domingo, 28 de dezembro de 2014

A penúltima palavra

Vento doce e frio que arrepia a nuca e bebe cachaça. Sorri. Flor do tempo perdido que parece recém-florida. Justiça feita aos condenados e condenação dos inocentes. Sorri. Ela brinca de ser irmã. A faceira tem facetas ásperas e pele de veludo tem na verdade toque de casca seca de cobra. E sorri. 

É salgada e sorri e faz que vive um dia de cada vez, mas é onda do mesmo mar, só vai e volta batendo na pedra mole em água dura que perfura e desmente a semente do verde pretenso plantado em visco. Olhos de vidro diamante de amálgama fóssil, uma imitação canastrona dos ruídos, um arremedo pobre da colagem alheia, forjada em vícios vicejando inovações antigas de gregos muito mais livres que a sua despenada alma. Corre riscos óbvios de simplicidade tosca, observa e redime e lava os pés dos pobres com tom de raiva humilde, cheia de sina e de pretexto, numa falsa entrelinha riscada por um editor ruim.


O que se deu foi herança queimada em fogueira de fogo-fátuo azulada de intriga num passado de pena a torturar um presente simplório e um futuro de dar dó. Pena é tão triste quanto pipoca gourmet. E ela nunca vai passar disso. 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O óbvio e o oculto - Heyk Pimenta

Adoro receber presente de ser apresentada a autores que não conheço. Mas, como leitora, sou tacanha: 8 ou 80, amo ou odeio. Julgamento primário, sentença zipt-zapt-blum. Este foi diferente.

Heyk Pimenta me intrigou.

Seus poemas me arrancaram da zona de conforto crítica: um senso de desacerto quase me fez desistir na primeira miragem. Eu não acertava o passo, ritmo desacertado, a crítica querendo pular linhas e parando no trem do esteio. E uma vontade danada de ir adiante.

Eu li. E resisti. E insisti na minha ignorância. Fui, enfim, enredada.

Fui um frango oco com bisos e bisas e levantei minha cabeça pela crista, mantendo meu orgulho de servir ao fio frio da faca que me fez outro bicho.

Fui criança e brinquedo de lixo, lugar onde eu, as crianças e o narrador nos misturamos nada sem querer.
Fui casa sem esperança, amigo ciclope envolto em bombons, perdi minhas chaves indo embora onde maria não mora e terminei minha jornada agradecida esperando chover.

Foi uma jornada muito bonita. E se você quiser ser bisa, crista, chuva, casa, janela, maria, vem com ele.

Recomendo abrir o peito e alma. 





domingo, 30 de novembro de 2014

Altura



Subo o majestoso monte.
- Quem é?
Ninguém.
Ouço o eco do tempo.
- Quem é?
Talvez.
Sinto o peso da história.
- Quem é?
Nunca.
Volto ao abismo e afasto.
- Quem é?
Espelho.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Futuro nº6



Eu sou o ocaso.
Sou a sombra dos galhos nus no inverno.
Sou a brisa quente na manhã pós-porre.
Sou a espuma da onda que sobra na linha d’água.
Eu sou o impossível.
Sou os pesadelos que a insônia prevê.
Sou o carro defeituoso do Tivoli Park.
Sou o extremo do vício,
Sou tua abstinência.
Sou a água fria no músculo rígido,
Sou a costura enfiada na desconfiança,
Eu sou a meia furada em público.
Eu sou a água que evaporou fervendo,
Sou a corda que arrebentou no show,
Eu sou o círculo da saia branca,
Eu sou o último gole.
Eu sou o acaso.
Sou a Nova Iorque da tua jihad.
Sou a ponta do novelo,
Sou a corcunda do camelo,
Sou a pedra da fome,
Sou através.
Eu sou o óbvio.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O Inverno Fecha os Poros


[Lindo texto de um futuro amigo que, como jogador de futebol, é excelente médico.]

O inverno fecha os poros,
abre os olhos,
faz o fio – navalha do frio –
cortar a espinha,
gelar o rio de mim.


O inverno é alada neblina
e, à noite, deixa as ruas vazias,
superlota os meio-fios,
suplica por um vinho
que solta as meninas.


O inverno galopa do sul
E gargalha – riso escorregadio –
pinta de escuro azul
o escuro que esconde a dor
demolindo os muros,
expondo tudo:
nu.


O inverno fechou meus poros,
Abriu meu peito,
semeou esporos do imperfeito
e, vestido de terno,
suturou de qualquer jeito
minha espera,
minha angústia
para florescerem na primavera.



L.M.H.E.

sábado, 19 de julho de 2014

Serra Malte



Palmas para você.

Palmas para a sua resistência,

Sua resiliência

E competência

Em negar o que tem à mercê.

Compartilho seus créditos

Já fui assim

Neguei meus méritos

Achava que era dona de mim.

Pausa para tergiversar

Foi o que restou.

Mas eu imagino e anseio...

Quando você entender que acabou,

Será tarde demais para dar-lhe esteio.

Palmas para você.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pra uns e outros

De: Eduardo Sterzi

Você aí que está pensando ou dizendo que o primeiro morto nas manifestações foi o cinegrafista Santiago Ilídio Andrade: você é muito mal informado.

Antes morreram, pelo menos:

1. a gari Cleonice Vieira de Moraes, em Belém (PA), vítima do gás lacrimogêneo lançado pela polícia militar;

2. 13 mortos na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (RJ) - neste caso, a imprensa sequer se deu ao trabalho de informar todos os nomes;

3. o estudante Marcos Delefrate, de 18 anos, em Ribeirão Preto (SP), atropelado por um carro que furou um bloqueio de manifestantes;

4. Valdinete Rodrigues Pereira e Maria Aparecida, atropeladas em protesto na BR-251, no distrito de Campos Lindos, em Cristalina (GO);

5. Douglas Henrique de Oliveira, de 21 anos, que caiu do viaduto José Alencar, em Belo Horizonte (MG), por ter sido acuado pela polícia militar. Luiz Felipe Aniceto, que saiu do mesmo viaduto, ficou um mês em coma e também acabou morrendo. No mesmo dia, depois de um toque de recolher ilegal, o morador de rua Luiz Estrela foi espancado até a morte.

6. o marceneiro Igor Oliveira da Silva, de 16 anos, atropelado por um caminhão que fugia de uma manifestação, numa ciclovia próxima à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, na altura de Guarujá (SP);

7. Paulo Patrick, de 14 anos, atropelado por um táxi durante manifestação em Teresina (PI);

8. Fernando da Silva Cândido, ator, por inalação de gás lançado pela polícia, no Rio de Janeiro.

9. o senhor que foi atropelado por um ônibus, ao tentar fugir da polícia, na mesma manifestação em que o cinegrafista Santiago foi atingido - sobre esta outra vítima, nenhuma linha na imprensa. Chamava-se Tasman Amaral Accioly e era vendedor ambulante.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

I know you're listening.

sábado, 1 de junho de 2013

Amor

O amor é uma compreensão cravada entre dois ruídos.

Desejo

Desejos são ilusões transparentes guardadas em vidros coloridos que chamamos de objetivos.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Meu irmão Fernando:




Aqui, você sabe, as coisas estão como vão. Dia depois do outro, é o mesmo dia de esperar. Conforme as luzes de fora se acendem, as de dentro apagam-se em despropósito. As ruas não têm mais esquinas, só o vão entre as calçadas por onde os saltos fazem seu toc-plec voltando de nenhum lugar.

E segue-se. As notícias correm. Ouvi dizer que você foi visto vagando na Cinelândia procurando o Carlitos, essa mania que bêbado tem de ser médium mal-trabalhado. Se te conhecessem a fundo saberiam que você até poderia até estar com saudades de lá, mas há lugares melhores para vagar, não é? [Perdoem, mas não vou nomear. Temos mais o que conversar os dois.]

Eu sempre achei que a saudade fosse um sentimento surdo. Ando descobrindo que a deficiência é outra. A saudade é paraplégica. É, vou apanhar da polícia politicamente correta, não vou? São teus fãs também, nada que um tanque de roupa não cure. “Haha” seco e triste.

Não há coragem alguma em acordar silêncios. Se alguma houver está na certeza de que o adeus ao sono é certo: palavras despertas não dormem jamais, só esvaziam quando se cansam das nossas negações. Elas desistem assim como nós.

Eu disfarço bem. Ainda nem cheguei perto do mérito do que eu queria te dizer. Os dois últimos livros que li, achei uma merda. Pouca coisa me interessa depois de Oskar Schell. Estou como após O Cego de Sevilha, lembra? Atada à trama, raiva de livro ter fim, raiva de gente burra sem o benefício da dúvida, de indústria estúpida. Inveja do seu estômago com nojo de arroz, mas traçando Joyce com farinha.

Eu sou cria do mangue. Tenho pouco mais além de bom desconfiômetro, alguma contemplação e desejos atrofiados. Falta sabedoria e sobra jogo de cintura – e aqui eu ouço a sua gargalhada de pós-chauvinista contemplativo dizendo que isso não é tão ruim para mulher... Debochado nunca, afiado sempre.

Agora veja o ridículo. Após Meia-noite em Paris, eu fiquei menor, a vida apequenou-se. Do alto do meu 1,62... foi um redemoinho. Ninguém viu, claro. Como ver o ínfimo encolher? Era pra ter sido grande, eu e os bons roteiros, mas foi apenas isso, very foolish. E te escrevo. Veja o cenário: luz amarela em abajur no canto, Palomitas, Drambuie de um lado e cerveja do outro. E Parliament, of course. Eu sou um clichê. Se ainda fosse ambulante, ótimo – o pior é ser um clichê estático.

Lembrou do Steinhäger, não é? Eu também. Outro “Haha” seco e triste... Do ridículo para o óbvio, melhoro a cada linha. Céus.

Anfã...

A minha saudade de você é egoísta. Não sou eu. Faltam-me as pernas. Você sorria cínico e dedicado ao mesmo tempo, um dom particular. E entendia sempre, a piedade que nunca foi autoserveniente. Tergiverso. É a minha mente que sente falta de passear. Isso você sempre soube, como caminhar, como esvair-se de si e rir da estupidez da demência. Assustadora você, hã? Agora vai lá na cozinha e me faz um café, Dona Demência, faz favor. Duplo asfalto.

Pronto, falei. Melhor? E quem é que se sentiria melhor depois de uma merda dessa? “Haha”.

É hora de deixar ir, descansar. A gente prende e segura. Isso é culpa sua, que faz uma falta absurda.

Irmão amado... Que seria de mim, meu deus, sem a fé em Fernando?

Fica perto de mim, sim? Gastei a última ficha e a banca tá sorrindo de lado. Eu acho que o resto da vida vai custar caro.

Beijo de violino com atabaque, menos surdo e mais patético.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Para quem mora nas nuvens

Para MP, como os meus minutos.
Trilha: Renato Braz - Dulcinéa

Do alto da tua estatura de monumento, de impávido colosso, é normal, há de ser, não ver as coisas pequenas da terra, os grãos.
Daí das nuvens continentais onde moras, deve ser difícil compreender o que é pequeno. A vista se acostuma aos horizontes infinitos, ao sabor estalado na língua das estrelas mais distantes, provadas como bala de coco, e os ventos de força bruta só te fazem carinho nos cabelos. Daí só escutas o sussurro das preces – o clamor voraz em que insistem e se apegam os mortais é só um eco de corda solta em teu sereno despertar. Não há senão grilos morando dentro das madrugadas que atravessas a passos de eternidade.
Mas ouve.
Para além dos grãos miúdos, há matizes de luz que se refletem em gotas ermas de orvalho. Há o cheiro da cheia, que traz passarinho. Há pés pisando grama molhada em dança de festa, por baixo de rosas, por cima de ouro. Há trens de ferro ganhando encontros, sardas triscadas no ombro das moças, ritos de adeus.
Há cantos de cantar só, há passos de atar junto. Méritos de descasos, de ocasos, de perdões negados, um dia atrás do outro irrompendo de girassóis teimosos brotando entre um pesadelo e um pilequinho.
Há a beira do mar. O som das ondas faz lembrar de espiar o mar além e traz esse calor no peito que ergue, involuntário, o olhar para o céu.
Eu, da beira da praia, espero as ondas. E elas quebram, nascidas de um colosso espraiado dentro do delírio de um marlim.
Daí, tu não me verias.
Não fosse o amor que tenho, que fez de mim um pedaço do mar que te trouxe, não me verias. Foi uma ousadia feita de faíscas, de sem-chão, de nomes que não existem desde que o último deus veio provar arrepio de Sol na pele úmida. Mas com preço alto a pagar.
É certo que me faço em chamas, nada sobrevive a tanta luz.
E ainda assim o que deveria ser uma condenação renasce a cada dia, em desenhos de pedra-mármore fastiadas de perenidade.
Todos os dias eu morro consumida em labaredas por chegar perto do Sol. E todos os dias eu preciso colar a pele escarnada com a saliva grossa da minha ignomínia, preciso lamber de volta meu próprio sangue do chão, enfiar os ossos despedaçados por dentro dos músculos rasgados, tirar da córnea o sal, apontar a alma para a coragem e de novo esperar que o amor me erga até onde possas me ver. 
E lá, no alto do meio-dia, eu vou sorrir sem dor, amando o amor de todos os mundos. 
A rotação da Terra irá estirar aos poucos a minha pequenez e alertar meu vaticínio, e vou agradecer apenas por ainda outra vez poder olhar os teus olhos. Em segundos, estarei novamente em chamas e serei miragem, lenda de ensinar o mistério que mora dentro da espuma deixada na areia. Vou então chover em lágrimas e esperar a hora largar o escuro.
E assim será enquanto as ondas moverem o mar.

“Os deuses são deuses porque não se pensam.”
Fernando Pessoa

sábado, 15 de outubro de 2011

Da arte de ser feliz





Por causa de Sorriso Maracanã


Há pessoas que carregam em si uma capacidade infinita de serem felizes. Parecem estar em permanente estado de graça e ainda, com absurda generosidade, contaminam os demais, com doses descomunais de amor espontâneo e genuíno. São assim porque é o que há pra ser – já que se está vivo. Cada dia é o grande dia.

Há outras pessoas que parecem carregar um bezoar de angústia enterrado no coração. Não é sua culpa. Foi posto lá antes da vida, antes que elas se dessem conta de que estavam predestinadas a serem felizes.

E há um terceiro tipo: gente que vive uma vida inventada, à custa do que é alheio, e acha, chega mesmo a jurar, que é feliz (obviamente mais feliz que todo o resto dos mortais). Esses se apropriam do que não lhes pertence, do que não criaram, do bem que não fizeram, das juras que não cumpriram, exaltam que são seus os joelhos esfolados pelas promessas que não fizeram nem pagaram, como se tudo isso fosse obra e graça do próprio esforço. Confundem o sentimento dos impotentes com doação, chamam carência de amor, transmutam um gesto de compaixão em carestia de dádiva incondicional. Creem, e (assombrosamente) espalham a notícia, que são a Lua que Sol namora para o dia se pôr. Eles invadem e expugnam o juízo de quem quer paz e, por isso, confundem o pacifismo com fraqueza, quiçá aceitação. Enfim, não são capazes de ver o mal que causam, não veem a eminência parda da própria arrogância, não sabem o quanto são apenas pequenos e... infelizes.

Então por que é que gente assim nos exaspera? Por que não podemos ignorar os delírios de grandeza dos que se apropriam do que é nosso por direito e deles, como tanto afirmam, por usurpação, distorção e grossa insistência? Por que, para esses, as mentiras repetidas se tornam verdades tão facilmente?

Chego ao ápice da curva dos indignados e descrentes. A humanidade é um poço de incompreensão e ruído.

E ainda é preciso, é preciso, é preciso ser feliz.

Se não é possível incutir um pouco de ridículo nessa gente, como seguir?

Se não é possível abandonar esse castigo da eterna consciência crítica de si no mundo, como sequer argumentar com indiligentes, sempre surdos ao que lhes foge ao umbigo?

A resposta é a mais simples e, a um só tempo, o ato mais custoso. E que nos devolve ao primeiro tipo de pessoa, os genuinamente alegres, que vieram com esta função de fábrica.
Ser feliz – infelizmente – nada mais é que um exercício incessante de relevar e perdoar.
Ô troço difícil do caralho!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Inconfessável


E não mais falar nem ouvir.
Nem justificar, nem perder.
Nunca mais chegar,
que só chega quem parte.

E viver na sombra da tua mão
rescender diante do seu olhar,
depois de cada morte,
baile eterno de Tanatos
rodopiando Eros ao som da ausência,
da fúria,
do delírio,
nunca devolvendo o que tirou pra si.

E jurar pra sempre,
mentir que sim,
calar que não.
Esquecer as horas, ceder insone,
soltar amarras zarpando às cegas,
honrar o nome do teu nome,
todas as madrugadas são tuas,
o coração é meu,
o risco é nosso,

e teus serão os dias,
o tempo roubado,
cada instante é acendrado
em beijos de ardidez,
e vão sendo feitos teus
todos
os
minutos.
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