terça-feira, 19 de abril de 2005

Nada pra mim - Ana Carolina

Posted by Hello


Eu não vim aqui
Pra entender ou explicar
Nem pedir nada pra mim
Não quero nada pra mim
Eu vim pelo que sei
E pelo que sei
Você gosta de mim
é por isso que eu vim
Eu não quero cantar
Pra ninguém a canção
Que eu fiz pra você
Que eu guardei pra você
Pra você não esquecer
Que eu tenho um coração
E é seu
Tudo mais que eu tenho
Tenho tempo de sobra
Tive voce na mão
E agora
Tenho só essa canção

terça-feira, 29 de março de 2005

Desconstruindo os Hipocondríacos

Aldir Blanc
Colaborou - Eduardo Goldenberg

Somos obrigados diariamente a conviver com os assassinatos em nossas esquinas e o genocídio acobertado pela nova desordem globalizante e neoliberal. Além disso, sofremos a derrocada diária de nossos pequenos mitos: Robin Hood foi o inventor da meia-calça; Dona Benta enfiava o sábio sabugo no Pedrinho e na Narizinho, sob o comando da dominatrix Emília; Zumbi, na intimidade, preferia ser chamado de Branquinha... Coisas assim desarvoram qualquer mortal. Pode existir um massacre mediático ainda mais devastador? Pode. Ninguém agüenta a gangorra aloprada sobre alimentos, remédios, dietas, práticas medicinais alternativas, golfinhos tarados, estrelas glutonas, malhações, e outras baboseiras.

O Verissimo comemorou a absolvição do ovo, até bem pouco tempo atrás uma espécie de serial killer e confessou aguardar, ansioso, pesquisas que demonstrem o valor terapêutico das tirinhas de bacon. Bom, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, um ovo deve ser cozido à temperatura exata de 60 graus, em precisos 3 minutos e 30 segundos ou estaremos ingerindo um viveiro fatal de salmonelas. De agora em diante, ovo, meus caros, só com termômetro de precisão na panela e cronômetro, aferido pelo Inmetro, na mão. Já a manteiga e o creme de leite, uma dupla comparada à Fera da Penha em conluio com o Motoboy, estão liberadíssimos: ricas fontes de vitamina A, a verdadeira agente da CIA no combate à infecções e doenças de pele - mas, atenção!, a maioria dos remédios que se apresentam como vit. A tem dosagem hepatotóxica, podendo levar à hepatite medicamentosa.

Passemos ao chute nos tomates. Lançado em horário nobre na televisão, feito o Leonardo dos hortigranjeiros, como o único alimento capaz de prevenir (basta comer o equivalente a seis caixotes semanais) o câncer de próstata, foi avacalhado, logo no dia seguinte, por naturebas ligados a grupos macrobióticos: é mais venenoso para os rins que hemodiálise em hospital de pobre. A síndrome de Clóvis Carvalho também atingiu a soja: milagrosa na sexta-feira e delinqüente transgênica no domingo.

Um pesquisador pernambucano detonou:

- O boldo não é tão inofensivo quanto aparenta!

Um pouco de sua substância ativa, a boldina, em excesso no organismo, pode causar alterações cromossômicas, ou seja, a ingênua gestante acha que está esperando o Di Caprio e nasce o Ratinho.

Na Internet, a loucura é total. Várias xícaras de café do brabo são excelentes no combate aos ataques cardíacos. A beringela não reduz o colesterol coisíssima nenhuma, podendo causar algum prazer apenas como consolo - sem pilha, é claro. O antes todo-poderoso mel dá mais ferroada que a colméia reunida. A gordura do abacate, a banha de porco, o chocolate e o torresmo ajudam a conseguir uma silhueta de Marco Maciel. Entretanto, a malévola alcachofra engana mais que o ACM. O aspartame causa degenerações dignas de um ruralista. Por isso, devemos todos voltar ao ciclamato Roberto Campos. Yakult e Chambito agem tipo bomba de efeito retardado no intestino grosso, uma espécie de Acre na geografia orgânica. Um dia, a contenção vem abaixo e é merda no ventilador pra todo lado. O Viagra pode causar sexorexia: fartos de ficar de pau duro, seus usuários contumazes compram espartilho fúcsia e pegam fuzileiros navais na Praça Mauá.

Impressionado com as dimensões catastróficas de todo esse lixo, caí na asneira de ler a bula de um remédio que tomo. Trata-se do brometo de pinavério. Convenhamos: todo sujeito que ingere uma droga chamada pinavério é débil mental. Eis os excipientes (uma palavra por si só bastante macabra): dióxido de silício coloidal (meu Deus, aquilo que faz computador lá no Vale). Talco (é, o polvilhado em bunda de neném). Eudragit (Nossa Senhora!). Polietilenoglicol. Dióxido de titânio (caceta, são dois Titãs, só que já oxidados!) Laca (é isso aí: Laca). E, pasmem, Corante AmareloCcrepúsculo! Não é atoa que tenho cantado Babalu com voz fina no chuveiro. Segundo o The Lancet, o Corante Amarelo Crepúsculo faz um capanga do Hildebrando achar o Selton Melo “fofinho”. O pinavério é antagonista do cálcio. Dá vontade de pegar o desgraçado pelo colarinho e perguntar:

- Porra, Pinavério, que qui tu tem contra o Cálcio, caralho?!

E, desgraçadamente, a bula ainda me adverte: não posso amamentar “por falta de estudos específicos”. Deles ou meus? Nem mesmo leite de minhápica?

segunda-feira, 28 de março de 2005

... Posted by Hello

Morte por afogamento

Quebrei a porta da geladeira de tanto abrir e fechar. Desisti do gelo e passei pro caubói. Deviam vender tuas postas em conserva, drogas injetáveis têm muitos efeitos colaterais. Os pesadelos se agravam. Eu continuo morando nos teus olhos, tá tudo ainda assim queimando em mim, salvas e salvas de fogos, eu no Maracanã e você comigo, eu no metrô, no Largo de São Francisco, ouvindo Etta James, dançando jongo, bendito louvado seja, é o rosário de Maria, eu fora e sempre dentro dágua, no mesmo mergulho, na mesma sombra, no mesmo naufrágio.

Devo ter feito reza na feição do cão, eu pago sempre com juros, eu não esqueço, eu não durmo. Os sapos coalhando de desalento o peitoril da janela e eu cerzindo ferida de não poder mais, de ainda, de senão. Coração preso entre o fastio do sentimento e a intemperança do presente, estala, range, vai aos arrancos e soluços, não tem mais estrada que alente, se soubesse parar, parava, se soubesse correr, corria, se pudesse... se pudesse ia.

Anjo torto da minha fé descrente, Javé é compaixão e piedade, lento para cólera e cheio de amor. Fico desperto, gemendo, como ave solitária no telhado, com vela colorida na quarta-feira, tomo chá de camomila, erva-cidreira, não adianta, salta um coquetel, pantoprazol e limbitrol numa azulada, duas alcachofras, com bastante gelo, "shaken, not stirred", minhas mãos doem, as minhas unhas estão cheias de terra, eu cavo um poço por dia ou deixo esturricar, desaprendi de recolher, e as sementes se foram com as folhas do mulungu que as deita no vento antes de cobrir de flor... O meu rosário de contas – ave-marias negras, pais-nossos de arganéu – eu guardei na rede pra balançar tédio de varanda, calma fingida, e fui trançar os cabelos, fazer renda de fita, tirar pó, mecânica quanto raiada, ladrilhando a memória de pedrinhas de brilhante, ajibonã de minha própria alma, capataz dos meus desejos, algoz de minha calmaria.

É de espantar que os dias se sucedam, que chova, que esquente ou esfrie, que a comida estrague e que cheguem jornais novos se o tempo está parado. Um besouro pousou no meu olho.

segunda-feira, 21 de março de 2005

Cariocaturíssimo Lan

Mais uma colaboração amiga pra ajudar a aumentar o aconchego desse nosso cantinho. Foi escrito por amigo que eu fico muito feliz por ter ganho de presente. Quem sabe ele não faz outras aparições por aqui.

Quero dar um abraço
nesse garoto
que esse ano fez oitenta,
craque do poema em traços,
carioca da gema
que dispensa papel passado
e ainda acalenta
aquele sotaque maroto,
quero dar um abraço
nesse sujeito sambaixonado,
e em itálico tinha de ser,
que é desse jeito
que seu peito aquarela
e Portela,
que paixão imensa!,
faço também questão
de lhe dar um abraço
pelo feito especial,
o Nobel de Cariocaturas
com a Lanrdose da Mulata
que retrata
a poética abundância
dessa bela mistura nacional,
exuberância estética
na qual ninguém bota defeito,
e em itálico, como convém;
obrigado,
cariocaturíssimo Lan,
por esse Rio de humor
que me inunda
com essa overdose de mulata,
obrigado,
cariocaturíssimo Lan,
por esse Rio de humor
que abunda em lordose
e me faz feliz na dose exata!

Rio Maracanã, sexta-feira, dia de feira.
Do seu fã,
Luiz Moreira

sexta-feira, 18 de março de 2005

::: sem parar: Canta, canta mais

(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

Canta, canta
Sente a beleza e
Canta, canta
Esquece a tristeza
Tanta, tanta
Tanta tristeza
Canta
Ah...
Canta, canta
Canta, vai, vai
Segue cantando em paz
Canta, canta
Canta mais

sexta-feira, 11 de março de 2005

Zulmira, malandros e reis


20 toneladas de ferro maciço batiam as estacas da fundação. Os alarmes de ataque aéreo já pareciam fazer parte do enredo. As paredes talvez desmoronassem. Sem contar com o fedor de fossa e essa absurda vontade de vomitar. Bumbos, surdões e tantãns botavam pra quebrar em plena Marquês de Sapucaí. Ou talvez fosse Exército da Salvação marchando sobre os paralelepípedos da vila suburbana. "Ó suburbano coração..."! Ou talvez tudo isso fosse efeito da bebida. Pra quê misturar samba com churrasco e beber dessa maneira? Quando é só o samba, dá pra controlar a cerveja. Mas e a picanha, quem sugira? Quer dizer, segura? Aí dá uma sede danada e ainda por cima todas as tias velhas ficam chupando o fiapo do dente e as crianças não param de imitar chacretes de banda baiana num sol que parece estar vindo pra cima encarando geral feito a morena mulher do cunhado do teu vizinho que insistia em mostrar o decote na cara de todo mundo principalmente na sua quando a Zulmira chegava perto e todo mundo sabe que a Zuzinha não é de fritar bolinho muito menos cozinhar pra fora já que nem bem a loura da rua de baixo apareceu e a Zuzinha já havia chamado o nêgo na chincha e espinafrado a boazuda e ele nem conseguiu dizer pra ela que tava na hora do futebol e os cumpadres não iam perdoar a falta nem dele nem da cerva que ele tinha que levar porque bastava a da semana passada quando a kombi do sacolão atropelou a Tia Vica e fez a pobre rodar mais do que na ala das baianas naquele carnaval que eles passaram acampados no quintal da casa do Tio Joca por falta de vaga dentro de casa mas do jeito que ele ronca ninguém ia dormir e nem tinha tanto problema porque ninguém dormia mesmo com tanta vontade de mijar sem contar com o banheiro quando não tava ocupado tinha um cagalhão boiando e era melhor parar já que todo mundo sabe que botar a família no meio não dá certo e tanto a minha mãe quanto a tua têm telhado de vidro e ia começar a juntar gente feito urubu na carne-seca do seu Trindade aquele velho camelô safado que pediu trezentas pratas e se mandou pro Pará atrás de umas terras roubadas que passam de ladrão pra ladrão e nunca pagou o dinheiro que Zuzinha ajudou às custas de muita trouxa de roupa a juntar e tava guardado pra consertar a lage da casa pra eles poderem ir morar juntos logo porque não dá mais pra viver sem ela e "vamos sair logo daqui" que ela tá é precisando de um trato bem dado do jeito que só ele sabe dar...

terça-feira, 8 de março de 2005

"Peguei a Barca de Caronte pros Quintos dos Infernos e levei..."

Eu estava com uma dúvida cruel: como incluir comentários sobre CDs, livros, filmes, sem que ficasse tudo misturado com os contos e virasse a sucursal do hospício? O problema das músicas já tinha sido solucionado com o selo SEM PARAR, mas e os livros? E os filmes? E se nem fosse tão bom, mas valesse o comentário? E se fosse tão ruim que só baixando o cacete?
Bom seria ter aprendido a fazer as coisas direito, saber programação, não depender só do Blogger. Pacença.
Que fazer?
Foi então que surgiram Branco e Dedeco e apesar do adiantado da hora (passava das quatro), eles iluminaram minha mente: a melhor maneira de compreender o caos é usar a lógica. Nada como sorvete de flocos. Então taí.
A brincadeira é:"'Peguei a Barca de Caronte pros Quintos dos Infernos e levei..." e aí depois decidir se leva mesmo ou não. Hoje a gente começa com livros.

Livro: Vencer ou Morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional
Autor(es): Gilberto Agostino
Editora: Mauad
Ano: 2002
Nº de páginas: 272
E aí? Leva?
Leva... pode levar.
Mas não vou fazer resenha nenhuma, porque não li o fim e não estou mais de posse do exemplar, vítima de torpe e vil ato de uma dessas pessoas que, infelizmente, vieram pro mundo a passeio. Triste. Tentei comprar outro e não achei. Tem no Submarino, mas eu não sou moderna. De maneiras que fica apenas o link abaixo. Discordo de umas coisas, acrescentaria outras, mas no geral é isso aí.
http://www.nethistoria.com/index.php?pagina=ver_livro&livro_id=462
E fica assim, o não dito pelo dito.

Livro: Tudo que não é cavalo
E aí? Leva?
Não. E deixa assim mesmo.

sexta-feira, 4 de março de 2005

JUAREZ MACHADO - Cocktail Fourré - 2002 Posted by Hello

Como é que conserta?

Quando eu cheguei em casa depois de dezoito reuniões bestas e desnecessárias (dinheiro que é bom, necas), tudo, tudo que eu queria era sossego. Mas tinha que ver emêiul, não tinha? Tinha que olhar caixa postal, responder recado no celular, mural do Orkut, comentário no blog... Merda. É horrível ter que fazer isso em dia de azedume.
Aí veio uma mensagem de um amigo de uns quinze anos, que mudou de endereço eletrônico. Fui pra lista do orkut tentar responder e... tava lá a foto. Do lado, coladinha. Não do amigo, mas dele. Ele. O amado, o escafandrista, o amante perfeito, boca indizível, o inconfessável... raiva. Raiva. Incontrolável. Ódio mortal. A situação limítrofe entre a fúria obsessiva e o ódio-cabloco-quebrador-de-prato, e uma vontade estúpida de consertar, de ser menos passional, menos surtada, eu faria tudo diferente, teria mais paciência, devia ser dos melhores amigos até hoje, na verdade é, porque eu converso com ele toda noite, eu só podia ter tido mais tato, ter sido mais elegante, um silêncio sábio de debruçar no assunto, uma parcimônia...
Só que essa não sou eu.
Eu reconheço. Fui eu que pedi, quis assim. Fato.
Mas eu tenho uma saudade abissal do sorriso, da voz... e do cheiro. Só. E o pior: contra todos os meus prognósticos, não quer passar. Então, pra celebrar a minha estupidez, sem nada de mensagem oculta na letra, é muito mais o clima, quase de celebração, "é essa porra mermo", com vocês, nessa altura altíssima (altas estamos eu e a madrugada), com vocês mais um momento da série ::::SEM PARAR:

Que Nem Maré
(Jorge Vercilo)

Faz um tempão
Que eu não dou trégua
Ao meu coração
É você o meu lugar
Quando tudo por um fio está
Nada vai me fazer desistir do amor
Nada vai me fazer desistir de voltar
Todo dia pro seu calor
Nada vai me levar do amor

Faz um tempão
Que eu não dou asas
À minha emoção
Passear, distrair e me achar
Lá no fundo de ti
A saudade bateu
Foi que nem maré
Quando vem de repente de tarde
Invade, transborda esse bem-me-quer
A saudade é que nem maré


PS: É... Pois é. Ainda. Que coisa.
PS2: Que fenômeno esse do anonimato da rede... A gente fica com mania de contar a vida... Céus.

quarta-feira, 2 de março de 2005

JUAREZ MACHADO - Les Coulisses - 2002 Posted by Hello

Trim, trrriiim...

- Aaloou?
- Quem fala?
- Quer falar com quem?
- Sr. Paulo?
- Ele.
- Boa tarde, Seu Paulo. Permita que eu me identifique. Meu nome é Marisa e eu sou voluntária...
- Minha filha, não dá não. Tou no trânsito e vou levar multa se ficar aqui parado com o celular na mão. Uma outra hora, sim? Obrigado.
Trim. Trim.
- Alô?
- Sr. Paulo?
- Ele.
- É a Marisa, seu Paulo. Gostaria que o senhor me escutasse por um momento...
- Ai... eu já falei pra vc que agora não dá.
- Eu preciso falar com o senhor sobre...
- Será possível? Não me interessa, não posso ajudar. Se for doação, tou precisando de uma. Meu cartão de crédito tá bloqueado, não tenho cheque, não faço compras pela internet e estou contente com o meu jornal. Tá bom assim?
- Mas é que...
- Tenha um bom dia.
Trim. Trim. Triiiiim.
- Eu estou perdendo a paciência!
- Seu Paulo, é só um momento, por favor. É um caso de vida ou morte!
- Vou ser obrigado a desligar o meu próprio telefone!!
Trim. Trim. Triiiim.
- Não atendo e pronto.
Trim. Trim. Triiiiim. TRIIIIIM!
- Mãe! Ainda bem que é a senhora. Tem uma moça me enlouquecendo aqui no telefone, já deixei passar várias ligações e só agora que vi no bina que era o seu número, o trânsito não anda e eu...
- Paulo, cala a boca um instantinho. A moça que estava te ligando, como era o nome dela?
- Ah, mãe. Telemarketing. Sei lá.
- Faz um esforço, meu filho.
- Era Valquíria. Não... Vanusa. Não. Lembrei! Marisa!
- Minha Santa Bárbara... Paulo, essa moça acabou de ligar pra cá.
- Péra, mãe, outro guarda. Perseguição, só pode. Nem em posse de comandante tem tanta farda. Agora vai, mãe. Fala.
- Paulo, essa moça é do CVV.
- Do Comando Vermelho?
- Pára esse carro, Paulo!! Pára e presta atenção! Essa moça é do CVV, Centro de Valorização da Vida! É a Sônia, Paulo, a tua mulher...
- ...
- Paulo, vai pra casa agora. Ouviste bem? Agora!

No jornal do dia seguinte, nota de pé de página, no caderno da cidade. O marido tenta se justificar. Entrou na ruazinha do Méier cantando pneu e na contra-mão, bateu no muro da casa vizinha, destruiu a frente do carro, parte do muro caiu em cima de um menino de seis anos que jogava bolinha de gude e foi internado no hospital. Saiu do carro correndo, largou a porta de casa aberta, vasculhou o primeiro andar todo gritando a esposa, subiu a escada já aos prantos, entrou no quarto e o encontrou todo revirado. Roupas pelo chão, gavetas quebradas, duas garrafas de vodka vazias, fotos rasgadas e cacos de vidro por todo canto. Gritou de novo, olhou embaixo da cama, viu o fio de água avançando pelo chão e seguiu-o até o banheiro. Não teve coragem para abrir a cortina da banheira de louça branca. Desceu, chamou o advogado, a mãe, uma equipe de reportagem e depois uma ambulância. Encontraram o celular no quintal, destruído.

domingo, 27 de fevereiro de 2005

Tem Tio Sukita no samba

[este texto, sensível, bem-humorado e inteligente, só está podendo ser aqui apreciado graças à iniciativa de Roberto Moura, amigo querido, visionário e agitador 24 horas por dia, que está nos mostrando a importância de ações conjuntas, simples como essa e valiosa como poucas. Palmas para o talento das moças! Esperamos trocar muita figurinha ainda.]

Fernanda Canavêz e Paloma Moura


”Foram me chamar, eu estou aqui, o quê que há? Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho...". O convite foi feito: domingo vai rolar a nossa roda no Posto 9 - diz nosso famoso Tio Sukita, da Escravos da Mauá. Fala como que ao pé do ouvido, para que ninguém descubra tal pérola: a mais disputada roda de samba carioca nos últimos anos clama por discrição. O Largo da Prainha ficou pequeno para a mocidade que aprende a admirar os grandes bambas do samba. Entretanto, como "o samba agoniza, mas não morre", a concorridíssima velha guarda aposta no reduto jovem, o Posto 9, para perpetuar a roda da escravidão.
Saímos de lá pequenininhas, "o que é que há", para ouvir famosos hinos fundamentais em uma roda de muito estilo. Samba de qualidade, fim-de-tarde em Ipanema, encontro com as amigas... O que mais poderíamos querer? Momentos tão simples e agradáveis já começam a deixar saudade. Será que vai ser para sempre? Será que nossa amizade vai acabar? - já questionava uma de nós outro dia. Talvez não, nem tudo "caminha no mesmo lugar, sem pressa, sem medo de errar". O encontro de gerações já nos leva a pensar no futuro. Como seremos?
Uma senhorinha serelepe começa a dar o ar de sua graça entre seus companheiros de meia idade. Um vestidinho divertido, corpinho de Barbie e suquinho Gummie na carcaça!!! Afinal de contas, ninguém consegue dar pulinhos de alegria na areia por tanto tempo. De repente, vê nosso Tio Sukita e dispara em sua direção para uma saudação calorosa. Nem reparou que, em sua jornada, foi jogando areia em quem escutava calmamente a cantoria. Volta ao seu palco particular e continua sambando: alegre e sozinha, como se nada mais fosse necessário para deixá-la satisfeita.
Nossa "menininha" era observada atentamente por uma coroa alta (é, comprida mesmo), que carregava uma garrafa de água. É, água mesmo, daquelas que os passarinhos bebem. Seus cabelos lembravam Maria Bethânia, claro que não eram só os cabelos, afinal sua postura e olhar melancólicos se destacavam no meio das alegres senhoras que cantavam os sambas e se emocionavam, como que seduzidas pelos seus próprios retratos.
Estavam ali, na areia fria, identificadas com os causos mais
inusitados, relatados pelos sambas mais, talvez, ginasianos, sugerindo a todos uma eterna pergunta: o que resta de nós senão estes versos? Poderia eu, ter escrito isto? Fala de mim ou fala de todos?
A pergunta adormece por alguns instantes, quando mais um copo de cerveja é entornado. De repente, um grito emocionado anuncia: "Acreditar, eu não. Recomeçar, jamais!". Nele, se misturam todos, no intenso canto de identificação do amor acabado. Os serenos ouvintes se levantam e se juntam aos mais empolgados para cantar, todos, o seu hino. Olha-se para um lado e lá está ela, enrolada numa canga preta, sorridente, cumprimentando um bebê de colo. Era ela, o retrato do nosso futuro, com um olhar tranqüilo, meio despretencioso da vida. Veja bem, não era triste e sim descompromissado. Seu dançar e seu caminhar eram leves e sua simpatia, há que ser confessado, muito nos invejou.
Ainda admiradas pela dama de negro, fomos surpreendidas por uma cena no mínimo dantesca: uma senhora um tanto quanto curiosa brinca alegremente com sua dentadura. Travando uma luta na qual a única perdedora poderia ser sua imagem perante os colegas de roda, a moça futuca para lá e para cá, na tentativa de minimizar sua ansiedade. Ansiosa por quê? Talvez por ter perdido o brilho de
sua juventude, por não saber entoar os cânticos universais que eram tocados?
Certamente, a criatura "resolveu ficar, é que os momentos felizes tinham deixado raízes em seu penar". Não entendeu direito o "enredo desse samba amor", quando negligenciou a advertência de Dona Ivone Lara. É isso aí, amigas, "a vida foi em frente e você simplesmente não viu o que ficou pra trás!" Como seremos? Não sei, há que se atentar para a simpatia que, diga-se de passagem, é quase amor. Envoltas numa canga preta, ouçamos mais Dona Ivone. A princípio nos restam muitos carnavais e tomara que, dentro de alguns anos, não nos reste como única diversão o embate com nossas dentaduras!!!!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005

*** Posted by Hello

CLARICE ANTES E DEPOIS DO NAUFRÁGIO

ANTES:

"PRECISA-SE"
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

DEPOIS:

"TEMPESTADE DE ALMAS" (trecho)
Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.
(...)
Textos de Clarice Lispector.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2005

::: Aldir Cronista: PEDACINHOS COLORIDOS DE SAUDADE

De Aldir Blanc - publicada em agosto de 1996.

Sempre quis armar uma dessas coletâneas de frases loucas, colhidas meio ao acaso, como faziam, de vez em quando, meus mestres em Humor (estou chamando os coitados de meus mestres mas convém esclarecer que eles não têm culpa alguma no cartório). Estando à beira (quase escrevi à beira do abismo...) de fazer cinqüenta anos, me permiti colher este cacho de sandices e ofertá-lo a meus fiéis leitores - com a complascência do meu editor, é claro, que eu não sou tão maluco assim. Lá vai:

. Prozac - Era uma senhora deprimida, mas sofisticadíssima. Toda vez que tentava o suicídio, ateava fogo às vestes da governanta.
. Infância - Dia virá em que as histórias infantis começarão com "No tempo em que os bichos viravam Ministros das Relações Exteriores..."
. Conversa de pescador - "Me lembro como se fosse hoje" é sempre um excelente começo pra contar mentira.
. Efemérides - Se existe a Semana da Asa, temos obrigação de comemorar também o Mês da Moela.
. Plataforma para os Verdes - Com essa poluição, o Brasil vai acabar tendo área verde só no sobrenome do ex-ministro da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos.
. Galinhagem - Galo sabe que pinto verde é obra do papagaio.
. Muito Axé - Desconfie do caboclo Pena Branca que pedir "umas lingüicinhas" com o copo de marafo.
. Manchete explosiva - O Arsenal vai pelos ares! Essa é a manchete de um jornal português sobre a viagem do aguerrido time britânico, de avião, para jogo amistoso em Lisboa.
. Bicões - Ser Deus até que é fácil. Chato é aturar as outras duas pessoas da Santíssima Trindade espiando o que a gente está escrevendo por cima do ombro.
. Vice-versa - Li no jornal que um ovo atingiu o candidato Medina em pleno rosto. Podia ser pior, tipo um rosto atinge Medina em pleno ovo.
. Lotação esgotada - Condução cheia é sempre a mesma bosta. No dia do Dilúvio, Noé também pediu aos bichos pra "dar um passinho à frente que o meio do carro tá vazio..."
. Praga - "Bem-feito" a gente diz quando a avó dá uma tremenda moto pro neto e o garotão envenena as duas.
. Repasto - Autocomiseração é ir jantar fora com a patroa no aniversário de casamento.
. Silicone - Creusa tinha uns seios de mandar anão pro Pronto-Baby.
. Bode - O Espírito santo é uma espécie de papagaio com o humor do Dom Eugênio Salles.
. Etiqueta - Em feijoada completa, quando for pedir rabinho à mulher do próximo, é favor usar a expressão "partes pudendas".
. Modernidade - O Come-Quieto é uma figura do passado. Chegou a vez do Senta-Fazendo-Escândalo.
. Day after - Em salão forrado com tabacow, Baixinho só aparece depois da festa, dentro do aspirador de pó.
. Colunável - O marido de Lucinha se esforçou para introduzí-la no meio de nossa melhor sociedade e o resultado é que quase toda nossa sociedade acabou introduzindo seu esforço no melhor meio de Lucinha.
. Ecológica - Otimista é o sujeito que teve diarréia dentro da piscina, achou graça e gritou pra família: "- Vem gente! Pode cair que tá igualzinho a Paquetá".
.Zoo-Ilógica I - Essa mulher é mais confusa que centopéia de perna cruzada.
. Zoo-Ilógica II - Se papo bastasse, baiacu se dava bem com cocoroca.
. Jogo de Cintura - Manco nunca perde o rebolado.
. Investimento - Pra quem tá procurando ganhar uma grana, excelente pistolão é uma 45 privativa das Forças Armadas.
. Momesca - Sair do Monte Líbano pra currar odalisca no Jardim de Alá já não é carnaval, é falta de respeito.
. Encruzilhada - Os militares querem sempre dobrar à direita. Já os boêmios não conseguem encontrar a segunda à esquerda.
. Via Láctea - Como disse o meu psicanalista: seio bom é o que tem leite B.
. Aparência - Nome bonito não ajuda tanto assim. Emissário Submarino é lindo e tá cheio de cocô.
. SS - Na inauguração do novo distrito policial, coube ao Secretário de Segurança dar o pontapé inicial.

::: sem parar: MINHA RAINHA

[ pro Moutinho pro Rodrigo, pro meu inusitado amigo Catador, e pro Príncipe que a esta altura já está em Angra feliz da vida - boa sorte, sweet!-, com a geladeira cheia de latinhas e o pé ainda cheio de cacos de vidro :) Ui! ]

Canta: Noite Ilustrada
Autores: Rita Ribeiro / Lourenço

Um dia
você vai pensar direito
e vai procurar um jeito
para me pedir perdão.
É bem melhor você
pensar agora,
antes de chegar a hora
da nossa separação.
Eu já derramei
um rio de lágrimas,
muitas vezes chorei minhas mágoas,
só porque eu lhe amo demais!
Olha, amor,
Dediquei a você minha vida inteirinha,
do meu sonho de amor
fiz você a rainha
e você vem falando em separação!
(ah, meu amor!)
Olha amor,
antes que seja tarde o arrependimento,
eu não quero ouvir mil desculpas, lamento,
porque tudo que eu fiz
foi pra lhe ver feliz!

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Which Sandman Character are You?

Desire of the Endless
You are Desire! You enjoy manipulating people and
having people love you. You can be cruel and
impetuous.


Which Sandman Character are You?
brought to you by Quizilla

::: sem parar: Falando sério (1977)

[ai, gente, o Rei é tuuudo!]
Maurício Duboc - Carlos Colla

Falando sério
É bem melhor você parar com essas coisas
De olhar pra mim com olhos de promessas
Depois sorrir como quem nada quer

Você não sabe
Mas é que eu tenho cicatrizes que a vida fez
E tenho medo de fazer planos
De tentar e sofrer outra vez

Falando sério
Eu não queria ter você por um programa
E apenas ser mais um na sua cama
Por uma noite apenas e nada mais

Falando sério
Entre nós dois tinha que haver mais sentimento
Não quero seu amor por um momento
E ter a vida inteira pra me arrepender

Falando sério
Eu não queria ter você por um programa
E apenas ser mais um na sua cama
Por uma noite apenas e nada mais

Falando sério
Entre nós dois tinha que haver mais sentimento
Não quero seu amor por um momento
E ter a vida inteira pra me arrepender

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Instantâneo do estado de espírito. **SUSPIRO** Posted by Hello