domingo, 31 de outubro de 2004

TIJUCA

De Aldir Blanc


Eu já escrevi em algum lugar que a Tijuca é um estado... de sítio. O tijucano é um sitiado. Não tanto pela crescente violência. O tijucano é, por natureza, perdido como uma bala. Com seu amor peculiar pelo bairro, sitia a si mesmo.
Inúmeras vezes, um tijucano já foi flagrado, eufórico, no buteco (ponto para o bairro: a Tijuca é pródiga em butecos seletos), anunciando aos quatro ventos:
— Adeus, Tijuca! Tô indo pro Leblon!
Meses depois da mudança, é visto, disfarçado, pelas esquinas da Tijuca, suspirando. Se você o aborda, ri amarelo, fala da superioridade do Leblon, da praia, do comércio, das opções culturais, das... (está prestes a chorar) das... das mulheres.
É só dar o golpe de misericórdia:
— Tá com saudade, hein?
Em menos de um mês, o cara volta. É verdade que volta com o ressentimento ambíguo próprio do tijucano. No papo, quando faz a fezinha, tenta botar banca:
— Eu já morei no Leblon...
O tijucano é um emergente que não deu certo. Por sua própria culpa. Na praia, cervejinha em punho, cercado de tangas, suava frio ao ouvir o chamado atávico da floresta. Dizem que na hora de levar o suculento naco de lagosta à boca, instalado no mais caro restaurante do Leblon, sentia saudade da tímida barata que o fitava, humilde, num cantinho da pizzaria tijucana. Gente maldosa garante que ele cumprimentava, discretamente, a barata: oi, Dulce Marguerita (o nome é uma singela homenagem à pizza de sua predileção).
O tijucano é antes de tudo um porte. Uma pose. Uma figura. Um extra fazendo bico no próprio filme. Na imortal imagem de Nelson Rodrigues, um contínuo de si mesmo. Uma caricatura. Mas sua cidade também é. Superar a caricatura que fazemos de nós mesmos, rindo dela, é nossa força.
Vejam as mulheres: ralam, batalham, suam a camisa e as calcinhas, mas, à frente da bateria, não tem graça como a da tijucana. É daquelas mulheres sábias que acompanharam o essencial da modernidade sem esquecer as lições da vovó. Em suma: dão prazerosamente,mas, enquanto nos beijam, murmuram: não... não... ai!
Agentes provocadores espalham, em Copacabana, que existem algumas ruas, na Tijuca, em que mora um ex-torturador para cada vinte habitantes (e desses, mais da metade apoiava, ainda que por omissão, o que o monstro fazia na época da ditadura). Não é verdade. Qualquer solar oculta um porão. O importante é nossa vontade de escancará-lo, remover a sujeira, deixar a luz entrar.
Hoje, fala-se em Grande Tijuca, que englobaria o Estácio, berço do samba, a Vila Isabel, imortalizada por Noel Rosa, Aldeia Campista, Andaraí-no-seu-Gramado, a Usina, o Grajaú (que não se conforma e está cheio de “separatistas”de nariz empinado).
Só pra encerrar, na Grande Tijuca estão o Templo do Futebol, o Maracanã, um dos grandes Santuários de nossa Cultura Popular, a Acadêmicos do Salgueiro, o Instituto de Educação, monumento vivo e inesquecível à... à... bom, deixa essa parte pra lá.
Agora me ocorre que, apesar de tanto empenho desperdiçado, de tantas crenças traídas, de tantas pérolas atiradas aos porcos, o tijucano permanece grávido, contra tudo e contra todos, de uma injustificada esperança-equilibrista: a Tijuca é um estado interessante!
Parafraseando um samba que eu fiz com o Cláudio Jorge:
Quando eu deixar a Tijuca
sinto que o Céu não irá me agradar
pois não basta um Paraíso inteiro
pra saudade que Tijuca dá...



3 comentários:

Anônimo disse...

Mariana, muito boa nossa sexta Tijucana!
beijo.
Paula

Branca disse...

Paula, tb a-do-rei nossa sexta-feira.
Foi um espetáculo! Tinha que ver a cara do meu porteiro quando eu e Andréa chegamos às oito e meia cantando a Ave-Maria do Cerole... pode estar certa de que boa coisa não era... :))
Mas isso vai merecer um comentário especial depois. Aguarde!
Beijo grande.

Anônimo disse...

Às oito? Putz...
Sou amadora mesmo.
beijo.

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