sexta-feira, 31 de maio de 2013

Meu irmão Fernando:




Aqui, você sabe, as coisas estão como vão. Dia depois do outro, é o mesmo dia de esperar. Conforme as luzes de fora se acendem, as de dentro apagam-se em despropósito. As ruas não têm mais esquinas, só o vão entre as calçadas por onde os saltos fazem seu toc-plec voltando de nenhum lugar.

E segue-se. As notícias correm. Ouvi dizer que você foi visto vagando na Cinelândia procurando o Carlitos, essa mania que bêbado tem de ser médium mal-trabalhado. Se te conhecessem a fundo saberiam que você até poderia até estar com saudades de lá, mas há lugares melhores para vagar, não é? [Perdoem, mas não vou nomear. Temos mais o que conversar os dois.]

Eu sempre achei que a saudade fosse um sentimento surdo. Ando descobrindo que a deficiência é outra. A saudade é paraplégica. É, vou apanhar da polícia politicamente correta, não vou? São teus fãs também, nada que um tanque de roupa não cure. “Haha” seco e triste.

Não há coragem alguma em acordar silêncios. Se alguma houver está na certeza de que o adeus ao sono é certo: palavras despertas não dormem jamais, só esvaziam quando se cansam das nossas negações. Elas desistem assim como nós.

Eu disfarço bem. Ainda nem cheguei perto do mérito do que eu queria te dizer. Os dois últimos livros que li, achei uma merda. Pouca coisa me interessa depois de Oskar Schell. Estou como após O Cego de Sevilha, lembra? Atada à trama, raiva de livro ter fim, raiva de gente burra sem o benefício da dúvida, de indústria estúpida. Inveja do seu estômago com nojo de arroz, mas traçando Joyce com farinha.

Eu sou cria do mangue. Tenho pouco mais além de bom desconfiômetro, alguma contemplação e desejos atrofiados. Falta sabedoria e sobra jogo de cintura – e aqui eu ouço a sua gargalhada de pós-chauvinista contemplativo dizendo que isso não é tão ruim para mulher... Debochado nunca, afiado sempre.

Agora veja o ridículo. Após Meia-noite em Paris, eu fiquei menor, a vida apequenou-se. Do alto do meu 1,62... foi um redemoinho. Ninguém viu, claro. Como ver o ínfimo encolher? Era pra ter sido grande, eu e os bons roteiros, mas foi apenas isso, very foolish. E te escrevo. Veja o cenário: luz amarela em abajur no canto, Palomitas, Drambuie de um lado e cerveja do outro. E Parliament, of course. Eu sou um clichê. Se ainda fosse ambulante, ótimo – o pior é ser um clichê estático.

Lembrou do Steinhäger, não é? Eu também. Outro “Haha” seco e triste... Do ridículo para o óbvio, melhoro a cada linha. Céus.

Anfã...

A minha saudade de você é egoísta. Não sou eu. Faltam-me as pernas. Você sorria cínico e dedicado ao mesmo tempo, um dom particular. E entendia sempre, a piedade que nunca foi autoserveniente. Tergiverso. É a minha mente que sente falta de passear. Isso você sempre soube, como caminhar, como esvair-se de si e rir da estupidez da demência. Assustadora você, hã? Agora vai lá na cozinha e me faz um café, Dona Demência, faz favor. Duplo asfalto.

Pronto, falei. Melhor? E quem é que se sentiria melhor depois de uma merda dessa? “Haha”.

É hora de deixar ir, descansar. A gente prende e segura. Isso é culpa sua, que faz uma falta absurda.

Irmão amado... Que seria de mim, meu deus, sem a fé em Fernando?

Fica perto de mim, sim? Gastei a última ficha e a banca tá sorrindo de lado. Eu acho que o resto da vida vai custar caro.

Beijo de violino com atabaque, menos surdo e mais patético.
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