terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Struthio Camelus


Por isso, porque és só minha e eu sou só teu
É que eu não sou mais eu
Foi bem mais que um milagre, vida minha...
Foi como a própria vida:
ACONTECEU.
(Por que amo Paris – Vinícius de Moraes)


Hoje eu prometi falar de avestruzes.

Como um deles sentou-se em cima de mim, tá complicado de escrever. Tá difícil até pra enxergar o teclado com esse bicho enorme aboletado na minha pessoa.

Avestruz é um bicho interessante.

Consultemos a Enciclopédia de Banalidades Intermitentes: Struthio camelus, é a maior ave do mundo. Seu habitat principal é a África, mas alguns têm especial predileção pela Muda, esse bairro tão aprazível e atualmente concorrido do Rio (tão concorrido que esta madrugada tinha uns cinco caras tentando roubar o mesmo carro, mas entraram num acordo: cada um levou um pneu e pronto).

Avestruz não voa, só depois do terceiro ou quarto Redbull e gosta muitíssimo de sorvete de flocos, embora a gente saiba que são assim feito homem recém-divorciado: não são exatamente seletivos com relação ao que comem.

Pertence à família Struthionidae, ordem Struthioniformes. Um macho adulto — avestruzes fêmeas são difíceis de estudar porque além de avestruzes ainda são tímidas — pode medir 2,5m sendo que metade de sua altura é pescoço, um fiscalizador da vida alheia nato. Pesquisas apontam que tanta curiosidade serviria para compensar a falta de inteligência, já que, segundo a bíblia, Deus o teria privado de esperteza.

Pratica jogging, segue uma dieta especial rica em objetos brilhantes (o estômago do avestruz é dotado de poderoso suco gástrico que é capaz de dissolver metais, desaforos, intrigas e resiste até mesmo a alguns tipos de cantada) porém, mesmo com todos esses cuidados, chega a pesar 155 kg. Frustrações são, portanto, perfeitamente compreensíveis. Eu nem me esforço tanto, mas também peso muito menos.

Machos são pretos e brancos, fêmeas são marrons, e as emas gostam de uma purpurina que só vendo, mas não entraram na história ainda.

A cabeça e o pescoço têm apenas uma fina penugem. As pernas são nuas, depilação natural. A cabeça é pequena e completamente oca, o bico largo e os grandes olhos castanhos têm grossas pestanas pretas, rímel Lancôme com certeza, que é pra aumentar a veracidade das cenas dramáticas.

Vivem em grupos de até 50, junto com outros animais de pasto, assim feito a casa da mãe Joana mesmo. Sua defesa é a fuga. Um avestruz apavorado pode alcançar uma velocidade de 65km por hora e quando encurralado distribui perigosos chutes que nada têm a ver com habilidade de auto-preservação, não. É que eles ficam meio histéricos mesmo.

Seus ovos, medindo cerca de 15cm de comprimento por 12cm de diâmetro e pesando 1,35 kg, são os maiores do mundo. Haja saco. Vem daí a “paciência de concílio com abuso”, algo como a de Jó. São tão pacientes que podem esperar suas vítimas por várias horas na porta do bar e quando a vítima sai, distraída... blam!! Eles aboletam.

Aboletar é a atividade preferida de um avestruz. Um aboletamento pode durar alguns minutos, várias horas ou mesmo dias. Pode ser feito por uma ou mais aves. A vítima fica assim... ahn... assim meio... como quem tem um avestruz aboletado. Perde o apetite, não sai de casa, vê em preto e branco, ouve mal (só “Good Times 98 FM”), e costuma emitir sons estranhos, mais ou menos como uma lamúria incessante. Sente muita saudade de qualquer coisa, tem crise de inversão de importâncias, chora com propaganda de fundo de investimento, fica insone e quando dorme tem pesadelo. “Estar na tumba” é um expressão comum para designar aboletamentos.

Avestruzes ficam sem beber água por longos períodos, mas dispensar uma Bohemia gelada é difícil. Vinhos também agradam, e sua ressaca se traduz apenas num péssimo humor. Atenção: eu disse péssimo. Todos sofrem de TPM crônica, inclusive os machos, o que ajuda a explicar a natureza dos sintomas de vítimas de aboletamento.

A reprodução é complexa. Apesar de enlouquecedoramente críticos (óbvio que, pra eles, só serve a crítica depois que a merda já tá feita), estas aves não se contentam com pouco e reúnem haréns de 3 a 5 esposas. As fêmeas fazem o mesmo, mas não declaram, podem não ser espertas, mas também não são estúpidas. Os relacionamentos são conturbados e comumente terminam em bate-boca. Adoram discutir a relação, se retraem com facilidade e sua vida longa, de 50 a 70 anos, permite que criem inúmeros motivos pra se aborrecer, motivos estes cuidadosamente alimentados, nutridos e arquivados. Durante um ataque mais pesado, todo esse arsenal acumulado pode ser atirado na cara da vítima.

Machos chocam de dia, fêmeas à noite. Isto é importante porque machos e fêmeas devem ser espantados por meio de posições sexuais distintas. É o melhor antídoto conhecido, embora seja perigoso se mal administrado – neste caso tem o poder de atrair outros avestruzes em progressão geométrica.

[Na verdade, existem outros antídotos sim, mas pela raridade, têm divulgação restrita. Por exemplo: ovos nevados da Dodô, risoto do Eduardo, reunião de Marcelo Miranda com Alfredo Galhões no Bar da Maria, casquinha de siri da Adega Tudo do Mar e, completando a lista com os já extintos,  show do Aldir e Villa-Lobos em concerto particular]

Se você estiver sendo perseguido por uma fêmea, levante as mãos para o céu. Fêmeas podem ter o ânimo arrefecido com apenas uns beijinhos aqui ou ali, meia dúzia de rosas e um sushi básico. Nada muito grave e pode perfeitamente ser resolvido em público.

Agora: se o seu avestruz é macho... pode começar a apelar. Repita os procedimentos para espantar uma fêmea, acrescente uma banda de cover dos anos 80, umas velas, Drambuie aos galões, uma casa de praia e uns quinze vídeos pornô. Se nada disso der certo, tente Balla 12. Nadinha? Ah, desanima não... cada avestruz tem sua receita.

Com paciência você pode conhecer melhor seu avestruz como eu já conheço o Oscar (Hí!, eu nem apresentei o Oscar, né? Fala “oi!” pras pessoas, Oscar! E tira a cara da frente do monitor que eu já tou acabando!).



PS:Em inglês se chama “ostrich”, que parece mesmo com ostra, mas eu não entendi a graça da piada.
PPS: Se você conhece outra receita, mande pra nós. Afinal, nós, vítimas de aboletamento, temos que nos manter unidos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ah, então eu tenho um avestruz tb e não sabia...rs

B. disse...

Todo mundo tem, eu acho. =]
Mas eu sou suspeita.

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