quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Saudades de Aldir Cronista II

Pra matar as saudades, enquanto as novidades não chegam, pedi pra colocar aqui esta crônica, uma das mais pedidas pelos fãs saudosos. Eu tb a-do-ro. ;)

PALAVRA DE HOMEM

Aldir Blanc


No apartamento onde moro existe um cômodo misterioso: o escritório. Não escrevo nele, mas lá estão os livros, o computador, a velha máquina de escrever, o fax, os discos... De vez em quando, peço licença e entro lá pra apanhar alguma coisa. O lugar é dominado por minha mulher e quatro filhas.
Uma noite, fui atrás de um livro policial com Pepe Carvalho, meu detetive favorito, e dei de cara com as cinco me olhando.
Só o homem que vive com cinco mulheres sabe os riscos dessa convivência. Ë preciso ser o que meu amigo Mello Menezes chama de "canalha cálido": terno, compreensivo, com apurado senso de justiça, jamais deixando que ciúmes extrapolem, ajeita daqui, manera de lá, tentando não perder um pedacinho sequer do imenso amor que todas sentem por mim e que eu, modéstia à parte, mereço. Bom, manter essa peteca no ar sem uma certa dose de canalhice, sinceramente, não dá.
Na tal noite, que mudou minha vida, as cinco me olhavam, intensas, e pude sentir que o homem não é nada quando mulheres tomam uma decisão. Os olhares diziam mais ou menos assim: isso é assunto nosso, morou? Estamos envolvendo você por consideração, etc, mas ESSE NÃO É SEU DEPARTAMENTO, CERTO?
Uma delas me deu uma lata de cerveja geladinha, outra me passou uma cigarrilha holandesa, botaram um disco de jazz que eu amo na vitrola, e Isabel, a caçula, me jogou um beijinho como quem diz: coragem! Cumprido esse preâmbulo ritualístico, a Rainha das Amazonas anunciou:
- Tatiana está grávida.
Elas dizem que é folclore, mas eu senti direitinho a fumaça da cigarrilha saindo pelas orelhas. Engasguei, fiz gestos estranhos, e a Pátrícia suspirou:
- Eu disse que era melhor acender um troço mais forte...
Eu nasci no Estácio, pô! Qualé? Fui criado em Vila Isabel! Não vou perder a pose mole, não! Eu e o Bruce Willys somos duro de matar, neguinhas! Vou mostrar pra vocês meu famoso jogo de cintura. Quando vocês iam, eu já estava voltando, tá legal?
Parei de espernear, levantei do chão, Isabel enxugou a lourinha entornada em minha camisa, e tomei ali, na hora, uma decisão de macho: não vou permitir que elas percebam meus verdadeiros sentimentos. Nunca! Par o próprio bem delas, tenho que ficar frio. Vou fazer minha imitação de Robert Mitchum.
Pronto. Nervos devidamente colocados no lugar, tive um acesso de choro. Nada de BUÁÁÁÁÁÁ e SNIFF, coisa de criança. Sou da Zona Norte. Foi assim: AAAMMMHHHNNNN!
Vendo que eu havia conseguido o completo domínio de minha emoção, Mari Lúcia continuou:
- São gêmeos.
- AAAIIIIIMHHNNNHHHIIIIGRFSSSS!
Mais lenha:
- A Mariana também está grávida.
Voltei a mim, igualzinho no antigo samba, nos braços de Isabel. "Nos braços de Isabel eu sou mais homem, nos braços de Isabel eu sou um deus..."Afagando minha barba em desalinho, Isabel brincou:
- Vai ser vovô...
Mari Lúcia me abanava, Mariana pingava gotinhas de Efortil dentro de outra latinha, Jung (meu bravo e fiel cão de guarda), lambia minha cara, Patrícia rezava um mantra aprendido em Búzios, e Tatiana repetia, sorridente:
- Assim a gente mata o velho...
Minha garganta emitia sons gorgolejantes. Todas insistiam:
- Fala, tenta falar. Cê vai se sentir melhor.
Consegui articular:
- Tô com uma vontade louca de comer carambola.
É isso, amigas. Fecundado pela palavra vovô, eu estava irremediavelmente grávido de meus netos.

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