá de baixo?”, “acharam o Marcos?”, “cadê a farofa?”, “Ih, Manuel, acabou o papel!”, “mas será possível que não tem um rodo nessa casa?”). O Juliano, pra variar, cercado por outras tantas moças, dava uma risadinha aqui, estalava um beijinho acolá, dava mais uma risadinha, apertava uma bochechinha, tudo no melhor estilo cuti-cuti-cuti, com a pequena diferença de estar umas cinco caipivodkas na frente do resto, fumando (hein?) aromáticas cigarrilhas baianas. E tinha ela, Tatiana, uma máquina! Fazia litros de caipirinha em poucos minutos e derramava-os todos na mesma velocidade, alguns goela abaixo, outros inteiros virados em cima das asinhas de frango temperadas na geladeira. Agora fora de brincadeira, a moça estava guerreira, deixou os marmanjos no chinelo, insuperável.

Lá pras doze badaladas é que a coisa começou a complicar. Charles teve uma crise seríssima de Burt Reynolds. Baixou nele um caboclo Valadão que não perdoava ninguém que passasse na frente. Te agüenta, nêga!

O Marcos continuava sumido. Juro! Tinha gente achando que o menino tinha sido abduzido.

Várias pessoas acotovelavam-se na frente do rádio trocando de Lulu Santos para Bonde do Tigrão e de volta para Ramones, o que obrigava a audiência a executar a dança do pelicano oligofrênico pra acompanhar o ritmo.

Eu, pra variar, fui acometida por uma crise de falatório verborrágico e entre outras coisas, entre um tombo e outro, fiz discurso da alma tijucana ao som dos funéreos fogos pro falecido patrono salgueirense Miro Garcia. Isso, antes de me estabacar de joelho no chão. Ou será que foi depois? Ou será que eu caí antes e depois? Eu bem que avisei que alguém ia acabar voando longe... Acho que eu cheguei a dar uma choradinha, mas com certeza nada tinha a ver com a queda. Sempre acontece quando os Exús saem da capa da noite e um deles tinha acabado de fazer uma ligação astral pro meu celular.

Falar em astral... O Buinha merece um altar. Não sei como ele agüenta tanto louco junto sem perder a pose um minuto só. Bem que ele podia ajudar a esclarecer outro mistério: o atual bichinho de estimação da Priscilla, essa nossa reencarnação de São Francisco de Assis (copyright DD, please), é um pterodáctilo ou uma anta-marinha? Ou seria um hierofante? Eu tb tenho saudade do Darta, mas ele/ela merece um capítulo à parte. Teria a Pris lido o Harry Potter? As perguntas não querem calar!

De manhã alguns mistérios começaram a ser resolvidos. O Marcos foi finalmente encontrado, no banheiro. Infelizmente as fontes falharam em descobrir com quem teria estado ele esse tempo todo. Minha cigarreira desaparecida tava debaixo da Isabela, que estava atravessada sobre a Simone, que aboletou-se junto da Bárbara, que ficou espremida entre a Maura e a Mariana, que não parava de tirar foto um minuto. Uma coisa a gente tem que admitir: essas mulheres estão cada dia mais insuportáveis de lindas, de interessantes, charmosas, poderosas... quando eu crescer, eu quero ser assim, exatamente igual a elas.

Disseram que a Alê passou bólidamente por lá, mas há controvérsia. Às cinco da manhã tinha gente jurando que foi alucinação coletiva. A julgar pelo estado geral de coisas, ela é que deve ter achado tudo uma tremenda viagem...

Eu fui saída mais ou menos às seis pelo meu anjo da guarda, que anda cada dia menos angelical e mais endiabrado. No fim do dia, eu ainda podia sentir cheiro de incenso e mirra pela casa e meu coração estava feliz.

O único insolúvel mistério da noite foi: nos braços de que sereia ter-se-á perdido nosso assoberbado anfitrião? Rola um boato de que ele está até agora soterrado de almofadas, só de cuequinha, nanando bunitim, com um sorrisinho muito do maroto nos lábios... quem sabe já sonhando com a próxima festa.

Eu não vejo a hora! ;)


- Filhotes de cachorro! Posted by Hello

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Gatos pretos, bandeiras brancas...

Oxalufã anda "disimpussível" !!
Conosco, meu bem, ninguém podemos... ;) Posted by Hello


domingo, 31 de outubro de 2004

TIJUCA

De Aldir Blanc


Eu já escrevi em algum lugar que a Tijuca é um estado... de sítio. O tijucano é um sitiado. Não tanto pela crescente violência. O tijucano é, por natureza, perdido como uma bala. Com seu amor peculiar pelo bairro, sitia a si mesmo.
Inúmeras vezes, um tijucano já foi flagrado, eufórico, no buteco (ponto para o bairro: a Tijuca é pródiga em butecos seletos), anunciando aos quatro ventos:
— Adeus, Tijuca! Tô indo pro Leblon!
Meses depois da mudança, é visto, disfarçado, pelas esquinas da Tijuca, suspirando. Se você o aborda, ri amarelo, fala da superioridade do Leblon, da praia, do comércio, das opções culturais, das... (está prestes a chorar) das... das mulheres.
É só dar o golpe de misericórdia:
— Tá com saudade, hein?
Em menos de um mês, o cara volta. É verdade que volta com o ressentimento ambíguo próprio do tijucano. No papo, quando faz a fezinha, tenta botar banca:
— Eu já morei no Leblon...
O tijucano é um emergente que não deu certo. Por sua própria culpa. Na praia, cervejinha em punho, cercado de tangas, suava frio ao ouvir o chamado atávico da floresta. Dizem que na hora de levar o suculento naco de lagosta à boca, instalado no mais caro restaurante do Leblon, sentia saudade da tímida barata que o fitava, humilde, num cantinho da pizzaria tijucana. Gente maldosa garante que ele cumprimentava, discretamente, a barata: oi, Dulce Marguerita (o nome é uma singela homenagem à pizza de sua predileção).
O tijucano é antes de tudo um porte. Uma pose. Uma figura. Um extra fazendo bico no próprio filme. Na imortal imagem de Nelson Rodrigues, um contínuo de si mesmo. Uma caricatura. Mas sua cidade também é. Superar a caricatura que fazemos de nós mesmos, rindo dela, é nossa força.
Vejam as mulheres: ralam, batalham, suam a camisa e as calcinhas, mas, à frente da bateria, não tem graça como a da tijucana. É daquelas mulheres sábias que acompanharam o essencial da modernidade sem esquecer as lições da vovó. Em suma: dão prazerosamente,mas, enquanto nos beijam, murmuram: não... não... ai!
Agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade. Qualquer solar oculta um porão. O importante é nossa vontade de escancará-lo, remover a sujeira, deixar a luz entrar.
Hoje, fala-se em Grande Tijuca, que englobaria o Estácio, berço do samba, a Vila Isabel, imortalizada por Noel Rosa, Aldeia Campista, Andaraí-no-seu-Gramado, a Usina, o Grajaú (que não se conforma e está cheio de “separatistas”de nariz empinado).
Só pra encerrar, na Grande Tijuca estão o Templo do Futebol, o Maracanã, um dos grandes Santuários de nossa Cultura Popular, a Acadêmicos do Salgueiro, o Instituto de Educação, monumento vivo e inesquecível à... à... bom, deixa essa parte pra lá.
Agora me ocorre que, apesar de tanto empenho desperdiçado, de tantas crenças traídas, de tantas pérolas atiradas aos porcos, o tijucano permanece grávido, contra tudo e contra todos, de uma injustificada esperança-equilibrista: a Tijuca é um estado interessante!
Parafraseando um samba que eu fiz com o Cláudio Jorge:
Quando eu deixar a Tijuca
sinto que o Céu não irá me agradar
pois não basta um Paraíso inteiro
pra saudade que Tijuca dá...



sábado, 30 de outubro de 2004

Cavalgada (1977)

Roberto Carlos - Erasmo Carlos

Vou cavalgar por toda a noite
Por uma estrada colorida
Usar meus beijos como açoite
E a minha mão mais atrevida
Vou me agarrar aos seus cabelos
Pra não cair do seu galope
Vou atender aos meus apelos
Antes que o dia nos sufoque
Vou me perder de madrugada
Pra te encontrar no meu abraço
Depois de toda cavalgada
Vou me deitar no seu cansaço
Sem me importar se nesse instante
Sou dominado ou se domino
Vou me sentir como um gigante
Ou nada mais do que um menino
Estrelas mudam de lugar
Chegam mais perto só pra ver
E ainda brilham de manhã
Depois do nosso adormecer
E na grandeza desse instante
O amor cavalga sem saber
Que na beleza dessa hora
O sol espera pra nascer
Estrelas mudam de lugar
Chegam mais perto só pra ver
E ainda brilham na manhã
Depois do nosso adormeceeeeeeeeeeeeer!!

...para Insuportááável, Font, Rod&TeddyBear, Armani, Ismênia, Florber, Aldo, Magnólia, com capeta, Água da Bica, pimenta-cereja, catuaba, catuaba-aba-aba-uca (hic!), e a dúvida que não quer calar: alguém anotou a placa?? :)
PS: Não, não dá pra comparar o amanhecer do subúrbio. No mar o dia vem chegando. Na Zona Norte ele rebenta. A redenção, ao contrário da crença inicial, é mesmo impossível. Pelo conjunto da obra.

terça-feira, 26 de outubro de 2004

http://www.fractalus.com/cgi-bin/glist Posted by Hello

Insônia II - De como encarar o dia

Trilha: You are so beautiful - Joe Cocker

Ao ver o carro se afastar na estrada, levantando a poeira de barro seco, ela já sabia. Ele havia partido para sempre.

(You are so beautiful to me)

Senta-se na varanda e fica olhando o mar. Do alto da colina, é uma imensidão de água, uma tão grande que mais parece que o céu havia se deixado inundar. Mas algum impulso esquisito não a permite manter os olhos erguidos. A vista parece pregada na ardósia, nas pequenas formigas, nos próprios pés... do pé para a ardósia, da formiga para a franja da rede, da rede para o pé. Não é dor, nem saudade, nem angústia. Nem raiva.

Parecia mais com uma sensação penosa de humilhação. Está morta de vergonha. Mas do quê? E por quê?

(Can´t you see?)

Ele é que devia envergonhar-se. Passara a noite acordada ouvindo os barulhos que vinham da sala. Ou da cozinha. Ou da garagem. Os de todos os cantos. Ele quebrou a casa inteira. Com a talvez covarde exceção dos janelões de vidro, ele destruiu tudo. Copos, pratos, garrafas de cerveja (as de uísque ele bebeu), o rádio, dois abajures... No chão havia pedaços de coisas impossíveis de identificar, junto a restos de comida, poças meladas. Prateleiras foram derrubadas, livros rasgados.

(Such joy and happiness you bring, like a dream…)

Trancada no quarto, agarrada no travesseiro, ela tentava decifrar os sons. “Agora foi-se o espelho do banheiro”. De tempos em tempos, como se ele cansasse, só ouvia o silêncio e era aí que realmente se assustava. No entanto, ao contrário do que esperou a madrugada inteira, ele não chegou nem perto da porta. Sequer chamou por ela, ou pronunciou seu nome uma única vez. Dele só um som lamurioso, rouco e lancinante. Ele estava cego, surdo, alheio e enlouquecedoramente sozinho.

(You are everything I hoped for, everything I need)

Entre um prato e uma samambaia da varanda atirada sobre algo metálico (teria sido o teto do carro?), ela abrira a gaveta pensando em tomar uma meia dúzia de Lorax. Mas sabia que assim que o sol nascesse, ele pararia. Faltavam poucas horas. Resolveu esperar.

Alguns silêncios e uivos depois, ouviu o carro ser ligado, o som de arrancada e pneus cantando.

É... Suspira. Tenta novamente encarar o lindo dia de sol, o céu azul e... os olhos enchem-se de lágrimas e ela baixa de novo a cabeça. É mesmo vergonha. Não de ter se escondido, não de ter se trancado no quarto. Talvez, quem sabe, pudesse ter chamado ajuda, ter atirado-lhe uma cadeira, ou mesmo quebrado uma garrafa de Concha Y Toro no alto de sua cabeça. Não é nada disso. É vergonha de si mesma, apesar da certeza de não ter feito nada de errado, nada que pudesse ser apontado, nomeado, condenado. Vergonha de achar, ainda assim, em algum lugar lá no fundo, que ela bem que merecia. Ah, merecia... E ainda ia arrepender-se um bocado, seja lá o que fosse.

(You are so beautiful to me…)

Quatro horas da manhã

Isso não era hora de aparecer.
Eu estou começando a implicar com essa hora, quatro horas, hora-morta, hora-sempre, hora-awake.
Vou começar a pular de 3:30 para 5:30.
Duas horas a menos de sono? Não. Duas horas a menos no limbo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

Unicornio

Interprete e Autor: Silvio Rodrigues
G7+ Bm
Mi unicornio azul ayer se me perdió
Am C7+ G7+
Pastando lo dejé y desapareció
Bm C7+ Bm
Cualquier información bien la voy a pagar
Am C6 Bm Am7 D7 D7/4
Las flores que dejo, no me hen querido hablar
G7+ Bm E7
Mi unicornio azul ayer se me perdió
Am C7+ G7+
No se si se me fué, no se si se extravió
Bm C Bm
Y yo no tengo más que um unicornio azul
Am G7+Em
Si alguien sabe de él,le ruego información
C7+ Cm G7+
Cien mil o un millón yo pagaré
G D/F# Em E7 C D7 D7/4
Mi unicornio azul, se me pedido ayer,
G7+
Se fue...

Solo: G Bm C Em/C Am7 D7 D7/4 D G

G7+ Bm
Mi unicornio azul y yo hicimos amistad
Am C7+ G7+
Un poco com amor, un poco com verdad
Bm C Bm
Com su cuerno de anil pescaba una canción,
Am C Am D7 D7/4
Saberla conpartir era su vocación.
G7+ Bm
Mi unicornio azul ayer se me perdió
Am C7+ G7+
Y puede parecer acaso una obsesión
Bm C6 Bm
Pero no tengo más que un unicornio azul
Am G7+ Em
Y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel.
C7+ Cm G7+
Cualquier información la pagaré
G D/F# Em E7 C Am D7 D7/4
Mi unicornio azul se me ha perdido ayer,
G7+
Se fue...

CANÇÃO DA MANHÃ ETERNA

Maior que meu silêncio é o meu cansaço.
Maior que meu cansaço é o meu desejo.
Maior que meu desejo é o silêncio.
Sonhei com mudas de azaléia, pés de boldo-do-chile, sonoras madrilenhas, secas poetisas, um quarto no escuro e uma penca de motivos.
Tinha desenho de graveto na areia, metade da vida passando, vôo baixo de água marinha.
Tinha cheiro de beijo, gosto de arrepio, uma manhã imensa que não cansava de acordar.
Vi um turbilhão de fotografias, uma revoada de vaga-lumes, lumes, lumes, vagos como a lembrança.
Com a presumível ausência estampada no resto dos meus dias, teci com fios de rede a seda de dormir. Pendurei na janela os rolos de rios, bem do lado do tênis encardido.
Quando parecia que a manhã ia acabar, a tarde sentou com a noite pra conversar, falar de futebol, trocaram os números de seus celulares e cantaram trôpegas “luminosa manhã, pra que tanta luz...” E a manhã ficou ali suspensa por um bem-me-quer.
Eu acordei. E ainda era dia.

domingo, 24 de outubro de 2004

VAAAAASCOOOOOO!!!!

Hoje é dia de dormir o sono dos justos. :)

sábado, 23 de outubro de 2004

UFANIA

Meu anjo da guarda
Tem pouco cabelo,
Só bebe Balla 12,
Tem horror a espelho,
Cita Nietzche no original,
Tem mania de bater porta,
Um desamparo fatal
E pensa que é avestruz.

Meu anjo da guarda
Tem que tomar-se a si,
Parar de fumar,
E perder o medo
De altura e de riscar fósforo,
De ir ao cinema e de elevador,
De janela de treliça
E de acordar muito cedo.

Mas tem um momento do dia
Que ele vira pra dentro
Começa a chover-se
De tanta emoção.
Pode chamar e pedir e rogar
Lá de si ele não sai.
Eu que me pele ou me rasgue
Se houver precisão.

Bem no fundo do olho,
Se você prestar bastante atenção,
Vai ver a Esquadra de Malta
Em dia de glória.
Um time que você nunca verá
Que o anjo faz questão
De inventar.
Até difícil de acreditar.

Se eu for falar da Esquadra,
O meu tempo não dá.
E se o anjo é anjo,
Avestruz ou caído,
Não há quem não perdoe,
Ou ao menos compreenda,
Um caso perdido.

Pra ser vascaíno
Não basta vontade,
Sermão nem exemplo,
É preciso coragem.
Só leva um instante,
Nem mais que um momento
Pra esse amor beluíno
Tomar um coração bailarino.

Um anjo caído
Não seria tão genuíno
Se antes de custódio
Não fosse Januário.
Se antes de depois
Se esquecesse do Romário,
E se, enquanto deus-menino,
Fosse outra coisa
A não ser um vascaíno.

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Beatriz Milhazes - O Prí­ncipe Real Posted by Hello

(suspiro)

Essa vai ser uma longa, longa semana. Eu tenho pressa. Sou uma pessoa tomada de urgências.

Misericórdia

Deus, essa é uma prece desesperada e muito exagerada, pra que teus anjos, Senhor, venham ao meu socorro. Não os branquinhos, cor-de-rosa, redondinhos... Mas os mulambos, rotos, caídos, que de vez em quando desabam. Deus, que eu esbarre com eles ao vagar na rua quando meu carro enguiçar a duas quadras de casa; quando me rasgar de ódio no tédio da síndrome de Wendy e ninguém telefona (quando eu chamar de ninguém o ser amado); quando adoecer de saudade de quem não tem tempo de destemperar-se por quem se desespera. Um anjo, meu Deus! Como aquela que aos três anos perdeu a mãe, fugiu-lhe o pai, casou aos vinte e mais um foi-se o marido, ficou uma criança e um quarto de empregada. Um anjo, Senhor… que desfalque minha miséria com sua própria inópia. Um anjo, Senhor, pra me mostrar grandes e virulentas feridas dantes como as minhas tidas, mas bem mais violentas por sua própria inquietude. Um anjo, senhor, um boêmio azulão, um vagabundo de chapéu coco e algum tipo de verdade. Um anjo, Senhor que não seja perfeito, que me pegue pra si e me traga de volta a tristeza que eu perdi. É só, Senhor, quero estar de volta num retornar distante, ter de novo o poder, perdido, de controlar e superar a caneta e o amante.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Saída de Emergência

Autores: João Bosco, Antônio Cícero & Waly Salomão
Dia e noite
(como posso
explicar
meu bem?)
busco a saída
de emergência
sem achar
Sem ao menos
escutar você mentir
como é que eu posso conseguir
dormir?
Na vida que tracei
alguns meses atrás
já não cabia cataclismas mais
Sua boca
tem um jeito
de fundir
o mais profundo
ao superficial
Nos seus olhos
e maneira
de sorrir
eu vi
o impossível
o possível
o real
Sem ao menos escutar você mentir pra mim
me diz meu bem
como é que eu faço pra dormir?

... dizer alguma coisa hoje só mesmo com as palavras alheias. Eu mesma estou muda de ausência e surda de tanto ouvir o passado bater no meu ouvido. Dia e noite, insone. O que eu não daria agora pra estar no único lugar onde eu dormiria em paz...

Tanto que Aprendi de Amor

Fátima Guedes (mas experimenta com a Alcione...)

Tanto que aprendi de amor na vida
E agora descobri
Que não sei nada mais
Força eu fiz pra ter com esse rapaz
Só boa companhia
Hoje eu gosto demais
Sabe que até falta ele me faz
Sabe que eu tentei não compreender
E dei pra relembrar as coisas más
Pra esquecer

Tanto que aprendi de amor
Tanto, e daí?
Na hora de fugir não me senti capaz
Quero o que me sobra dele em mim
A boa companhia
A vida que ele traz
Força eu fiz mas já não faço mais
Sei onde me leva essa ilusão
Mas não amar também me tira a paz
E a emoção
Você é a coisa mais perfeita e importante da minha vida... É essa a foto do lado direito do cordão que não sai do pescoço, sempre grudada juntinho.  Posted by Hello

Quem ri por último...

pra vó, pelo aniversário.

Helena e Victor eram casados há mais de trinta anos contra todas as mais otimistas expectativas. Os amigos sempre insistiram em dizer que não ia durar, que era uma temeridade os dois estarem juntos. Brigavam muito. Ele morria de medo do temperamento explosivo dela, chamava a mulher de Eminência, a “eminência da catástrofe”. Ela tinha horror aos silêncios, achava o marido um egoísta de marca maior.
As famílias, muito tradicionais e das mais importantes da sociedade carioca (apesar de decadentes e falidas), arranjaram o casório quando os dois ainda eram muito jovens. Helena já havia se conformado com o arranjo, mas também não deu o braço a torcer: só conheceria o noivo às vésperas da cerimônia. Não queria nem olhar. As primas marcavam em cima, “deixa vir jantar e pelo menos espia pela cortina, boba”. Helena, irredutível, recusava. “Se eu o vir antes das bodas, não caso”.
Marcaram o jantar fatídico um mês antes da cerimônia. Victor foi logo avisando: “mulher minha tem que ter modos”. A moça achou um despropósito a afirmativa. Tanta coisa mais importante pra dizer e ele se saía com essa pérola. Deu graças por não ter aturado um noivado arrastado, com beija-mão na sala e outras bobagens. Era uma mulher prática.
O primeiro ano foi uma catástrofe. Na cama, não se entendiam. Era tão ruim que ela tinha vontade de usar lençol, daqueles com buraco no meio. Socialmente, outro horror. Ele tinha vergonha, fazia de tudo pra evitar levá-la a festas, jantares ou qualquer compromisso que não fosse restrito às famílias. Reclamava que era ríspida, a grosseria em pessoa, não sabia entabular uma conversa, um bicho. Confidenciou ao irmão: “isso não é uma mulher, é um mau agouro”. Choviam conselhos de todas as direções: separa de uma vez; arranja um amante, sua tonta; finge uma asma; vai visitar tua tia e fica por lá; água de azeitona é ótima pra não ter filho, toma uma colher de chá toda vez; arranja uma amante, sua besta, arranja trinta; muda o escritório pra São Paulo; pára de tomar banho... Victor deixava pra lá os pitacos dos outros, já tinha descoberto a maior qualidade da esposa: gostava de futebol e por isso mesmo nem ligava quando ele dizia que ia pro Maracanã. Na verdade, Helena achava ótimo, só assim podia ouvir o jogo quieta, sem aturar os palavrões do marido. Ligava o rádio enquanto ia cuidar das roupas. Victor só estranhava ela não torcer pra time nenhum, afirmando sempre que predileção era coisa de ignorante, o esporte é que era bom. Se prender a um time só era como almoçar todo dia a mesma coisa.
O tempo foi passando e a poeira foi assentando. O que era um suplício, virou apenas uma poça de monotonia. Foi aí que apareceu o Juracy. Veio fazer obra no muro do quintal. Já na primeira semana tomou-se de amores por Helena e inventou um problema no terreno, disse que era arenoso, que o muro ia ter de ser todo posto abaixo e refeito, só por pretexto. Ela já não era menina, mas as coxas bem torneadas, o colo farto, o olhar vivo e o jeito forte na hora de resolver os problemas chamaram a atenção de Juracy, que se derretia todo por dentro, mas sem nunca ter feito movimento algum. Por ele, tanto a amada quanto o patrão ficariam sem saber de nada. Bastava poder estar por perto.
Num domingo, Victor voltou do jogo azedo. O Flamengo tinha perdido pro Vasco, uma vitória que parecia fácil tinha escapado nos quinze minutos finais. Quando chegou em casa, deu de cara com o Juracy cantando o hino do Vascão, todo feliz. Helena, apoiada no tanque, cabelo solto, perna de garça e vestido meio molhado grudado nos seios, sorria de banda. Juracy cantava em ritmo de sambinha e beijava a cruz de malta da camisa, fazendo uma dança engraçada, feito um txucarramãe aprendendo foxtrote. Victor vinha entrando de mansinho, estranhando o barulho, veio sorrateiro, clicou a cena e ficou furibundo. Ele ainda vestindo a camisa do seu amado Flamengo, amargando a derrota e o tal lá, justamente um vascaíno, comemorando, cheio de graça. Estrilou:
— Tá fazendo o quê aí, ô cidadão?
Helena espantada.
— Hoje é domingo, rapaz, domingo... Não é dia de peão trabalhar não. Te fiz uma pergunta. Vai desembuchando...
Helena pasma.
— Doutor, vim pra receber o material que o Miro ficou de mandar... Se num era hoje, só pra semana que vem...
Helena atenta.
— Não te quero na minha casa quando eu não estiver. E você, abriu a porta por que?
Helena bege.
— Parto-lhe a cara, ouviste? Parto-lhe a cara, rapaz! Some daqui, peste, e não precisa voltar nunca mais. Rua, você e esse pano de chão que você chama de camisa.
Helena incrédula.
— Mas doutor... e a obra?
— Some da minha frente com essa merda de camisa! E não me ponha os pés aqui de novo!
O pobre do Juracy saiu arrasado. Tentou voltar uns três dias depois, e deu com os burros n’água. Victor permanecia irredutível e tinha feito do ocorrido sua bandeira para uma nova vida. Transformou-se. Pela primeira vez, ele se dera conta de que esse jeito torto dos dois também era uma forma de amor e a esposa era extremamente importante pra ele. Teve medo, um medo horrível, de perdê-la. Não que houvesse a possibilidade, Helena era mulher séria, seríssima. Mas ainda assim, daquele dia em diante, passou a tratá-la diferente. Fazia-lhe as vontades, adivinhava os desejos, fazia de tudo pra agradar. No entanto continuavam brigando do mesmo jeito... o marido achava que as discussões eram importantes pra quebrar o tédio e ter o gosto de fazer as pazes com um anel ou vestido novo.
Os anos seguintes foram essa gangorra. Um amor meio torto, mas muito sólido. Helena foi, aos poucos, se deixando levar pelos mimos, fazia a sobremesa preferida dele de surpresa, aparava seus cabelos e barba, bancava a manicura, até torcia pro Flamengo, pra desgosto dos tios e primos, todos vascaínos. Vieram os filhos. Vieram os netos. O casamento cada vez mais ao contrário, o amor, o carinho e a devoção aumentando com o tempo. Nas bodas de pérola, pareciam dois adolescentes, implicando um com o outro sem parar e se beijando escondido, quando nenhum convidado estava olhando. “É preciso manter as aparências, meu filho, ninguém põe olho gordo em casamento desavençado”.
Foi mais ou menos quando Victor descobriu que estava doente. A essa altura, viviam praticamente em lua de mel e a notícia chegou surda. Era câncer de mediastino, nada a fazer e muito pouco tempo pra conformar.
No dia do velório, puseram um médico e duas enfermeiras de prontidão. Acharam que Helena ia junto, no mais tardar no dia seguinte. A mulher antes forte, decidida e teimosa feito uma porta era um projeto de pessoa muito mal acabado, nem de longe lembrava aquela que era o arrimo da família. Como um boneco de serragem furado, esvaía-se. Os filhos temiam que não durasse nem até o sepultamento. Na hora de sair da capela com o caixão, ouviram uma voz gritar:
— Victor, meu amor! Daqui ninguém leva meu Victor!
Helena viu a ruiva de quase um metro e oitenta com complexo de Rita Hayworth se debruçar no caixão aos prantos. A capela parecia imersa em nitrogênio, ninguém movia um músculo sequer.
— Victor meu amor... Como você foi me armar essa falseta? Como é que eu vou viver sem você depois de tantos anos? E os nossos filhos, Victor? O que é que eu vou dizer aos meninos? Meu amor... Me leva com você...
Ninguém sabia quem era. Helena estava em choque.
— Victor, fala comigo meu amor! Eu te amo tanto! Eu não vou suportar... Ah, meu mamãozinho...
Mamãozinho foi a gota. Helena, fria como se fosse o próprio defunto, juntou os filhos, os sobrinhos e os irmãos e mandou arrastarem a louca pra fora, que foi aos berros, debatendo-se, gritando coisas incompreensíveis. Uma cena grotesca. As mulheres não sabiam o que fazer nem o que dizer à viúva. Ainda podiam ouvir a ruiva em desespero sendo contida do lado de fora. Alguns queriam até chamar a polícia. O tumulto durou mais de meia-hora e Helena, impávida, mandou carregarem o caixão embora.
— Todo mundo tem mais o que fazer, não é mesmo? Vamos embora com isso. Espera! Abre a tampa de novo que eu quero dizer uma última palavra.
A platéia crispou. É agora que a coitada derruba o finado no chão, ou taca fogo nele.
Helena, impassível, foi até o primo Renan, tomou dele o cordão de ouro, e, fazendo um gesto de cala-a-boca com o dedo na frente dos lábios, caminhou até o caixão em silêncio. Abaixou pra sussurrar ao pé do ouvido do morto. Depositou o que tinha na mão fechada sobre o peito dele e desceu a tampa. Mandou o cortejo sair, mas não acompanhou. Virou as costas e foi embora.
No caminho de casa, a filha mais velha, já não se contendo mais, perguntou:
— Afinal o que foi que a senhora disse ao pai? Por favor, mãe... Me conta. Eu juro que o segredo morre comigo. O que foi que a senhora tirou do primo Renan?
— Você não sabe o que é que teu primo carrega no pescoço? Nunca reparou?
— Não.
— Teu primo carregava, por promessa feita pelo avô na Festa da Penha de 37, uma medalha de Nossa Senhora, uma figa de guiné e um escudo. Foi o escudo que tomei dele. Fiz ao Victor a maior e a única ofensa que era possível, toda a resposta que eu podia dar. Teu pai, minha filha, foi enterrado com o escudo do time do teu primo, o Vasco da Gama. Eu disse a ele que meu desgosto eu vou amargar em vida, mas a minha tá no fim mesmo. O dele que vá junto pela eternidade inteira.
— Mãe!
— E tem mais: a partir de hoje, todos os dias antes do jantar, vamos cantar o hino do Vasco. Vaaaaaaaaaaassscoooo!!
Os filhos nunca tiveram coragem de contrariar a mãe e enquanto ela viveu, todos os dias na Rua Pontes Correa os vizinhos ouviam o coro, pontualmente depois da ave-maria.

Duas cabeças, quantas sentenças.

Sentindo-se mais estranha que ovo cor-de-rosa de butiquim, Maria levantou-se às 3:20 da matina depois de passar um bocado de tempo fritando na cama. Acordou de silêncio. O homem ao lado do qual havia passado as últimas três noites parara de roncar. Normalmente, ele soava firme, compassado e vibrante como a Banda do Corpo de Bombeiros, com Anacleto de Medeiros na regência, oficleide e tudo o mais. Essa noite, sem mais nem menos, parou. Assim de repente. Primeiro, ela achou que ele tinha tido um treco, depois viu que estava respirando, mas aí já não conseguiu voltar a dormir.

Havia ainda o vento. Um vento ventando de assustar, parecia com vários ventos em direções opostas, todos com raiva dela e dispostos a derrubar a casa. Maria não queria ter se levantado. Só o fez por sentir-se presa dentro de uma canção de João Bosco e Aldir Blanc que diz:

Você fica deitada / De olhos arregalados / Ou andando no escuro de penhoar / Não adiantou nada / Cortar os cabelos e jogar no mar / Não adiantou nada o banho de ervas / Não adiantou nada o nome da outra / No pano vermelho pro anjo das trevas / Ele vai voltar tarde / Cheirando a cerveja / Se atirar de sapato na cama vazia / E dormir na hora murmurando / Dora / E você é Maria

Tateou no escuro, rezando pra ele não acordar. Sentada no sofá, se arrependendo do que pode e inventando outros tantos motivos pra continuar ali, num frio de 10 graus esperando Heathcliff aparecer no meio dos ventos uivantes. Tentava se lembrar de como havia se metido nessa angústia. “Preciso dormir. Amanhã é dia de debate no clube”, lembrou, sem se dar conta de que foi exatamente assim que tudo começou.

Não havia muito tempo, nossa insone protagonista se separara de Ivan, o enfant terrible. Sujeito difícil de lidar, sem conflitos, que passava ao largo da vida tão de bem com tudo e todos que irritava. Vascaíno tresloucado, defensor ferrenho do Eurico Miranda, embora alguns amigos dissessem que as duas coisas eram antagônicas. Ivan abandonou Maria sem mais nem menos pra juntar-se a um pequeno grupo que ia para a Serra do Timbiricó caçar um OVNI.

Passados alguns meses, Maria deixava São Januário após uma partida histórica, quando reparou num homem que chorava copiosamente, abraçado num grupo da organizada e cantando o hino. O Edmundo havia feito cinco gols naquele dia. Ela tinha ido por acaso, arrastada pelos primos e agora estava abismada com a figura daquele homem que, apesar dos 40 aparentados, chorava feito um menino. O homem estanca subitamente, pergunta as horas e sai numa carreira desabalada pela rua.

Ela permaneceu ali parada tentando entender o espanto que o desconhecdo causara. Decidiu que iria a todas as partidas do Vascão até conseguir conhecê-lo. O grupo carregava uma enorme bandeira e isso tornaria a empreitada mais fácil.

3 empates, duas vitórias e quatro derrotas depois, ela estava desistindo. Do time, principalmente. Num jogo em que o ataque e a defesa pareciam jogar um contra o outro, ela resolveu afogar as mágoas. Encostou-se ao balcão do bar e quando pediu a cerveja ouviu o conselho: “Eu não faria isso se fosse você. A cerveja, além de ser ruim, está quente. Compra lá fora uma Skol gelada, aproveita e dá um prejuízo nesses putos que é bem feito”. Espantadíssima, Maria olhou pro lado e conheceu, finalmente, depois de três meses de buscas, o Solano.
Descobriram muitas coisas em comum. Além do Vasco, tinha o Salgueiro, as rodas de samba e um leve pendor pra discussões improfícuas. Tornaram-se amigos.

Solano, no entanto, tinha gosto por estratégias. Portava-se como se fosse o único caso insolúvel do Inspetor Maigret, o brilhante detetive de Georges Simenon. Quantas vezes ela não se perguntara o que havia por trás das evasivas, pra onde olhava aquele olho que se voltava pra dentro, escrutinando sabe-se lá. Em certos momentos, ele parecia querer protegê-la de um perigo eminente e em outros avançava pra cima dela como se o tal perigo fosse ele próprio. Qd o olhar dele ficava vermelho e marejava era sinal de tempestade. Os dois juntos pareciam uma turba desordenada. Não por causa da absoluta incapacidade de terminar um assunto sequer, sempre engrenando noutro troço diferente, mas pelos fantasmas. Ambos eram criaturas assombradas, que arrastavam atrás de si seus mortos, suas feridas e seus temores. Cada um falando podia ser três ou oito. Ele não confiava nela, ela fingia não perceber. E por isso era atirada, como um barquinho numa tempestade, de um lado pro outro, pra dentro do frio dos fantasmas e da distância de Ivan. Como uma auto-reprimenda, toda vez que Solano se flagrava numa demonstração maior de afeto, ele se impunha uma retaliação, um afastamento, um silêncio. Determinadas coisas, como síndrome de abstinência sexual, falta de dinheiro, cólica de saco e emoção os homens escondem até do cara boa pinta que mora no espelho do banheiro.

Solano andava preocupado com a eleição para a presidência do clube. Fazia longos discursos sobre a camisa nova do time, as obras necessárias ao estádio, cogitava engajar-se na campanha do Roberto Dinamite e sonhava com um movimento de boicote pra forçar uma solução para o problema da cerveja. Maria ouvia com interesse genuíno, mas com a resignação de quem tenta não contrariar o doente por ordens médicas.

Certo dia, a oposição conseguiu organizar no clube um debate entre os dois candidatos, coisa óbvia até em campanha de grêmio estudantil, mas até então impensável no outrora tão revolucionário Vasco da Gama. Os principais cabos eleitorais das campanhas envolveram-se numa acalorada discussão. Um doce pra quem pensou em Solano e Ivan. Maria assistia catatônica. Queria sumir, virar pipa de papel de seda e ir morar num asteróide. Seria uma longa campanha.

Sentada no sofá há horas, Maria tenta pôr as idéias em ordem. Tinha muito que fazer, panfletos, bottons, camisetas, o equipamento de som, tudo pendente às vésperas do debate. Via a imagem de Solano no escuro. A verdade é que ela estava deixando-o aos poucos. Sabia que, dessa vez seria pra sempre. Como uma profecia, brilhava diante dela a expressão “nunca mais”. “Nunca mais”. Era uma questão de instinto de sobrevivência. Muitas perguntas haviam sido feitas e ela não tinha mais a intenção de esperar por respostas que não chegavam. Maria concluiu duas coisas importantes. Primeira: duas pessoas tão assombradas, como ela e Solano, não cabem na mesma cama. Só um grande amor afastaria todos os fantasmas e isso ele não tinha pra dar. Segunda: infelizmente, há ainda menos coisas a separar o Dinamite do Eurico do que arriscaria a mais descrente das filosofias.

“Ah, recomeçar, recomeçar
como canções e epidemias.
Ah, recomeçar como as colheitas,
Como a lua e a covardia.
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo, e o fogo...”

domingo, 17 de outubro de 2004

O maior de todos

Trilha: Kissing You - Des’ree

São Pedro do Riachinho. 140 habitantes. Já se pode imaginar o tamanho. Pra chegar, muito buraco, muita lama e quatro horas de dor de cabeça, tendo apenas a paisagem por consolo. Recepção de estrelas na chegada. Olhares curiosos se amontoavam pra ver o pessoal da cidade, que chegava cheio de malas, roupas coloridas, óculos escuros e alguns até de tênis! Deveria ser mais uma cidadezinha do interior, mas não era. Neste lugar aflorou, cresceu e se afirmou O Maior Amor.

A diferença do lugar talvez estivesse no cheiro. Cheiro de paz e de afeto. Uma mistura de pão no forno com leite fresco e a tradicional bosta de vaca. Provavelmente é a tradução perfeita da mistura entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. De dia, sol e calor, banho de cachoeira, cerveja geladíssima e muito beijo na boca. À noite, chuva, raio, um medo cheio de charme e muita sinfonia de estrado.

Entre um passeio e outro, coisas surpreendentes. Lago de trutas, um gavião solitário, bezerros agindo como cães de guarda e no meio da festa, um vira-lata corre de um homem que late furiosamente.

Cada olhar era um alvorecer. Apenas a magnitude das montanhas era capaz de reconhecer o esplendor de um amor tão surpreendente, que insistia em crescer contra todas as especulações.

Ele um homem bonito, cuja a presença já era suficiente para atrair atenção. Dono de uma inteligência ímpar, caráter irrepreensível e muito charme. Agia de forma um tanto impulsiva, ar de moleque. O jeito de mexer no cabelo era puro descaso com as mortais e um sorriso que era um permanente atentado ao bom senso alheio.

Ela atormentada pelos próprios erros, com uma certa vergonha de ter construído os três anos anteriores, baseados em enganos e futilidades só percebidas diante da novidade. Olhar de veneração e o coração impregnado por um sentimento nelsonrodrigueano de esperar a tragédia no próximo minuto. Entregava-se na cama com paixão ardorosa, sem hesitação nem muralhas e incandescia aos menores toques do amante.

Ele a abraçou pondo seu coração à mostra enquanto ela sentia todo seu corpo extenuado de precipitação. Os lábios se tocam com suavidade até os dentes morderem vorazes enquanto a língua passeava pelos anseios. Ela a deita gentilmente, os olhos fixos nos dela. Ela geme baixinho, implora que a possua depressa, antes que o mundo se acabe, antes que a vida termine, e pro inferno a luta do feminismo contra a submissão, ele insiste em perdurar cada afago, precisa ensinar quem está no comando, ela sente que vai chorar. As mãos deslizam por seu corpo, os dedos apertam seu seio e procuram os portões da definitiva insanidade. O instinto dela aflora quando o agarra pelos cabelos e finalmente o faz penetrar seu corpo, com um desejo já incontrolável. Impossível distinguir o predador, ambos com sangue escorrendo do peito, dos braços e nuca... As bocas não se separam e os corpos seguem líquidos e densos como mercúrio, mesclando e turvando-se na mais furiosa das tempestades. Ondas elevam o desejo, o navio parece prestes a naufragar quando finalmente o maior dos amores que já existiu irrompe, numa indiscritível cena de loucura em que ambos se arranham e mordem em desespero de medo, de prazer e o que se escuta é a mais pura tradução do lado feroz e impiedoso da natureza. Ah, os violinos finalmente! Ela de alma desabada em prantos e ele repete sem parar “eu estou aqui”.

Essa paixão foi por demais impiedosa. Não teve pena do estrago causado a ambos. Já era impossível permanecer passivo e mais de um metro era saudade. Realmente nada havia de concreto capaz de unir pessoas tão diferentes. Porém cada nuance de personalidade traduzia-se em necessidade de descobrimento.

Mulheres e seus sentidos! Chegou a hora. Preparou-se para a fatalidade com parcimônia, concentrada no silêncio dos grilos dentro da noite. Ele se aproximou, antecipando toda a dor. Já choravam. “Não posso fazê-la sofrer. Acabou.”. A peste e a destruição dizimavam-na enquanto por dentro implorava. E assim ele andou calmamente levando o sol, como se ainda escrevesse o prelúdio desta morte anunciada. Imersa em seu amor, ele partia a cada vez que ela respirava, doía demais, mesmo para enlouquecer. Permaneceu imóvel, seus sonhos definhando junto com as cinzas que sufocavam a grama. Certa de que esse era o grande amor, seu maior desespero eram os dias no futuro, pelos quais se arrastaria inerte, sem poder exercer toda a paixão que haveria de permanecer exatamente onde estava. Para empre.

De manhã, só restaram as pegadas do gado no barro, uma sombra condenada a vagar pela memória e o horizonte insondável de uma solidão montanhosa. E um esboço de mulher... carregando um amor tão imenso que a impedia de morrer.

BREVES DISPERSÕES AMOROSAS

Ah... de tanto amar esse meu amor que é tão tamanho e eu no entanto ponho-me a esperar portanto algo que, com espanto, tire-me o ardor desse olhar profundo já quase diurno dando volta ao mundo e suspirando o vento, ele próprio já é um suspiro mas suspira junto de tanto te esperar hoje e sempre e tanto, voltei pro espanto, onde está que não encontro, tanta vida e sonho e seu eu me casasse, e se eu comprasse um velocípede, ainda te amaria muito mas te seguia, e perseguiria, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que...

Ah... mas nem pensar que acaba, que esta vida já é mesmo quase nada, este é o purgatório, quando acaba é que começa e se eu só te vi agora, quando vier a aurora de uma vida outra, trancafiados no promontório do destino, ai de ti, que não te deixo nunca mais, e foda-se o mundo, não me chamo Raimundo, a vida dá muita volta, estrelas na veneta do lunático amante delirante que apostou com lua fazer da amada estrela sua.

Ah... nem que eu quisesse de mim te livraria, o estrago foi tamanho daqueles sem volta, e a culpa é toda tua que veio com essa boca, feita pra minha boca, nunca vi nada parecido com o encaixe dessas bocas e quanto mais eu digo bo-ca mais a minha fica louca, eu fico repetindo BO-CA que essa som tem mesmo som de boca e ouvir alguém dizendo BO-CA dá vontade de beijar.

Ah... me esqueci o que eu dizia, algo sobre o que eu não faria, mas por você faria tudo e até de mim te livraria, com estante e tudo, e obras completas do Manoel de Barros, ou quase completas, que tem um livro dele de 52 que eu não consigo achar, mas se eu achasse ficava sem o livro de novo, porque eu te daria o livro de 52 e todos os outros também.

Olha, vê bem se me escuta, que a gente quando ama o feio bonito lhe parece, agora imagina a minha situação que você já era lindo e eu nem te amava, então guarda essa bo-ca que eu não consigo falar e beijar ao mesmo tempo, guarda essa BO-CA na minha que eu... ai...

Olha, eu queria te dar um casaco de vison e um anel de brilhantes, na Playboy diz que a gente põe o anel preso no caule de uma rosa, no meio de um buquê, mas essas coisas ficam bem melhores numa mulher, então eu trocaria tudo pela poesia, uma gota de cada oceano, faixas longas de luar, pedrinhas do Taj Mahal, vitrilhos das igrejas da Sicília, lava do Vesúvio e umas receitas da Madame Min e da Maga Patalógika, mas se eu fosse buscar tudo ia levar um tempão, ficava longe de você, e isso eu não agüento, que eu fico com sinusite, comichão, dor de barriga, nem pensar na minha vida sem ter a quem pedir perdão.

Perdoa. Perdoa eu te amar assim tanto até quase estrebuchar, mas é que eu quando vejo essa boca, essa boca pode mesmo me matar, já tinham me avisado aqueles dois irmãos, mas quando eles cantaram isso eu nem te conhecia, não entendi direito, só agora que acredito, porque às vezes morro um pedaço, cada vez o amor sela de um lado orgasmo e do outro uma morte, tem um psiquiatra que conta isso também, eu não sei direito porque cura já não tenho mais, mas é assim que funciona, mata um pedaço que não volta, minutos que foram pra memória e o corpo ainda está arfando, mas já acabou, é menos tempo na vida pra ver o sol brilhar de novo.

Perdoa. Quanto mais eu explico, menos o resto entende, vai ficando enrolado, e eu depois ainda vou ter que imprimir essa confusão porque você não tem Internet e eu mesma já estou achando tudo diferente, mas por favor fica perto, tô com medo, hoje eu tive um pesadelo, queria um sorvete cheio de marshmallow, falar dessas coisas de amar dá gula e todas as minhas bocas querem ser beijadas e, na falta da tua boca, principalmente a do meu estômago.

Guarda. Guarda eu, você, as garrafas de vinho e os nossos livros pra sempre com beijos macios, beijos de lichia, essa fruta-boca, e nunca demora, que eu tenho medo do escuro, sinto tanto frio... definho sem SOL.

MARILU

Vou contar uma história
de alguém que perdeu um pedaço
e foi procurar em você
o que enchesse esse espaço.

No início era por você
que o dia era de novo dia.
Era por você que havia
uma força de vida

Até que, ao invés de amanhecer,
você passou a anunciar só
a hora de dormir
e a hora de crescer.
E o desabo foi tanto que o poema perdeu a métrica e
a rima.

Hoje eu sei que ninguém
é alicerce do outro.

Vou chorar teu sangue derramado,
tuas lágrimas perdidas
teu filho parido,
teu amor custoso de preterida,
e tuas metas pretendidas
e teu suor esgotado.

Vou torcer pra te trocarem as lâmpadas,
pra te ninarem no sono,
sem nunca parar de me encantar
com os rasgos de tuas saudades.

Tuas saudades de quando podia
não ter casado,
ter gritado,
não ter escolhido,
ter gozado,
não ter concedido,
ter proibido,
ter sido
ou não ter sido
diferente.

Eu sei que nada que eu diga
vai tirar teu cansaço,
ou descarregar teus ombros,
ou te levantar do chão,
ou enxugar o sereno do teu olho de lua,
que vai pingar sempre
uma pra São Jorge e outra pro dragão.

Mas acontece que meu carinho só sabe
ser assim, super novas que vêm
da eclosão de buracos negros,
perdidos entre dois inconscientes.
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