quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Misericórdia

Deus, essa é uma prece desesperada e muito exagerada, pra que teus anjos, Senhor, venham ao meu socorro. Não os branquinhos, cor-de-rosa, redondinhos... Mas os mulambos, rotos, caídos, que de vez em quando desabam. Deus, que eu esbarre com eles ao vagar na rua quando meu carro enguiçar a duas quadras de casa; quando me rasgar de ódio no tédio da síndrome de Wendy e ninguém telefona (quando eu chamar de ninguém o ser amado); quando adoecer de saudade de quem não tem tempo de destemperar-se por quem se desespera. Um anjo, meu Deus! Como aquela que aos três anos perdeu a mãe, fugiu-lhe o pai, casou aos vinte e mais um foi-se o marido, ficou uma criança e um quarto de empregada. Um anjo, Senhor… que desfalque minha miséria com sua própria inópia. Um anjo, Senhor, pra me mostrar grandes e virulentas feridas dantes como as minhas tidas, mas bem mais violentas por sua própria inquietude. Um anjo, senhor, um boêmio azulão, um vagabundo de chapéu coco e algum tipo de verdade. Um anjo, Senhor que não seja perfeito, que me pegue pra si e me traga de volta a tristeza que eu perdi. É só, Senhor, quero estar de volta num retornar distante, ter de novo o poder, perdido, de controlar e superar a caneta e o amante.

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