sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Té logo, Roberto...

Eu não agüento mais. Esse ano precisa acabar. É o quarto amigo que se despede em menos de seis meses. Chega...


http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=1222


O adeus a Roberto Moura

José Reinaldo Marques
27/10/2005



A mensagem de Tereza Cristina comunicando — “com uma dor profunda no coração e na alma” — o falecimento do marido, Roberto M. Moura, e convidando para o velório no Memorial do Carmo pegou de surpresa os amigos do jornalista, que, aos 58 anos, morreu ontem no Rio, vítima de dengue hemorrágica.

Sócio número 1.672 da ABI, onde ingressou em 1977 e também era membro efetivo do Conselho Deliberativo, Roberto Moura faleceu às 20h no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde havia sido internado.

Além de sua mulher, do casal de filhos e outros parentes, compareceram ao funeral de Roberto, no Cemitério do Caju, dezenas de amigos, alunos e ex-alunos das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), jornalistas e representantes da ABI, como o Presidente da entidade, Maurício Azêdo; a Diretora de Jornalismo, Joseti Marques; e os Conselheiros Sérgio Cabral, Amicucci Gallo, Domingos Xisto e Chico Paula Freitas. Joseti Marques lamentou a perda do amigo e lembrou que o diagnóstico de dengue hemorrágica deve levar os jornalistas a se empenhar em uma pauta investigativa para saber como foram empregadas pelo Estado e o Município as verbas do SUS destinadas à prevenção de epidemias da doença, que geralmente ocorrem no verão:
— Perdemos o Roberto, que era nosso amigo querido, mas temos que continuar nos preocupando com aqueles que não conhecemos e dos quais o jornalismo se ocupa.

Também estiveram presentes músicos, produtores culturais, pesquisadores e professores — entre eles a museóloga Lygia Santos, filha de Donga, e o jornalista José Carlos Rego, ambos membros do júri do Estandarte de Ouro do Globo, que Roberto integrou por 28 anos; o compositor Sílvio da Silva Júnior; o violonista Cláudio Jorge; e Moacyr Luz, que comentou:
— Eu teria muitas coisas para falar do Roberto, inclusive menciono no meu livro (“Nos butiquins mais vagabundos”) que ele foi o primeiro jornalista a citar meu trabalho como compositor. Era um grande amigo de bar, de samba e de projetos. Fizemos vários trabalhos juntos, como “O samba falado”, e atualmente ele estava cuidando do roteiro do show de lançamento do meu CD “Voz e violão” e do projeto “Sedução e voz”. Acima de tudo, Roberto era meu companheiro de toda hora, vou sentir muita falta desse parceiro que era a cara da cultura do Rio.



Muito emocionado, Sérgio Cabral exaltou o trabalho de Roberto Moura como pesquisador da MPB:
— Era um brilhante analista da nossa música e da cultura popular de maneira geral. Roberto conhecia o tema e escrevia sobre ele com absoluta profundidade.

Roberto M. Moura foi diretor de espetáculos, produtor e crítico musical. Atualmente, além de dar aulas nas Facha, era comentarista de programas da TV Educativa e colunista do ABI Online e da Tribuna da Imprensa. Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Doutor em Música pela UniRio, escreveu os livros “Carnaval — da Redentora à Praça do Apocalipse” (Jorge Zahar, 1986); “MPB — Caminhos da arte brasileira mais reconhecida no mundo” (Vitale, 1998); “Praça Onze — no meio do caminho tinha as meninas do Mangue” (Prefeitura do Rio/Relume Dumará, 1999); “Sobre cultura e mídia” (Vitale, 2003); e “No princípio, era a roda” (Rocco, 2004).

Para Iris Agatha, que foi sua “foca” no Diário de Notícias e colega no jornal Última Hora e na Rádio MEC, Roberto Moura foi “um grande mestre de brasilidade”. Para a também jornalista Zilmar Basílio, que foi aluna de Roberto na Facha, “esse carioca da Praça Onze fez da sua vida uma grande contribuição para a cultura da cidade do Rio de Janeiro e deixou marcas importantes dessa mesma cultura para o nosso País”.

domingo, 23 de outubro de 2005

SIM OU NÃO SEM TALVEZ

E que ninguém se engane: quem venceu não foi uma frente parlamentar, um publicitário competente, uma campanha agressiva, o conservadorismo, a direita, nem foi a esquerda que perdeu, nem uma campanha arrogante que jogou tudo por água abaixo, não foi a derrota da paz.
Esse referendo marcou a vitória do ruído.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

**suspiro**

Luís, o Filipe, mandou do Luís, de Camões e, pra variar, mesmo no escuro acertou em cheio.

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

sábado, 8 de outubro de 2005

Puxadinho

O Cartas ganhou um puxadinho em http://branca.multiply.com
Lá tem álbum de fotografias, faixas dos textos com trilha sonora e outras coisitas más.
Divirtam-se.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

What kind of kiss are you?

entrancing
You have an entrancing kiss~ the kind that leaves
your partner bedazzled and maybe even feeling
he/she is dreaming. Quite effective; the kiss
that never lessens and always blows your
partner away like the first time.

What kind of kiss are you?

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

À VIDA NOTURNA

Hugo Sukman
02/10/2005


Aldir Blanc grava disco e retoma histórica parceria com João Bosco

Quando João Bosco chegou ao estúdio o Aldir já estava lá. E também o Helinho com seu violão, o Cristóvão ao piano e o Mello, lápis, papel e prancheta em punho, desenhando tudo para uma futura capa.

Lá pelas tantas, depois de uns uísques já tinha até nego vendo a Elis lá, ouvindo tudo num canto, ou o falecido poeta Paulo Emílio chorando em outro, enquanto João e Aldir mandavam o samba em sua homenagem: “Eu gosto quando alvorece/Porque parece que está anoitecendo/E gosto quando anoitece que só vendo/Porque penso que alvorece/E então parece que eu pude/Mais uma vez outra noite, reviver a juventude/Todo boêmio é feliz/Porque quanto mais triste/Mais se ilude...”.

Não, isso não aconteceu em 1977 quando, no auge de sua parceria com Aldir Blanc, João Bosco gravou esse samba, “Me dá a penúltima”, no disco “Tiro de misericórdia”, com Hélio Delmiro na guitarra, Cristóvão Bastos ao piano e capa do artista plástico Mello Meneses (Elis Regina, principal intérprete da dupla, provavelmente passou no estúdio para visitar; Paulo Emílio, parceiro de João e Aldir, estava sempre por lá...).

Aconteceu, tudo inacreditavelmente como antes, ao anoitecer da última quinta-feira, num estúdio em Copacabana. Aldir Blanc gravava seu primeiro disco solo como cantor e seu parceiro João Bosco chegou para fazer uma participação. Ia cantar com Aldir e tocar, como fez, o samba- canção que dá título e conceitua o disco, “Vida noturna” (do LP “Galos de briga”, 1976). Mas veio de casa com essa surpresa, um arranjo novo de “Me dá a penúltima”, que acabou entrando no disco e fazendo todo mundo chorar ao fim da gravação rápida, impecável, de primeira.

— Depois dessa estou no limite emocional — confessou Aldir, do cubículo oculto no estúdio onde ficava seu microfone, ecoando o sentimento geral.

CD privilegia o cantor Aldir

Limite emocional viu-se a partir dali. Finda a gravação, João informalmente pegou o violão e surpreendeu a todos cantando a primeira música que ele e Aldir fizeram juntos após 20 anos da interrupção de parceria e amizade mais lamentada da história da MPB e que agora reencontrou de vez o prumo.

Trata-se do magnífico samba-canção “Mentiras de verdade” (letra ao lado), sobre a parceria dos dois, a briga e finalmente o reencontro. É primeira música que os dois fazem juntos desde a épica “As minas do mar”, de 1983 e lançada só em 87. “Quero esquecer de mim, ser mais você, menos do que eu...”, confessa Aldir, numa homenagem a essa forma de amor fraternal chamada parceria.

— As nossas parcerias transcendem o negócio da música — dizia Aldir, na conversa solta entre ele, João e seu mais constante parceiro atual, Moacyr Luz, aliás produtor e idealizador do seu disco solo. — Eu sou profundamente ligado aos meus parceiros. Se eu pudesse resolver a dor nas costas do João ou a dor na barriga do Moacyr, renunciando para isso a tudo que nós fizemos em música, eu não vacilaria um minuto.

“Mentiras de verdade”, que tem direito até a elegante citação a Tito Madi (“Mentira, foi tudo mentira...” ) não está no disco que Aldir acabou de gravar ontem. Estará junto com outras parcerias novíssimas da dupla, no CD de inéditas que João grava em fevereiro para o selo independente MP,B.

“Vida noturna”, o disco de Aldir, sairá ainda este ano pela Lua Discos, gravadora paulista que lança os discos de seu parceiro Moacyr Luz. A idéia de Moacyr, como o samba-canção-título indica, nasceu do convívio boêmio com Aldir.

— A gente tem a idéia desse disco há muito tempo — explica Moacyr ainda com a voz embargada pela experiência da gravação. — Quando todo mundo vai embora no fim da noite, vem o Aldir e pega o violão. E caramba, meu Deus, que histórias que ele canta. Histórias de noite, de chão. Aquele troço inusitado e espontâneo que há aí tinha que ser registrado.Além de “Vida noturna”, “Me dá a penúltima”, “Cordas” (com Guinga, já gravada por Leila Pinheiro), o bolero “Causa perdida” (com Rosa Passos, regravada por Alcione) e o clássico “Resposta ao tempo” (com Cristóvão Bastos, sucesso de Nana Caymmi), todas as outras músicas são inéditas. E inéditas de Aldir e parceiros muito em forma, o que fez João Bosco, depois de ouvir as novas músicas de Aldir, arriscar uma análise da obra do parceiro.

— O Aldir canta as histórias que ele inventa como ninguém — dizia João. — Ele observa o mundo que está em volta dele, a vida que está acontecendo e nada escapa ao Aldir. Ele faz isso com um brilhantismo de quem não teme a morte. Ele canta a vida o tempo todo e só utiliza a morte quando precisa dela para fazer um verso. A morte para ele é o trecho de uma calçada onde ele cai. A morte coincide com o paralelepípedo e é apenas um detalhe do cenário. Ninguém mais consegue escrever com essa total liberdade de alguém que não teme nada.

João se refere a coisas como o desmedido amor contido em “Dois bombons e uma rosa”, letra e rara música de Aldir, que diz: “Não há xampu, não há creme/Que apague ou que desmarque/Da tua pelo o meu beijo/Fedendo a conhaque”. Ou do soco-no-estômago “Lupicínica” (parceria com Jayme Vignolli) e seu cheiro de morte ao relembrar um amor por uma enfermeira do Salgado Filho “com a chama vital de Ana Karenina”: “Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes/Não teve sequer um calmante pra dor sem remédio/Que aflige os amantes”.

— Essas coisas acontecem num mundo blanquiano, único — diz João. — Essa poesia, essa generosidade, essa visão de mundo, essa loucura que mistura Tolstoi com esparadrapo, tudo isso é ele. E quando ele canta, canta assim.

Os parceiros, mesmo desfrutando da intimidade de ouvir Aldir cantar nas rodas boêmias, surpreendem-se de como ele está cantando bem.

— O Aldir nem precisava cantar como um cantor, ele é um criador e tudo se resolve a partir daí. Mas ele cantou como nunca vi em todos esses anos de convívio — testemunha Moacyr, emocionado com o fato de estar dando esse presente ao parceiro.

Mocyr concebeu um disco só de piano (sempre Cristóvão Bastos) e violão (normalmente João Lyra, mas com participações de Hélio Delmiro, Guinga e João Bosco nas suas composições), valorizando as músicas e o universo blanquiano. Como a primeira e histórica parceria de Aldir e Hélio Delmiro, “Constelação maior” (letra ao lado), uma lírica ode amorosa ao seu cachorro.

Aldir só gravara outros dois discos na vida, o histórico álbum duplo em parceria com Maurício Tapajós em 1985 e o CD comemorativo aos seus 50 anos em 1996. Emocionado depois de quase enfartar ouvindo o solo de Hélio Delmiro, Aldir tenta explicar por que resolveu sair da toca.

— Eu fiz 59 anos e tenho alguns problemas de saúde. Ao mesmo tempo minha vida nunca teve tanta beleza. Eu nunca gostei tanto de uma mulher como eu gosto da Mary (Sá-Freire, sua mulher há 20 anos, que chorava ao lado enquanto Aldir dizia isso). Eu gosto muito mais das minhas filhas, eu vejo também as duas que morreram em volta de mim. Eu tenho quatro netos que me suavizaram em relação a coisas que principalmente o João conhece bem, que é uma agressividade terrível. Eu fiz questão de vir aqui gravar o disco para que tudo isso não se perca.

Aos 59 anos, Aldir começa uma nova vida no auge da sua poesia e de sua voz, cercado pelos parceiros, até mesmo o que era impensável há tempos atrás, João Bosco. Os dois são prova de que sempre se pode começar vida nova.

Jornal: O GLOBO
Editoria: Segundo Caderno
Página: 1
© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

Do disco novo do Aldir

Amei
uma enfermeira do Salgado Filho,
paixão passageira, sem charme nem brilho,
roteiro batido, romance na tarde.

E aí, numa seresta na Dois de Dezembro,
me perguntaram por ela: “- Nem lembro...”,
eu respondi com um sorriso covarde.

Ouvi - que bofetada! - “Morreu duas vezes.
Uma aqui e agora, a outra há seis meses”.
Balbuciei: “- Morrida ou matada?”

“- Depende do seu conceito de assassinato.
Um pobre amor não é amor barato.
Quem fala de tudo não sabe de nada.”

II
Na rua do Tijolo, bloco 5, aquele de esquina,
morou uma enfermeira com a chama vital de Ana Karenina.

Dirá um dodói que Tosltói era chuva demais pra tão pouca planta.
Ô trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rússia ou lá em Água Santa...

Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes
não teve sequer um calmante pra dor sem remédio que aflige os amantes.

Por mais que a literatura celebre figuras em vã fantasia
ninguém foi mais nobre que a Pobre da Enfermaria.

LUPISCÍNICA (Dedicada a Valmir Gato Manso) Jayme Vignoli / Aldir Blanc




Tenho um fiel companheiro
que vigia meu lar.
Tantos me dirão: quem é?
Mas não vou nomear.
Ele é bonito
e a minha garota
o recebe em seu leito
Eu mesmo às vezes
abro mão do orgulho
e com ele me deito.
Assim é o amor que ignora
simplórias fronteiras.
O bom-bocado conhece a medida do fel.
Ciúmes tenho mas eu renuncio.
Coisas maiores existem entre os três:
sabor antigo pela primeira vez...

CONSTELAÇÃO MAIOR, de Hélio Delmiro e Aldir Blanc



Assoviei, fingi à beça,
fiz promessa e o amor não some
Criei um muro e a mesma fome
morde os braços do adeus.
Com a boca eu me despedi,
minhas mãos desdisseram: não, não...
“Mentira, foi tudo mentira,"
você me enganou
Verdade, foi tudo verdade,
eu hoje admito:
somos um mito, sim,
maldade e carinho
ternura sem fim,
num laço,
coleira de cetim...
Quero esquecer de mim,
ser mais você, menos do que eu.
Verdade e mentira que o amor entre nós reviveu
— E um breque é coisa nossa num samba-canção porque...


MENTIRAS DE VERDADE, João Bosco e Aldir Blanc

sábado, 17 de setembro de 2005

Sagração à inteligência

(para Fernando Toledo)
Áurea Alves

Poderiam meus braços ser mais longos a ponto de se estender por 420 km e alcançá-lo. Poderia o livro do lado tê-lo prendido por mais alguns minutos. Poderia um amigo tê-lo chamado para discutir literatura russa ou a dicotomia existente no ambíguo mundo das HQs. Talvez um novo invento, a reinvenção do País, talvez algo pudesse mudar. Talvez a força de um super-homem virando o mundo e o tempo, no supra-sumo da imaginação, movido pelo amor piegas e pela ignorância completa da Física. Talvez apenas eu pudesse gritar-lhe o nome avisando que chegara para encontrá-lo.

Poderia apenas contê-lo eufórico diante do microcomputador para escrever um artigo sobre Mahler ou James Joyce. Talvez um chamado, o gritar de alguém, pudesse acordá-lo, ineditamente, como nunca precisara acontecer antes. Talvez o menino que aprendera a ler Edgar Alan Poe aos oito anos não pudesse mais retornar. Talvez.

Era certo que andava feliz e trabalhava como louco. Era certo que tinha ao lado a companheira que o respeitava e o enxergava como o homem de sua vida, o grande homem que era. Era certo que sabia ser da mulher o que ela esperava dele - tudo, nem mais um pouco. Sabia beijá-la na hora certa e tomá-la livre, sabendo-se dela.

Era certo que tinha uma inteligência anormal e que - mais que tudo - amava o bom uso desta qualquer que fosse o ambiente em que se encontrasse. Era certo que domesticava a alma lendo desesperadamente. Não temia demonstrar seu conhecimento, compartilhando-o com o mundo: tinha orgulho de saber-se.

Era certo que pensava em fazer um chek-up e deixar o cigarro.

Era certo que por sua cabeça passavam as grandes piadas, próprias das pessoas que não são amargas. Era certo que seus livros, grandes amigos, eram especiais cúmplices e professores em sua pós-graduação e doutorado fora das amarras, dos calendários e dos programas da Academia.

Era certo que seu ouvido aguçado, a ponto de não incomodar-se com a rotação fora de ordem de um toca-discos, sabia filtrar as diferenças e identificar a voz cristalina de Ella Fitzgerald e os legatos de Louis Armstrong. Era certo que me amava e chorava por mim ouvindo George Gershwin e Pixinguinha.

Fernando Toledo morreu aos 37 anos, atropelado por um ônibus, quando chegava em nossa casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. O acidente provocou a fratura de seu crânio e, ironicamente, seu cérebro nunca mais funcionou. O hemorragia, que os médicos não conseguiram conter, poderia traduzir-se como o implorar de seu sangue para recuperar a antiga função dos neurônios, pois Fernando tinha nas veias o desespero de conhecer e amar.

Foi meu grande companheiro de longas conversas, de textos e trabalhos e de uma jornada amorosa de 1127 dias inesquecíveis. Perdi sua voz, perdi seus gestos e sua emoção incessante, mas não perdi sua memória e é a ela que dedicarei minha vida. Isso é certo que eu poderei.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Palavra de Mulher



De: Chico Buarque
Canta: Selma Reis
(não, não adianta procurar... quem não ouviu ao vivo, só pode torcer pra que ela grave. )

Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar

Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar

Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar

Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar

Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar

Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar

Réquiem para um girassol

Fausto Wolf

(como prometido, o lindo texto escrito pro Fernando e publicado no JB.)

Quando um homem mete na cabeça que quer fazer papel de idiota, dificilmente alguém pode obrigá-lo a mudar de idéia. Isso aconteceu comigo, quando fui convidado pelo PDT para disputar uma cadeira de deputado federal em 1990. Pedi dinheiro ao partido e disseram-me que eu tinha de dar-lhes certa quantia em dinheiro - mil dólares se não me engano - em troca de alguns bônus que eu me encarregaria de vender. Desisti na hora e, diante disso, eles desistiram de me cobrar a grana.
Só estou falando nisso porque no meu único (sei do cacófato) comitê na Rua da Lapa, 24, o Madame Satã, vinha muita gente trabalhar de graça. Um deles era um rapaz magro, desengonçado, voz característica, pois engrolava os érres, cabelo encaracolado, que parecia estar sempre de bom humor. Não devia ter mais de 20 anos. Ele ficava no comitê e distribuía material, instruía eleitores que quisessem me ajudar. Entre um comício e outro - sem que ele visse - ouvi-o explicar claramente a mais-valia e seus efeitos a um grupo de operários. Ficamos amigos e ele - como mais uma meia dúzia de moças e rapazes - tornou-se uma espécie de filho emprestado.

Eu e Fernando, este seu nome, jamais deixamos de manter contato. Nesse meio tempo, ele se casou com Áurea Alves, como ele, uma das maiores estudiosas de música do Brasil.
Autodidata, falava várias línguas e escrevia muito bem. Para dizer a verdade, ele estava entre os dez jornalistas que melhor escrevem neste país. Quando leu Joyce, foi paixão à primeira vista e não conheço ninguém que conhecesse melhor os truques literários do grande escritor irlandês. Porrista como o autor de Ulysses era coisa que Fernando também era, mas seu porre tinha uma alegria calma. Continuava inteligente. Gostava mais de escutar, sempre olhos fixos nos teus e um sorriso que demonstrava o incrível prazer que tinha em aprender algo novo. Era um prazer dar qualquer coisa a ele - de um chope a um livro - pois parecia que você estava sempre lhe dando o mundo. Morava na Lapa e o dinheiro lhe era de pouca serventia, pois o usava apenas para pagar suas contas, comprar suas canas e seus livros.
Atrás daquele garoto com cara de nerd gozador havia um grande filósofo encontrável, aliás, na resenha que publicou neste Caderno B, no dia 27 de julho último, sobre um livro menor de Herman Melville, Bartleby. Trata-se de um escrivão de Wall Street que descobre a mediocridade da vida que leva e começa a se recusar a fazer tarefas sem dar justificativa a não ser que a tarefa não lhe agrada. O homem negando-se a permitir que o transformem num objeto. Este era o Fernando. O que aos outros preocupava - sucesso, dinheiro, boa vida - estava em terceiro plano para ele. Um dia telefonou-me da Finlândia. Fora fazer um curso de projetista de instrumentação meteorológica para aeroportos. Explicou-me que era um trabalho que não o obrigava a pensar fora das horas de trabalho. ''O resto do tempo é para ler, escrever e ouvir música e beber.'' Não tinha um inimigo porque não discutia bobagens. Uma vez por mês bebíamos e eu tomava conhecimento dos seus progressos literários. Um gênio, tinha um cérebro privilegiado, um bom coração e não mentia nunca. Confirmação viva da minha teoria de que, se lhe derem o básico, o homem será feliz, pois nasceu para isso. Pretendo encontrar um editor para sua obra. Será o nosso grande póstumo.
Nos últimos anos perdi alguns dos meus melhores amigos - Albino Pinheiro, Elmar Machado, Ferdy Carneiro, Silvio Redinger, Jurij Moskvitin. Estes, porém, já haviam se preparado para a visita da sinistra senhora. Fernando Toledo morreu aos 37 anos, uma semana atrás. Às nove horas da noite. Três dias antes, fora atropelado na Muda por um irresponsável em alta velocidade. Conversei com ele em seu coma. Não respondeu. A morte levou um homem que tornaria qualquer rua, qualquer cidade do mundo um lugar melhor para se morar, um criador. Talvez houvesse descoberto coisas que não interessava ao Infinito revelar. Por isso o levaram. Como quem corta um talo de girassol com uma espada.

sábado, 10 de setembro de 2005

CORRICANDO NO RECANTO

ILHA GRANDE – PARTE 1

Então.
Aí meu pai fez aniversário na semana passada. E a Dodô, uma pessoa que eu costumava considerar pelo menos razoável, inventou uma viagem pra juntar o Hospício Blanc com a Turma da M.A.R.I.A. (Magnificante Agremiação Realizadora de Içamentos Alcoólicos).

Sempre pensei que a maior reunião de malucos do universo estava ou no Estephanio’s ou na minha casa. Enganei-me nas duas. Nunca tinha visto nada parecido e olha que eu já fui pra tudo quanto é canto nas piores companhias – espécie de péssimo hábito disfarçado em causa humanitária – mas desse jeito... impossível. Na escala de insanidade:

(na foto: Roberto, Basile, Aldir e Ivan)

Roberto, o anfitrião: o dono da Pousada Recanto das Estrelas é o louco-mor, por ter aceito receber essa turma. Construiu uma linha de defesa formada por Bárbara, doce Bárbara, e os funcionários Rose, Franklin e Luciana, zagueirões à antiga pra fazer frente ao ataque dos hunos. Professor emérito da nossa oficina de Gargalhada para Agradar o Sogro.

Aldir, o desversariante: a-do-ra essas datas... Mesmo assim, pintou e bordou. Fez serenata de madrugada, dançou fados, polcas e outras menos conhecidas. Ficou emocionado quando descobriu que a travessia Mangaratiba-Abrahão seria feita na barca Lagoa, a mesma que tantas vezes o levou na adolescência para Paquetá, e por pouco não acabou com o Jack Daniels que abasteceria três dias de viagem. Na viagem de volta, tentou seqüestrar o filho de uma desavisada e perplexa criatura.

Dodô: imbuída do espírito coordenador 24 horas por dia, organizou todo o passeio, os horários, a van, o pagamento, a divisão dos quartos, a cota de vodka e de porções do churrasco pra cada um, a cor das camisas do Franklin pra melhor combinar com a decoração dos quartos, a distribuição das bolas de soprar pelas crianças por cor, o método de feitura do arroz, os horários de dormir do Basile e, num momento de maior tumulto, por pouco não convenceu o Sérgio Touro a trocar a Gilda pelo Eduardo Gordo.

Ivan, o terrível: pescador incansável, foi de corrico do continente até a pousada, passando inclusive pelos paralelepípedos da vila. Dizem que só conseguiu mesmo pescar o Basile, seu companheiro de quarto. Teve um ataque de espirros que nos fez rir durante hora e meia. Imagina um sujeito desse tamanho que espirra assim: Aaaa...fiiissssss... Céus. Olha ele aí na foto ao lado, corricando tranqüilamente sob o céu de deputado!!

Mello Menezes: autor de diversas façanhas famosas, conseguiu acrescentar outras tantas ao seu invejável currículo. Pouco depois de ingressarmos na Lagoa, com uma inacreditável imitação de apito, Tio Mello fez tripulação e comandante baterem cabeças (início de tumulto, passageiros correram, duas caixas de tangerina caíram no mar, houve disputa de salva-vidas, tendo o Ivan conseguido apenas, e com algum custo, pôr um em cada pulso). Acabou provocando prematura partida da barca. A Capitania dos Portos instaurou inquérito investigativo tentando esclarecer o mistério. E eu não tenho isso filmado porque sou uma azêmola...

Basile: recebeu do Mello o carinhoso apelido de “Tia Ciata”, tanto por seu vastíssimo repertório quanto pelo... ahn... conjunto da obra, eu acho. Sempre um dos primeiros a acordar e um dos últimos a dormir, na maior disposição. Campeão do TIPS, Torneio Intermunicipal de Puxa-Saquismo. Segundo Isabel, presidente do comitê de organização do torneio, a vitória deu-se pelo singelo placar de 1.437 X 15 do segundo colocado.

No quesito façanhas coletivas, a melhor aconteceu na noite de sábado, quando nosso heróico anfitrião foi surpreendido pelo contingente de segurança pública da Vila do Abrahão, formado, na verdade, por um único guarda. Perturbação da ordem, muita reclamação dos vizinhos... enfim. Até num lugar desse, a Turma é caso de polícia!

[Aguardem os próximos capítulos. ]

terça-feira, 6 de setembro de 2005

DAS PARTES E DO TODO

Quem sabe se, pagos alguns de meus silêncios, eu pare de ouvir a voz que me cobra incessantemente ter saído do único lugar onde não me faltam tantos pedaços...

PS: a revisão tornou-se uma impossibilidade etílica. Queixumes para a redação.

SINFONIA DE BEM-TE-VI

O pai da moça sempre foi assim: arredio, estranho, malcriado, genial, chorão, egoísta, ensandecido, amantíssimo, devotado, fiel, imprevisível, brilhante, teimoso feito uma porta. O pai da moça imita bem-te-vi, bem que mal, mas tão bem que ela nunca viu igual. O pai da moça faz uma falta absurda... sumido no meio dum sertão árido de incongruências, deixou de dar conta de tanto amor. Culpa nenhuma. Culpa dela, que sempre foi maluca. Por ele, verdade, mas maluca. Todo dia faz falta o peito do tamanho dum continente, pêlo de barba com sorvete de flocos e restos desindentificáveis, um cheiro meio doce e azedo, sola de pé que nunca fica limpa, taça de cristal da bisa, Monteiro Lobato pintado de lápis-de-cor, mofo com cerveja, saudade do bisavô-vô-pai gigante, turno na janela de madrugada, abrir a porta pra ver se tá bem fechada, Condessa de Smirnoff, bisavó já morta dentro do armário, porta de ferro com janela de treliça... “O sabiá sabia já”: Bem-te-vi, tanto bem, bem de longe, bem de perto, bem toda hora-toda, bem pra mim, bem-te-vi pra sempre...

TOLEDIANDO (às vésperas de um mês)



Eu toledeio todo dia.

Não, eu não me lembro do dia em que nos conhecemos. Não me lembro da primeira vez que ele me chamou de irmãzinha, sempre com a asa protetora sobre a minha cabeça. Não sei contar quantas brigas foram compradas um pelo outro. Ele chegou, sorriu, venceu meu coração e depois eu chorei. E o nosso amor de irmão mostrou que veio pra ficar por toda a vida, mesmo quando minha loucura insista em discutir por discutir, só pra sustentar opinião. Hoje é mesmo a saudade que diz quem tinha razão. Sempre achei que ser irmão era isso mesmo, essa admiração, esse olhar orgulhoso quando ouvia frase inteligente – e olha que eu ficava orgulhosa o tempo todo - , um sem-fim de coisas pra dividir e aprender. A gente enxerga mal. Tem língua presa. Perdoa e tem acesso de fúria. A gente gosta de madrugada e se pela de medo do tamanho que ela tem. A gente sofre pela Síndrome de Veríssimo, não vai dar tempo de ler tudo que a gente gostaria de ler... A gente confia demais. Sofre demais. Irmão briga também. Eu varri mágoa debaixo do tapete. Joguei muito Steinhaeger no meio da rua. Fui arrastada pra casa, “pra pensar melhor”. Pedia socorro e ele vinha sempre imediatamente. Às vezes ele chegava antes mesmo do pedido. Dizia que precisava cuidar da minha instrução, que eu era um pouco burra às vezes, olha como era bonzinho comigo, eu um poço de ignorânça... meu irmão amado, o Girassol. Eu nem sei como foi essa escolha do Fausto pelo Girassol (vou postar esse texto-homenagem, publicado no JB, aqui depois), mas pra mim foi uma coisa muito louca. Girassol é uma das minhas prediletas. Não dá pra dizer que ele fosse diurno, matinal, refrescante como Soda Limonada, mas sempre procurou a luz. Sozinho. Aos trancos e barrancos, Fernando Toledo procurava a luz e achava. Por dentro das próprias veias, no meio do nada, atolado até os senões de vazios. Sozinho. Eu tentei ajudar um pouco, infantilmente diante de tanta lua. Briguei muito. Eu sustentei conversa absurda de madrugada pra fazer meu irmão dormir. Consertava camisa pra fora da calça e mandava engraxar os sapatos. Perdi cabelos pensando “onde esse puto se enfiou” quando sumia, na maioria das vezes ele sumia pra dentro de um livro, e a minha cabeça rodrigueana pensando sempre as maiores tragédias e ele aparecia no dia seguinte no telefone dizendo sempre: “-Senhorita Mariana Blanc? Teu irmão!” e eu ia dar uma choradinha num canto depois, desbordando o excesso de afeto. Faltei - piadinha familiar - 97 dos 16 almoços marcados na casa dele pra não ver a solidão, pra não enfrentar minha pequenez diante dum sujeito que viu todos os demônios dos infernos e fez questão de rir de cada um. Quando a Áurea, a mulher da vida dele, o grande amor, chegou, eu nem acreditei. Tinha uma flor no caminho, do tamanho do meu Girassol, que ia cuidar, que ia proteger, e ela fez tanto, se eu hoje tenho consolo na paz de espírito da partida, ela é a única responsável... eu guardo o primeiro sorriso dela no Estephanio’s até hoje, “vem, Mari, eu quero que você conheça... e me diga o que você acha”... eu acho que não podia ter acontecido nada, NADA melhor. Virou minha amada também. Silencio o resto dela, e a Dona Sõnia e o Seu Levi, Paulo e Carla, por absoluta impossibilidade nessa hora.
Irmãozinho, eu queria fazer soneto, serenata, eu queria escrever um Ulisses de Fernando. Eu queria achar sentido pra tua passagem, pra esse atalho na Terra. Mas eu, por hora, só encontro as poucas páginas dos livros que vc me deu, um disparate de ausência e a surdez da saudade abissal que eu sinto. Encontro um profundo arrependimento das conversas que a gente não teve, das viagens que não fez, do amigo mais justo e desprendido que tive na vida. Pela terceira vez a Conspiração me mostra Perda maiúscula. E eu ainda não aprendi o que fazer com essa merda. Deve ter arco-íris em algum lugar e eu espero vê-lo-ver-te em breve.



Se é tarde, irmão, me perdoa... eu vinha só cansada...

DOS MEUS SILÊNCIOS

Dulce Pontes - Canção Do Mar
Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo
Vem saber se o mar terá razão
Vem cá ver bailar meu coração
Se eu bailar no meu batel
Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

Já são semanas, meses de mutismo absoluto, de imobilidade construída, de imperturbável abstenção. Meses de estranhamento. A verdade é que ando me privando de meus próprios pensamentos. Tenho deixado a mente como uma jangada perdida no meio do oceano em plena tempestade, torcendo apenas pra que o dia acabe, pra dar conta das coisas básicas, de comer, de dormir ou não, limitando a existência a tal simpleza que mesmo banais decisões de termos e construções, inerentes à escrita, me são custosas.
Silêncio pra não falar de coisas várias. Silêncio pra distância dos amigos; pra morte aburda, violenta, irreparável e inestancável do meu irmão; pra incompetência; pra saudade do Edu e da Dani – ah, meus parâmetros... - do Estephanio’s e da Marcela, da Lu, da Beth, do Fé e da Brinco, do Cachorro (achei um livro dele até) e da Cris, do Dedeco, Branco, Zé, da turma toda, todo mundo, do Erasmo e do Léo; silêncio pra decepção com o PT, meu primeiro delírio de ser sujeito histórico; pra falta absurda que meu pai me faz há dez anos, todo dia; pra falta até hoje imperdoável na formatura da vó Emília; pra incompetência...
Mas a Conspiração Universal não me deixa em paz. Sei lá se é benção ou praga. É fato. E esse final de semana, uma inacreditável excursão a um paraíso perdido, me deu o que pensar, logo eu que não queria pensar nada, logo eu que achei que podia ficar disfarçada da vida num canto, fui obrigada a tirar a máquina de delírios da inércia. Vou contar direitinho depois a parte factual dessa viagem pra Ilha Grande com meu pai, Dodô, Bel, Milena, Tati, sobrinhos, tios e a impagável turma do Bar da Maria. Prometo que conto. Depois. Primeiro eu queria pagar meus silêncios. Licencinha...

terça-feira, 19 de julho de 2005

Se acontecer



(Djavan)

As estrelas brilham sem saber
Mas cada vez melhor
Pois foi só você aparecer
Todas desceram pra ver você brilhar de cor

O que mais chamou minha atenção
Sua expressão sutil
Isso eu já não posso esquecer
Porque não foi só visão, o coração sentiu

A tenda da noite
Enche de sombra um sonhar vazio
Percorri tantas fontes
Até ver você
Sair do nada pros meus horizontes
Que a manhã, pura e sã, com as mãos de jasmim
Vá roçar seu rosto
Pro amor ardente despertar por mim
Deus é pai, vai saber
Se acontecer
Serei seu até o fim

Em tempo de chuva
Que chova
Eu não largo da sua mão
Nem que caia um raio
Eu saio
Sem você da imaginação

Memórias, gatilhos e pistolas

Trecho da coluna de Aldir no JB de hoje:
"(...)
Uma olhadinha no passado recente faz bem em hora de crise. É no mínimo curioso nosso complexo de hienas nômades. Ao contrário das co-irmãs africanas, gostamos de carcaças frescas. Depois, enfastiados, nos desinteressamos e vamos procurar fedentina em outro pedaço. Vejam só: Mamaluf meteu a mão grande em grana do povo, cobrindo o amplo espectro que vai de galinhas da merenda escolar ao superfaturamento de obras faraônicas, butim comprovadamente percorrendo uma trilha imunda que vai da Suíça, Luxemburgo, Vanderlei e outros paraísos fiscais, até a adega e a pinacoteca desse inimigo de Ali-Babá. Em que cadeia está, cercado de pedras preciosas, Ibrahim Abin, o Ácaro Ackel? Cadê o xilindró de Ângelo Cayman de Sá? O banqueiro Sacacciola continua de férias no exterior? E os 12 mil corruptores de PC Farias? Pinicolalau, amigo de torturadores, permanece de licença-prêmio no reduto do lar? E os 20 mil envolvidos no escândalo do Banestado? Os operadores - sim, operadores - que sucatearam e venderam nosso patrimônio em processos de privatização cheios de mutretas e irregularidades durante o império de FHC I e II? Tem alguém preso? Quais são os detentos saídos da quadrilha apelidada de Propinoduto, amigos do Garotinho? Coroa-Brastel? Capemi? Maisonave (é isso?)?
Minha memória não güenta.
"

leia o texto completo no JB Online

segunda-feira, 11 de julho de 2005

What Movie Is Your Love Life Like?

Your Love Life Is Most Like When Harry Met Sally

Your newest love is someone you least expectOpen your eyes - and heart - a little to find him.

What Movie Is Your Love Life Like? Take This Quiz :-)



Whatever... =)

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Rua dos Artistas: O efeito Leleco

Aldir Blanc

(publicada em 06/07/2005 no fabuloso novo CadernoB do Jornal do Brasil -


Um amigo foi internado em situação difícil num setor de Oncologia. No quarto para dois pacientes, a privacidade é precariamente garantida por um cortinado entre os leitos. Vozes sussurram com discrição no exíguo espaço destinado a meu amigo. Do ladelá da cortina, uma saborosa família suburbana, cheia de Iracemas, Janaínas, Aymorezinhos e Valdineys, comporta-se como se estivesse num piquenique em Paquetá. Discutem política e futebol, nessa ordem (isso, não se pode negar, o PT conseguiu); armam quizumbas homéricas com a enfermagem; incentivam o doente zonzo:

- Que cara é essa? O quê? Fala mais alto, pomba! Não vai tomar a sopa de entulho que a tia Candoca mandou na garrafa térmica novinha?!? Na-nã-ni-nã-não! Só uma colherada pra provar. Sabe quem vem amanhã? O Ednevaldo com as filhas, Vanessa Michelle e Gisleynalva Wanderléia. A Gis tá com uma barriga enorme, grávida. Dizem que foi um jogador do Vasco, tadinha...

De repente, silêncio. E aí:

- Tá chorando?

A voz quase inaudível do paciente:

- Eu queria ver o Leleco antes de...

- Antes de quê? Pensa positivo! O astral é tudo!

Choro ainda mais alto.

- Tô sentindo muita falta do Leleco.

Uma voz de mulher, resoluta:

- Olha, pai, vou te prometer uma coisa: amanhã eu trago o Leleco aqui ou não me chamo Edmilce Azuréia!

Meu amigo acompanha o drama. Quem será o Leleco? O filho pródigo? A ovelha negra? Traficante procurado? Parlamentar da base de sustentação?

Um homem troveja:

- Pai, o Leleco só faz ême, pô! Ta lá na dele, pouco se lixando pro teu estado. O vagabundo só pensa em si. A gente rala pra te visitar e você tá com saudade daquele pilantra, cacete! Vou tirar o time que eu não güento esse tipo de babaquice! Tu gosta mais do Leleco do que dos próprios filhos! Sempre foi assim. Um dia, eu perco a cabeça e dou um tiro no...

Bafafá, tititi, o estalo clássico de um bofetão.

- Olha aqui, Ozônio Carlos, tu pode ser PM, machão, o escambau, mas respeita o pai, falô? Sou muito mulhé de te arrebentá esses corne de cafetão!

- Calma, Terezinha Dulce! Aí, ó, o pai tá geral chorando de novo.

- Leleco... sniff... Leleco...

Uma voz fininha de criança:

- A gente pode trazer o Leleco na mochila da escola e passar correndo pela portaria, mas...

Suspense.

- ... e se o maluco do Leleco latir?

Pra surpresa das filhas, como se fosse o choro de raiva e vitória de um recém-nascido, meu amigo solta uma vasta risada, a primeira em meses.

A Morte, trajando um modelito Cruela Cruel, retira-se, humilhada. Apesar de seu poder devastador, morre de inveja dos frágeis seres humanos: enquanto os desvalidos acharem graça na desgraça, sua vitória não será completa.

sábado, 2 de julho de 2005

CLOSER - Perto demais

The Blower's Daughter
Damien Rice
http://www.warnerbrosrecords.com/damienrice/
(botão direito do mouse sobre o link
e 'abrir em nova janela' pra ouvir enquanto lê.)

And so it is / Just like you said it would be / Life goes easy on me / Most of the time // And so it is / The shorter story / No love, no glory / No hero in her sky

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

And so it is / Just like you said it should be / We'll both forget the breeze / Most of the time // And so it is / The colder water / The blower's daughter / The pupil in denial

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to leave it all behind?

I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind... my mind...
'Til I find somebody new



Eu vou estar aqui pra sempre, eu vou estar aqui para sempre, mesmo repetindo nunca nunca mais, eu vou estar aqui pra sempre...

Assim terminava o bilhete de despedida que ela nunca conseguiu escrever. O último e desnecessário adeus. Ninguém precisa de mais de um e eles já haviam tido vários. O primeiro e definitivo adeus foi dito há muito, muito tempo atrás em alto e claro som, vítreo como qualquer adeus ansioso por liberdade. Divulgado e propagado. Menos do lado de dentro.

Foi quando ela parou de dormir. Dormir tb é saber dizer adeus. Dar serenamente adeus ao dia que terminou e pôr-se pronto, inteiro e confiante para o próximo. Aceitar. Acordar vigilante e disposto para o futuro. Pra quem está se afogando, sentindo o tempo correr pra trás, é impossível dormir, o corpo todo pede socorro, implora, a mente não desliga, anseia, receia, negaceia, e o passado vai espalhando hera de ramos sem raízes pelos moldes do pensamento, mesmo os novos já se formam como os antigos, erráticos, vazios, fantasmas. É impossível dormir, move, move, move forward, ver os dias irem se acabando, sem sentir uma vontade incontrolável de jogar-se debaixo de um ônibus. Ela então pegou as horas e fez delas simples sucessões de fatos, um emendado no outro, cinco, dez, dezenove dias valendo por um só, as semanas, os meses, tantos anos e o pensamento ainda sente, e afirmaria até, que foi anteontem.

Desculpe por ligar assim tão tarde, ou tão cedo, já que são quatro e meia da manhã, mas eu precisava ouvir a tua voz e te dizer que... era assim que ela gostaria de começar a conversa. A conversa que nunca conseguiu ter, pra não precisar admitir desespero. Jamais vai ter coragem de ligar tão cedo ou tão tarde. Jamais vai ter condição de se perdoar. Mesmo sabendo que tanto silêncio assim pode até matar.

Eu teria feito qualquer coisa pra você voltar se achasse que faria diferença!! Me pede e eu faço!! Qualquer coisa... Era o que ela gritaria na frente de todo mundo quando o visse cara-a-cara novamente, aos prantos, unhando os próprios braços na tentativa inútil de calar-se, limpando o nariz na gola, sentindo os joelhos dobrarem, o laivo de vida que um resto de orgulho pode proporcionar esvanecer. É só nisso que ela pensa: quando não está obcecada pela ausência, está obcecada por colar os cacos de sua extensa coleção, o que dá na mesma. É como um emprego de tempo integral, que ainda exige longas horas extras e requalificação constante. Você está apto a segurar essa barra? Tem certeza que agüenta? Não é melhor perder mais alguma coisa importante antes de afirmar que já chega? Você não acha que já perdeu o bastante, acha? Você sabe que ainda precisa muito mais colhões pra aprender, não é? O que você escolhe? Que tal perder um filho? É perda bastante pra empedernir a sua casca? Passe no departamento de RH para pegar seu upgrade, ok?

Eu jurei que não ia mais te escrever, perdoa, é que eu mantenho os olhos desviados mas cabeça não desliga nunca, assim começava o bilhete que ela deixaria na porta dele, uma declaração de amor tão irrevogável quanto os delírios, um bilhete e uma única rosa vermelha já bem aberta, quase despetalando, que murchasse rápido como ela gostaria que esse amor, essa doença, esse susto, esse pavor passasse, desmanchando, murchando, sem deixar nem o cheiro, apodrecendo pra servir de adubo pra um futuro que ela já desistiu de esperar.

Não precisa conferir. Vá em frente sem olhar pra trás e não duvide nem por um único segundo. Qualquer coisa. É assim que é. Eu vou estar sempre aqui. Assim terminaria a promessa eterna e definitiva, a estranha dedicatória que nunca viria a ser publicada.

I can’t take my mind off of you...









alívio.



segunda-feira, 27 de junho de 2005

QUE SEXTA FOI ESSA????

Depois dessa, a Barca de Caronte precisa voltar a navegar.
Cês não tão entendendo... Era pra ser uma sexta feira calma e tranqüila. Uma cervejinha na feira, uma passadinha no Momo pra dar um beijo no meu avô e pronto!! Mas não, não dá pra ser simples... Foram quatro tempos de bola rolando sem parar, com uma mísera pausa pra fazer um xixi entre uma coisa e outra.
Começou na feira com siri, tapioca, churrasco de lingüiça, picanha borboleta, frango, corações e lombinho, caldinho de feijão e um outro troço que eu até agora tenho medo de perguntar o que era. A feira é ótima, mas acaba rápido. Então ficou acertado a ida de todos os quinze da barraca prum buteco no Morro da Conceição, onde continuamos com batidas de coco e maracujá, queijo, salaminho diagonal (nada com o Harry Potter), e um estranhíssimo bolo de omelete (!?) que dividiu as opiniões. Eu gostei, mas eu como até êpa depois de certa hora...
Ainda não era o suficiente, então como estávamos perto, descemos pro Escravos da Mauá. Luxuosa canja de Aldir e Moacyr, uma coisa. Aí babou de vez: caipirinha do Luizinho, meia-de-seda, vodkas com frutas variadas, um charuto, e tome cerveja pra lavar a serpentina.O quarto tempo era no aniversário do Marcelo Moutinho, o Príncipe do Eixo Madureira-Copacabana.
Disseram que me viram. Disseram que eu ainda tomei mais cerveja, uma batida de maracujá de suco Maguary, e ainda roubei a cachaça de um desavisado. Disseram também que eu prometi release, orelha de livro, capa de CD, óleo sobre tela em 2 X 4 metros, um jantar de noivado e um contrato de exclusividade. Só tem um detalhe... depois de ter conseguido avistar o aniversariante por três segundos e dois décimos, eu me dei por satisfeita, com as tarefas sociais devidamente cumpridas, e desliguei a chave central. Portanto, eu não me lembro muito bem dessas últimas partes. E se eu não me lembro, não aconteceu!! :))