segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Quem ri por último...

pra vó, pelo aniversário.

Helena e Victor eram casados há mais de trinta anos contra todas as mais otimistas expectativas. Os amigos sempre insistiram em dizer que não ia durar, que era uma temeridade os dois estarem juntos. Brigavam muito. Ele morria de medo do temperamento explosivo dela, chamava a mulher de Eminência, a “eminência da catástrofe”. Ela tinha horror aos silêncios, achava o marido um egoísta de marca maior.
As famílias, muito tradicionais e das mais importantes da sociedade carioca (apesar de decadentes e falidas), arranjaram o casório quando os dois ainda eram muito jovens. Helena já havia se conformado com o arranjo, mas também não deu o braço a torcer: só conheceria o noivo às vésperas da cerimônia. Não queria nem olhar. As primas marcavam em cima, “deixa vir jantar e pelo menos espia pela cortina, boba”. Helena, irredutível, recusava. “Se eu o vir antes das bodas, não caso”.
Marcaram o jantar fatídico um mês antes da cerimônia. Victor foi logo avisando: “mulher minha tem que ter modos”. A moça achou um despropósito a afirmativa. Tanta coisa mais importante pra dizer e ele se saía com essa pérola. Deu graças por não ter aturado um noivado arrastado, com beija-mão na sala e outras bobagens. Era uma mulher prática.
O primeiro ano foi uma catástrofe. Na cama, não se entendiam. Era tão ruim que ela tinha vontade de usar lençol, daqueles com buraco no meio. Socialmente, outro horror. Ele tinha vergonha, fazia de tudo pra evitar levá-la a festas, jantares ou qualquer compromisso que não fosse restrito às famílias. Reclamava que era ríspida, a grosseria em pessoa, não sabia entabular uma conversa, um bicho. Confidenciou ao irmão: “isso não é uma mulher, é um mau agouro”. Choviam conselhos de todas as direções: separa de uma vez; arranja um amante, sua tonta; finge uma asma; vai visitar tua tia e fica por lá; água de azeitona é ótima pra não ter filho, toma uma colher de chá toda vez; arranja uma amante, sua besta, arranja trinta; muda o escritório pra São Paulo; pára de tomar banho... Victor deixava pra lá os pitacos dos outros, já tinha descoberto a maior qualidade da esposa: gostava de futebol e por isso mesmo nem ligava quando ele dizia que ia pro Maracanã. Na verdade, Helena achava ótimo, só assim podia ouvir o jogo quieta, sem aturar os palavrões do marido. Ligava o rádio enquanto ia cuidar das roupas. Victor só estranhava ela não torcer pra time nenhum, afirmando sempre que predileção era coisa de ignorante, o esporte é que era bom. Se prender a um time só era como almoçar todo dia a mesma coisa.
O tempo foi passando e a poeira foi assentando. O que era um suplício, virou apenas uma poça de monotonia. Foi aí que apareceu o Juracy. Veio fazer obra no muro do quintal. Já na primeira semana tomou-se de amores por Helena e inventou um problema no terreno, disse que era arenoso, que o muro ia ter de ser todo posto abaixo e refeito, só por pretexto. Ela já não era menina, mas as coxas bem torneadas, o colo farto, o olhar vivo e o jeito forte na hora de resolver os problemas chamaram a atenção de Juracy, que se derretia todo por dentro, mas sem nunca ter feito movimento algum. Por ele, tanto a amada quanto o patrão ficariam sem saber de nada. Bastava poder estar por perto.
Num domingo, Victor voltou do jogo azedo. O Flamengo tinha perdido pro Vasco, uma vitória que parecia fácil tinha escapado nos quinze minutos finais. Quando chegou em casa, deu de cara com o Juracy cantando o hino do Vascão, todo feliz. Helena, apoiada no tanque, cabelo solto, perna de garça e vestido meio molhado grudado nos seios, sorria de banda. Juracy cantava em ritmo de sambinha e beijava a cruz de malta da camisa, fazendo uma dança engraçada, feito um txucarramãe aprendendo foxtrote. Victor vinha entrando de mansinho, estranhando o barulho, veio sorrateiro, clicou a cena e ficou furibundo. Ele ainda vestindo a camisa do seu amado Flamengo, amargando a derrota e o tal lá, justamente um vascaíno, comemorando, cheio de graça. Estrilou:
— Tá fazendo o quê aí, ô cidadão?
Helena espantada.
— Hoje é domingo, rapaz, domingo... Não é dia de peão trabalhar não. Te fiz uma pergunta. Vai desembuchando...
Helena pasma.
— Doutor, vim pra receber o material que o Miro ficou de mandar... Se num era hoje, só pra semana que vem...
Helena atenta.
— Não te quero na minha casa quando eu não estiver. E você, abriu a porta por que?
Helena bege.
— Parto-lhe a cara, ouviste? Parto-lhe a cara, rapaz! Some daqui, peste, e não precisa voltar nunca mais. Rua, você e esse pano de chão que você chama de camisa.
Helena incrédula.
— Mas doutor... e a obra?
— Some da minha frente com essa merda de camisa! E não me ponha os pés aqui de novo!
O pobre do Juracy saiu arrasado. Tentou voltar uns três dias depois, e deu com os burros n’água. Victor permanecia irredutível e tinha feito do ocorrido sua bandeira para uma nova vida. Transformou-se. Pela primeira vez, ele se dera conta de que esse jeito torto dos dois também era uma forma de amor e a esposa era extremamente importante pra ele. Teve medo, um medo horrível, de perdê-la. Não que houvesse a possibilidade, Helena era mulher séria, seríssima. Mas ainda assim, daquele dia em diante, passou a tratá-la diferente. Fazia-lhe as vontades, adivinhava os desejos, fazia de tudo pra agradar. No entanto continuavam brigando do mesmo jeito... o marido achava que as discussões eram importantes pra quebrar o tédio e ter o gosto de fazer as pazes com um anel ou vestido novo.
Os anos seguintes foram essa gangorra. Um amor meio torto, mas muito sólido. Helena foi, aos poucos, se deixando levar pelos mimos, fazia a sobremesa preferida dele de surpresa, aparava seus cabelos e barba, bancava a manicura, até torcia pro Flamengo, pra desgosto dos tios e primos, todos vascaínos. Vieram os filhos. Vieram os netos. O casamento cada vez mais ao contrário, o amor, o carinho e a devoção aumentando com o tempo. Nas bodas de pérola, pareciam dois adolescentes, implicando um com o outro sem parar e se beijando escondido, quando nenhum convidado estava olhando. “É preciso manter as aparências, meu filho, ninguém põe olho gordo em casamento desavençado”.
Foi mais ou menos quando Victor descobriu que estava doente. A essa altura, viviam praticamente em lua de mel e a notícia chegou surda. Era câncer de mediastino, nada a fazer e muito pouco tempo pra conformar.
No dia do velório, puseram um médico e duas enfermeiras de prontidão. Acharam que Helena ia junto, no mais tardar no dia seguinte. A mulher antes forte, decidida e teimosa feito uma porta era um projeto de pessoa muito mal acabado, nem de longe lembrava aquela que era o arrimo da família. Como um boneco de serragem furado, esvaía-se. Os filhos temiam que não durasse nem até o sepultamento. Na hora de sair da capela com o caixão, ouviram uma voz gritar:
— Victor, meu amor! Daqui ninguém leva meu Victor!
Helena viu a ruiva de quase um metro e oitenta com complexo de Rita Hayworth se debruçar no caixão aos prantos. A capela parecia imersa em nitrogênio, ninguém movia um músculo sequer.
— Victor meu amor... Como você foi me armar essa falseta? Como é que eu vou viver sem você depois de tantos anos? E os nossos filhos, Victor? O que é que eu vou dizer aos meninos? Meu amor... Me leva com você...
Ninguém sabia quem era. Helena estava em choque.
— Victor, fala comigo meu amor! Eu te amo tanto! Eu não vou suportar... Ah, meu mamãozinho...
Mamãozinho foi a gota. Helena, fria como se fosse o próprio defunto, juntou os filhos, os sobrinhos e os irmãos e mandou arrastarem a louca pra fora, que foi aos berros, debatendo-se, gritando coisas incompreensíveis. Uma cena grotesca. As mulheres não sabiam o que fazer nem o que dizer à viúva. Ainda podiam ouvir a ruiva em desespero sendo contida do lado de fora. Alguns queriam até chamar a polícia. O tumulto durou mais de meia-hora e Helena, impávida, mandou carregarem o caixão embora.
— Todo mundo tem mais o que fazer, não é mesmo? Vamos embora com isso. Espera! Abre a tampa de novo que eu quero dizer uma última palavra.
A platéia crispou. É agora que a coitada derruba o finado no chão, ou taca fogo nele.
Helena, impassível, foi até o primo Renan, tomou dele o cordão de ouro, e, fazendo um gesto de cala-a-boca com o dedo na frente dos lábios, caminhou até o caixão em silêncio. Abaixou pra sussurrar ao pé do ouvido do morto. Depositou o que tinha na mão fechada sobre o peito dele e desceu a tampa. Mandou o cortejo sair, mas não acompanhou. Virou as costas e foi embora.
No caminho de casa, a filha mais velha, já não se contendo mais, perguntou:
— Afinal o que foi que a senhora disse ao pai? Por favor, mãe... Me conta. Eu juro que o segredo morre comigo. O que foi que a senhora tirou do primo Renan?
— Você não sabe o que é que teu primo carrega no pescoço? Nunca reparou?
— Não.
— Teu primo carregava, por promessa feita pelo avô na Festa da Penha de 37, uma medalha de Nossa Senhora, uma figa de guiné e um escudo. Foi o escudo que tomei dele. Fiz ao Victor a maior e a única ofensa que era possível, toda a resposta que eu podia dar. Teu pai, minha filha, foi enterrado com o escudo do time do teu primo, o Vasco da Gama. Eu disse a ele que meu desgosto eu vou amargar em vida, mas a minha tá no fim mesmo. O dele que vá junto pela eternidade inteira.
— Mãe!
— E tem mais: a partir de hoje, todos os dias antes do jantar, vamos cantar o hino do Vasco. Vaaaaaaaaaaassscoooo!!
Os filhos nunca tiveram coragem de contrariar a mãe e enquanto ela viveu, todos os dias na Rua Pontes Correa os vizinhos ouviam o coro, pontualmente depois da ave-maria.

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