quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Utensílios de cozinha

A faca estava não estava afiada o bastante.
Procurou o amolador na gaveta e não encontrou. Deve estar na cozinha. Espere aí. Vou subir. Maldita escada, todo porão deve ser assim, desarrumado e sujo e escuro, detestava desordem, sempre tropeço nesses degraus mal iluminados. Na volta, traria uma lanterna.
Tem alguém na cozinha. Mas não era pra ter ninguém... Deve ir verificar, ou voltar correndo e se esconder. Meu joelho está tremendo, o coração disparado, o som vem de trás da bancada...saia já daqui, gato infeliz! Que susto.
O que foi que eu vim buscar mesmo? Ah, o amolador... Tem que estar no lugar. Eu odeio desordem. Abriu a terceira gaveta da esquerda, afastou o rolo de papel alumínio e... não achou. Não estava lá. O amolador também estava fora do lugar. Sentiu a raiva aumentar.
Continuou procurando e só desistiu depois de vinte minutos. Arrumar, arrumar tudinho nas férias. Férias servem pra isso, arrumar armários, trocar as carrapetas velhas, mudar os móveis de lugar, recortar as receitas que fazem a gente empilhar jornal (embora todo mundo sempre acabe perdendo recortes de jornal, eles parecem imprescindíveis).
O jeito seria trocar de faca. Que coisa! Como é que uma casa desse tamanho nunca tem uma faca que preste? Seu sonho era ter uma cozinha daquelas superequipadas, uma mistura de Frugal Gourmet com Ana Maria Braga. Faltava uma peneira de farinha, não acho outra faca, faltava também um batedor de ovos, vovó tinha um ótimo, essa deve servir, parece afiada, só o grill de fazer waffles já tinha sido comprado na semana anterior. As crianças adoraram.
Tão instintivo quanto imbecil, pra testar o fio do facão passou o polegar. Ui! Cortou. Tá ótimo, bastante afiada. Enfiou o dedo na boca. O gosto do sangue era doce. Lembrou da brincadeira de criança, com os primos, dar chupão no próprio braço e lamber os pontinhos de sangue. So sweet...
Ouviu um som estranho vindo lá de baixo. Apurou os ouvidos, sob tensão os sentidos ficam mais aguçados, maldita hora que fui me prometer tomar uma decisão dessas, eu desço lá e acabo com essa bagunça, dá um cansaço ter que estar sempre alerta, tomando conta de tudo, liderando, resolvendo, consertando... só queria alguém para dividir.
Mas a maioria das pessoas não sabe dividir. Odeio essa escada, amanhã mesmo chamo um marceneiro pra dar um jeito aqui, pôr um corrimão, sei lá. Não sabem repartir nem seu tempo, nem seu dinheiro, nem muito menos seu amor. Um pouquinho de amor pra cada lado teria resolvido tudo. Ah, não... você sempre tem que complicar tudo. Espera aí que eu vou acender outra luz que está escuro aqui embaixo. Como foi que você soltou os pés? Eu sabia que não podia confiar em você. Tá vendo? E você ainda queria me convencer de que ficaria tudo bem. Agora vamos resolver tudo. Essa faca está melhor do que a outra, posso terminar o que comecei. Não chora. Apesar de ser só ex, eu merecia um pouco mais de consideração. Cala a boca. Vai ficar tudo bem, você não queria que eu acreditasse? Eu acredito. Pode deixar. É melhor colocar a venda de volta. Depois que eu tirar a parte que me cabe, deixo o resto de você na porta do seu atual... marido, como preferir. Com laço vermelho e tudo. A justiça de Salomão é que vai nos salvar desse impasse. Agora fecha os olhos. Vou cantar pra você...
Um elefante se pendurou
numa teia de aranha.
Quando ele viu
que a teia resistiu
foi chamar outro elefante.
Dois elefantes se penduraram
numa teia de aranha...

Nenhum comentário:

Loading...