segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Duas cabeças, quantas sentenças.

Sentindo-se mais estranha que ovo cor-de-rosa de butiquim, Maria levantou-se às 3:20 da matina depois de passar um bocado de tempo fritando na cama. Acordou de silêncio. O homem ao lado do qual havia passado as últimas três noites parara de roncar. Normalmente, ele soava firme, compassado e vibrante como a Banda do Corpo de Bombeiros, com Anacleto de Medeiros na regência, oficleide e tudo o mais. Essa noite, sem mais nem menos, parou. Assim de repente. Primeiro, ela achou que ele tinha tido um treco, depois viu que estava respirando, mas aí já não conseguiu voltar a dormir.

Havia ainda o vento. Um vento ventando de assustar, parecia com vários ventos em direções opostas, todos com raiva dela e dispostos a derrubar a casa. Maria não queria ter se levantado. Só o fez por sentir-se presa dentro de uma canção de João Bosco e Aldir Blanc que diz:

Você fica deitada / De olhos arregalados / Ou andando no escuro de penhoar / Não adiantou nada / Cortar os cabelos e jogar no mar / Não adiantou nada o banho de ervas / Não adiantou nada o nome da outra / No pano vermelho pro anjo das trevas / Ele vai voltar tarde / Cheirando a cerveja / Se atirar de sapato na cama vazia / E dormir na hora murmurando / Dora / E você é Maria

Tateou no escuro, rezando pra ele não acordar. Sentada no sofá, se arrependendo do que pode e inventando outros tantos motivos pra continuar ali, num frio de 10 graus esperando Heathcliff aparecer no meio dos ventos uivantes. Tentava se lembrar de como havia se metido nessa angústia. “Preciso dormir. Amanhã é dia de debate no clube”, lembrou, sem se dar conta de que foi exatamente assim que tudo começou.

Não havia muito tempo, nossa insone protagonista se separara de Ivan, o enfant terrible. Sujeito difícil de lidar, sem conflitos, que passava ao largo da vida tão de bem com tudo e todos que irritava. Vascaíno tresloucado, defensor ferrenho do Eurico Miranda, embora alguns amigos dissessem que as duas coisas eram antagônicas. Ivan abandonou Maria sem mais nem menos pra juntar-se a um pequeno grupo que ia para a Serra do Timbiricó caçar um OVNI.

Passados alguns meses, Maria deixava São Januário após uma partida histórica, quando reparou num homem que chorava copiosamente, abraçado num grupo da organizada e cantando o hino. O Edmundo havia feito cinco gols naquele dia. Ela tinha ido por acaso, arrastada pelos primos e agora estava abismada com a figura daquele homem que, apesar dos 40 aparentados, chorava feito um menino. O homem estanca subitamente, pergunta as horas e sai numa carreira desabalada pela rua.

Ela permaneceu ali parada tentando entender o espanto que o desconhecdo causara. Decidiu que iria a todas as partidas do Vascão até conseguir conhecê-lo. O grupo carregava uma enorme bandeira e isso tornaria a empreitada mais fácil.

3 empates, duas vitórias e quatro derrotas depois, ela estava desistindo. Do time, principalmente. Num jogo em que o ataque e a defesa pareciam jogar um contra o outro, ela resolveu afogar as mágoas. Encostou-se ao balcão do bar e quando pediu a cerveja ouviu o conselho: “Eu não faria isso se fosse você. A cerveja, além de ser ruim, está quente. Compra lá fora uma Skol gelada, aproveita e dá um prejuízo nesses putos que é bem feito”. Espantadíssima, Maria olhou pro lado e conheceu, finalmente, depois de três meses de buscas, o Solano.
Descobriram muitas coisas em comum. Além do Vasco, tinha o Salgueiro, as rodas de samba e um leve pendor pra discussões improfícuas. Tornaram-se amigos.

Solano, no entanto, tinha gosto por estratégias. Portava-se como se fosse o único caso insolúvel do Inspetor Maigret, o brilhante detetive de Georges Simenon. Quantas vezes ela não se perguntara o que havia por trás das evasivas, pra onde olhava aquele olho que se voltava pra dentro, escrutinando sabe-se lá. Em certos momentos, ele parecia querer protegê-la de um perigo eminente e em outros avançava pra cima dela como se o tal perigo fosse ele próprio. Qd o olhar dele ficava vermelho e marejava era sinal de tempestade. Os dois juntos pareciam uma turba desordenada. Não por causa da absoluta incapacidade de terminar um assunto sequer, sempre engrenando noutro troço diferente, mas pelos fantasmas. Ambos eram criaturas assombradas, que arrastavam atrás de si seus mortos, suas feridas e seus temores. Cada um falando podia ser três ou oito. Ele não confiava nela, ela fingia não perceber. E por isso era atirada, como um barquinho numa tempestade, de um lado pro outro, pra dentro do frio dos fantasmas e da distância de Ivan. Como uma auto-reprimenda, toda vez que Solano se flagrava numa demonstração maior de afeto, ele se impunha uma retaliação, um afastamento, um silêncio. Determinadas coisas, como síndrome de abstinência sexual, falta de dinheiro, cólica de saco e emoção os homens escondem até do cara boa pinta que mora no espelho do banheiro.

Solano andava preocupado com a eleição para a presidência do clube. Fazia longos discursos sobre a camisa nova do time, as obras necessárias ao estádio, cogitava engajar-se na campanha do Roberto Dinamite e sonhava com um movimento de boicote pra forçar uma solução para o problema da cerveja. Maria ouvia com interesse genuíno, mas com a resignação de quem tenta não contrariar o doente por ordens médicas.

Certo dia, a oposição conseguiu organizar no clube um debate entre os dois candidatos, coisa óbvia até em campanha de grêmio estudantil, mas até então impensável no outrora tão revolucionário Vasco da Gama. Os principais cabos eleitorais das campanhas envolveram-se numa acalorada discussão. Um doce pra quem pensou em Solano e Ivan. Maria assistia catatônica. Queria sumir, virar pipa de papel de seda e ir morar num asteróide. Seria uma longa campanha.

Sentada no sofá há horas, Maria tenta pôr as idéias em ordem. Tinha muito que fazer, panfletos, bottons, camisetas, o equipamento de som, tudo pendente às vésperas do debate. Via a imagem de Solano no escuro. A verdade é que ela estava deixando-o aos poucos. Sabia que, dessa vez seria pra sempre. Como uma profecia, brilhava diante dela a expressão “nunca mais”. “Nunca mais”. Era uma questão de instinto de sobrevivência. Muitas perguntas haviam sido feitas e ela não tinha mais a intenção de esperar por respostas que não chegavam. Maria concluiu duas coisas importantes. Primeira: duas pessoas tão assombradas, como ela e Solano, não cabem na mesma cama. Só um grande amor afastaria todos os fantasmas e isso ele não tinha pra dar. Segunda: infelizmente, há ainda menos coisas a separar o Dinamite do Eurico do que arriscaria a mais descrente das filosofias.

“Ah, recomeçar, recomeçar
como canções e epidemias.
Ah, recomeçar como as colheitas,
Como a lua e a covardia.
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo
E o fogo, e o fogo...”

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