terça-feira, 9 de novembro de 2004

TEM EM QUALQUER LUGAR

Eram duas horas da manhã quando ela chegou em casa. Os pés doíam, a meia-calça tinha desfiado da coxa ao tornozelo, a maquiagem meio desmanchada tinha feito um olho de panda na cara, o penteado também já não estava mais essas coisas e, ainda assim, um sorriso insistia em brincar nos cantos da boca, pegando-a desprevenida no meio dos melhores pensamentos. Jogou-se no sofá, com as pernas pra cima, ligou o som, escolheu a faixa certa e começou a cantar. Fez um agradecimento silencioso à Conspiração Universal, muito obrigada por ter me tirado de casa hoje. Não podia ter aprendido lição mais valiosa nesse momento. Mas a verdade é que não tinha sido de todo assim tão fácil...

Os dias anteriores foram de pura decepção. O tão esperado reencontro com o amor de sua vida, aguardado ansiosamente durante semanas, tinha começado como um conto de fadas e terminado num retumbante fiasco. Depois de seduzir, acariciar, depois usar todos os clichês românticos, depois até mesmo de beijá-la, aquele homem tão imensamente amado, aquele homem pelo qual ela se manteve alheia e distante de qualquer outro, aquele cuja ausência irremediava o destino, aquele homem negou seu carinho. Negou seu afago, negou colo, negou lamber as feridas que ele mesmo causara, negou socorro. Negou o passado, negou o presente. Assassinou o futuro. Ela ainda pediu uma última vez: “não vai. Fica comigo hoje, apenas se deixe ficar ao meu lado, não vai...”. Covarde, ele respondeu: “ficar hoje não adianta nada, não resolve meus problemas. Trepada boa tem em qualquer lugar”.

Ela sentiu as entranhas revirarem como se estivessem tentando lhe arrancar as tripas pelo buraco do umbigo. Cinco meses. Cinco meses fechada, sem permitir que ninguém a tocasse, fugindo, inventando pra si mesma as desculpas mais estapafúrdias, cinco meses pra ouvir que um trepada boa tinha até na esquina. O peito calcinava... ela agarrou o cordão que trazia no pescoço e instintivamente, pra se defender, arrancou com corrente e tudo o relicário com a foto dos dois juntos e atirou longe. Num arroubo de dor e de vergonha, ela não teve mais forças pra continuar. Saiu correndo pelo corredor, deixando o sujeito estatelado na beira da escada, bateu a porta de casa atrás de si, uivando de tanto chorar. Os pensamentos chocavam-se uns contra os outros, como é possível amar um corpo sem alma, sem sangue nas veias, capaz de tanto destrato? Queria levantar do chão e as pernas não deixavam, o choro não cessava, ficou ali sentada, doendo, remoendo, do avesso pro direito, até as pernas ficarem dormentes.

Adoeceu. Febre alta, crises intermináveis de calafrio, cãibras nas pernas, nos braços, amígdalas em pandarecos, enjôos incuráveis, três dias de cama.

Quando o telefone tocou, seu primeiro pensamento foi arrancar da parede aparelho, tomada fio, tudo de uma vez. Respirou fundo, pode ser importante, e atendeu. “vem pra quadra da escola agora. Tá todo mundo esperando por vc”. Não posso, não, não quero, não dá, nem adianta, nem te conto, doendo a vida, do cabelo à unha, mais ou menos, umas coisas aí, nada demais, porque não, porque não quero, não insiste, quem, não brinca, mas é melhor não, é mesmo, mentira sua, tanto assim, até aqui?, só pra me buscar?, verdade?, me arrumo em vinte minutos.

Foi. Se cobriu da purpurina que não tinha, usou o Lancôme que tinha acabado e foi. Foi com tudo, que a bicha pode até ficar bege, mas não cai do salto jamais...

A sensação ao chegar na quadra da escola era a de que a vida voltaria a ser contente. Mesmo sem saber bem porquê.

Bastou um sorriso.

Bastaram (é pouco?) três passos, dois rodopios, muita atenção, três meias-voltas, cinco compassos, outros tantos sorrisos, mais dedicação, um abraço... Passaram-se muitos minutos, horas. Seria possível? Cautelosa, semi-entregue, ela se deixa levar na trança das pernas, no ritmo do afago, na felicidade da descensura, e dançou a noite inteira, até a última nota, do último samba. Foi pra casa com o coração tranqüilo. Já na porta do prédio, o celular apita um recado. Ela lê o torpedo com a frase redentora: “você devia ter ficado comigo hoje. Nós merecíamos”.

Às duas da manhã, com as pernas pra cima do sofá, ela é obrigada a concordar. Realmente.
A próxima trepada boa até que pode mesmo estar na próxima esquina...

E a vida sorriu.

Sorri
A/G D6(9)
Depois do beijo, sorri
F° Em Asus4
Depois do abraço, parti
A7 C#7(#9)
Marcamos um novo encontro
Tu não vieste
F#m7(b5)
Fiquei triste
B7 G#m7(b5)
A lua cheia fez-me sorrir
A/G D6
Depois do beijo, sorri
F° Em Asus4
Depois do abraço, senti
A7 D6(9) Am
Muitas saudades de ti
D7
Amei
Porque amor por ti
G7M D7
Eu tinha demais
G7M
Te adorei
Esus4 E7 Gm6 A7(9)
E tu roubaste a minha alegria de viver
B7
Eu chorei
G#m7(b5)
Depois eu sorri...

(Sorri, de Elton Medeiros e Zé Ketti)

Um comentário:

Branca disse...

Aos meu revisores amados, sempre atentos:
Muito obrigada, vcs são umas gracinhas! ;)
Sempre que passar alguma coisa, por favor, não deixem de me avisar. Revisão dá uma pregui...

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