sexta-feira, 12 de novembro de 2004

CESTA DE BOMBOM

TRILHA: “EN LA ORILLA DEL MUNDO” – CHARLIE HADEN

O despertador tocou. Sonolenta e vacilante, ela tateia pela mesinha, agarra o telefone, diz alô no nada, o despertador apitando loucamente, que raiva, que sono, ela encontra o infeliz e o desliga. Larga a cabeça no travesseiro dando bufas e sonda o outro travesseiro da cama, que está vazio. De onde raios saiu esse despertador? E programado pra tão cedo ainda por cima? Ela se ergue com uma expressão descontente, esfrega os olhos e percebe a seu lado uma linda cesta de presente com um enorme laço de fita e um envelope.

“Meu amor:
Hoje é nosso aniversário de casamento. Sei que esta minha viagem de trabalho te desagradou profundamente, mas afirmo-te ter sido absolutamente necessário. Sabes como é este mundo em que vivemos, nunca dá tempo de ter tempo. Ou nunca se tem tempo suficiente pra dar. A fim de tentar compensar esta e muitas outras descortesias minhas para contigo é que preparei esta surpresa. Pus o despertador para tocar e tenho em mãos uma cópia desta carta, que leio também neste exato momento. Dentro da cesta, vais encontrar uma generosa porção daqueles bombons que tanto gostas, os de cereja. Lembras? Eu jamais me esquecerei.

Coma um bombonzinho. Eu como outro daqui e para cada um destes bocados você deve pensar num beijo meu. Combinado? Mas tem que ser juntinho pra dar certo. Lá vai: um dois três e já, um bombonzinho e um beijinho.

Durante todos estes anos de casamento, tu me fizeste o homem mais feliz do mundo. Cada pequeno gesto de carinho ficou registrado. Duvidas? Pois eu provo então ser esta a expressão mais pura da verdade. Sei, por exemplo, que escolheste a camisola das núpcias na cor azul por minha preferência. Sei que aprendeste a cozinhar meu pratos prediletos, copiando as receitas de minha família com precisão.

Outro bombonzinho, minha linda, outro beijinho.

Sei também que fechaste os olhos para meus defeitos, minhas variações de humor. Agradeço-te por cada lição aprendida, coisas que só tu, com tamanha doçura, poderia me fazer ouvir. Sou um homem melhor hoje, sei cuidar de meus cabelos, de minha barba, até das unhas dos pés e dos pêlos nas orelhas. Tudo por ti.

Mais um bombom, amor meu. Quase posso sentir-lhe a boca!

Quero que saibas também dos meus esforços, que apesar de muito menores e ordinários, os foram não por falta de amor. Dei-te tudo, do bom e do melhor. Dediquei-te minhas horas extras, malditos serões intermináveis, durante os quais eu só pensava em ti. Sentia-me terrivelmente só, mas a tua imagem, candidamente dormindo em nosso leito, a esperar por mim, era todo o meu consolo.

Bombonzinho, vai, mais um para que eu possa beijar-te.

Também procurei respeitar teus humores, as dores de cabeça cada vez mais freqüentes nos últimos meses, as pequenas desatenções, como deixar de passar-me as camisas, ou dar meias sem cerzir para calçar. Nem poderia arreliar-me tanto com episódios comezinhos, pois pela manhã tua disposição era sempre das melhores. A mesa do café sempre posta e bem arrumada, teu sorriso, tua voz a cantar um sucesso de Dircinha, o beijo de despedida na porta da rua...

Eu disse beijo? Outro bombom!

Pena que nos finais de semana, justamente quando era possível passar mais tempo em tua companhia, te acometiam as mais furiosas indisposições. Como temi por tua saúde. Gastei, você bem o sabe, muito dinheiro com especialistas das mais diversas áreas. Fiz promessa até. Meu coração doía de pena de ti, sofrendo tanto.

Bombonzinho, bombonzinho...

E, exatamente com a única intenção de te agradar, eu já tinha decidido voltar desta minha viagem mais cedo, de surpresa. Foi o que fiz ontem, no fim da tarde. Eu falei em surpresas? Eu é que fiquei perplexo. Sabes o que vi quando cheguei? Ah, bem sei que o sabes. Não, minha querida, não foi a traição propriamente dita que me destruiu. Encontrar outro homem em minha cama poderia ser perfeitamente sobrepujável, não fosse o pequeno detalhe de serem dois homens, não um, e negros, reluzentemente negros, e com caralhos colossais, prodigiosos. Havia porra espalhada por todo lado, do seu rosto à cortina e o cheiro do quarto era insuportável. E os três num estado animalesco de tal ordem que sequer notaram minha presença espiando pela porta entreaberta. Nojo? Náusea, enjôo? Não. Repulsão, repugnância, asco. Aversão. Ojeriza. Tanta que preferi deixar a casa imediatamente. Vaguei algumas horas e decidi retornar para a cidade em que estava, o mesmo quarto de hotel de onde eu nunca deveria ter saído.

Mas senti e sinto ainda vontade de beijar e abraçar minha mulher. Não a pérfida, traiçoeira e repelente mulher que dormia com aquelas aberrações, mas a doce e imaculada criatura com quem me casei. Porém, enquanto a memória da meretriz em mim permanecer, jamais minha alma terá paz de amar minha santinha. O demônio se apossou de seu corpo e de seu espírito e agora cabe a mim resgatá-la. Por isso mandei a cesta e os presentes. Realmente estou neste exato momento lendo a carta junto contigo. Também estou a comer os mesmos bombons, juntinho. Só que os teus têm arsênico. Os meus não.

Com todo o amor deste sempre teu,
Orlando.

PS: Corno é a putaquepariu.”

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