quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sorrateiramente

A água da chuva verteu pelo peitoril da janela aberta, escorreu pela cabeceira da cama logo embaixo e encharcou o carpete novo. De azul-celeste-novos-ares, ele passou a azul-noite-todo-manchado. Aspirador. Secador. Desumidificador. Limpador. E a mancha lá. Abriu a janela, rezou pra ver Sol, entrar calor. Calor dias. E a mancha lá. Um mês sem chover, e ela continuava fechando a janela todo fim de tarde, dormindo abafada no cômodo fechado, pra não aumentar mais a mancha, vai que chove outra vez. Até que, outra noite, certa que-foi-isso-de-repente noite, uma cigarra pousou na janela. Magnetizada pelo céu estrelado e pela ideia do dia radiante que viria, deixou a janela aberta. Despertou no meio da madrugada, com o som de uma chuva torrencial. Sentiu os primeiros pingos batendo na cabeceira, depois no rosto. O carpete, azul-arrependimento. A cigarra jazia morta no trilho de alumínio. Também tinha sido traída – com um golpe de chuva, no quarto de dormir, pelo Coronel Retaguarda.

Desmentido


Ele transforma meu tempo numa eterna contagem regressiva. Retém meus delírios sequestrados num fastio congelado entre a coragem e o perdão. Faz-se de brisa úmida pra me confundir a primavera e encher de invernos meu coração. Sopra melodias de grilos dentro de realejos, explode jabuticabas doces da sua boca pra minha, injeta promessas de calafrios, afirma-se pela pele e desmente-se em ausência. Faz meus minutos evaporarem a cada fôlego que eu não consigo nunca recuperar. Ele é o cio da minha fêmea, o cisco no olho esquerdo, a violência da minha legião, a cria recém-nascida que não vai vingar, o barravento do meu cavalo, a vela da iaô.  Eu me rendo em véu e aldeia. Ele acena condição. Eu comungo tempestades. Ele afaga mansidão. Eu adestro impropérios. Ele me toma pela mão. Ele é o meu Inferno. Eu sou o seu Cão.
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