sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

:: Aldir Cronista - BODAS DE OURO

(Mais uma pra matar as saudades... Publicada no livro "Um cara bacana na 19ª")

Preciso registrar uma efeméride: sábado, 7 de outubro de 95, tive o prazer e a honra de atuar como Mestre de Cerimônia, aqui em casa, nas Bodas de Ouro de meus pais, Helena e Ceceu. Estiveram presentes, ao vivo e a cores: Toninho Sorvete, Waldyr Iapetec, Buda, o terrível Walcyrzinho, o bravo Dr. Ricardo Oliveira (coitado, trata da família toda), Viegas Bico-Fino, Dalva - rainha do frevo e do maracatu, cumadre Ize Isaura, Graça - a verdadeira castanha da Caju Music, Edu Búzios, uma lista de personalidades capaz de fazer o Swann bancar o pato.

Meu pai é um homem afável mas tem seus particulares: não gosta de festa e de visita. Em sua casa, no Estácio, mantém um rifle encostado na janela da frente. Dizem que é pra detonar, caso alguém toque a campainha sem ter avisado com um mês de antecedência. Ceceu não abre exceção nem pro carteiro. O técnico da televisão tem que mandar batedor e fazer sinal de fumaça lá do Rio Comprido. Não foi fácil convencer a fera de que 50 anos não são 50 dias. Na primeira tentativa de conversa ele avisou:

- Se tiver missa, posso até, em respeito ao recinto, livrar a cara do padre, mas o sacristão entra na porrada.

Diante disso, Mari Lucia deu a idéia salvadora: chamar um pessoal de música, Jorge Simas no 7 cordas, Jayminho no cavaco, Diniz no piston, Renan no baixo. Na voz, D. Zilda e Cristina Buarque. Baiano no afro-catarro, Guinga na harpa, Sodré no pandeiro, Mello em si mesmo (tantã), tudo gente fina. O champagne ficou a cargo do meu irmão Marco Aurélio, o último gentleman do Rio de Janeiro. Moacyr Luz, registrou, com uma pronúncia de fazer o Macaco Tião tomar Haloperidol injetável:

- Gente, é francesa! Um monte de garrafa de Vê-si-quicô!

No primeiro compasso de "Flor Amorosa", com exatos quatro segundos de festa, mamãe passou mal. Nôu próblein, disse o Moacyr Luz, com uma pronúncia de fazer o Macaco Tião entrar pra igreja universal. Havia inúmeros médicos presentes - inclusive eu, pomba! Foi Deus que me iluminou quando resolvi maneirar na bebida. Eu, momentos antes, presenteara o jornalista Pimentel com minhas próprias calças, mas não teve nada a ver com birita. Foi emoção. Também falei inglês, alemão e baixo-azerbaijano com o César Tartáglia, mas parei com a brincadeira porque o Moacyr Luz entrou na conversa em esloveno setentrional com uma pronúncia de fazer o Macaco Tião dançar funk.

Levamos mamãe pro quarto. A junta médica não titubeou: vesícula. E agora? O silêncio foi tremendo. Parecia que alguém tinha sugerido investigar as empreiteiras. Ceceu salvou a festa:

- Só se for da genitora dos esculápios. Helena tirou a vesícula há 20 anos.

Aliviada, mamãe levantou da cama no ato:

- Bom, se é vesícula e eu já fui operada, bola pra frente. Vamos voltar pra sala.

A partir daí, correu tudo às mil maravilhas. De vez em quando, eu ía pro banheiro chorar. Foi Nossa Senhora do Perpétuo Socorro que me manteve sóbrio. Eu entrava no banheiro, caía no choro, e o Macaco Tião (que estava lá dentro, escondido do Moacyr Luz) me abraçava:

- Chora, meu nego. Teus pais são uma gracinha.

Detalhe: havia inúmeras crianças na festa, incluindo meus oito netos: Pedro, Milena, Joana, Huguinho, Zezinho, Luizinho, Cebolinha, Magali, Mônica, Tico e Teco. Fiz bem em não exagerar na bebida. É lindo ser avô e ver todos os netos, quatorze, quinze, sei lá, reunidos, ao lado de minhas quatro filhas: Patricinha, Tati, Marianinha, Belzinha, Juju, Line, Marina e Dadá.
Crianças choravam a plenos pulmões, os músicos tocavam como se estivessem afundando com o Titanic - atacavam a introdução de "Carinhoso" e o Moacyr Luz entrava cantando "I could have dance all night". Embalado, Moa declamou em homenagem ao casal:

Como diz o Paulo Francis nos estêitis:
Middlesborough é dose pra Bill Guêitis!
Fífiti years, milórdis an' milêidis.
Evoé! Enerjaizer, gatorêidis!
E náu, queiram me perdoar:
vou levar o Juninho pra espirrar.


Com essa, o Macaco Tião se afogou na banheira. Próximo ao corpo, um bilhete: "Agüentei dromedário, hipopótamo e elefante, mas essa pronúncia é demais pra mim. Sou macaco mas exijo respeito".

Sóbrio e comovido, tive um insight lírico:

- Que tal comermos as velas à luz do bolo?

Foi aí que um garotinho que não reconheci, mais um neto meu?, tirou a cara do livrinho de história e perguntou:

- Que qui é antílope?

Well, antes que alguém pudesse fazer contato com o prontocor, meu sogro e guru, Zezeco Sá Freire, ex-membro da guarda pessoal de Getúlio, deu ao kid abelha uma verdadeira aula inaugural:

- Esses delicados animais são um capítulo à parte da Veadologia Geral e Comparada. Por exemplo: se um marmanjo pinta a cara feito louca, bota peruca ruiva, se enfia num vestido vermelho de babado e vai cantar Babalu em buate na Lapa, é veado propriamente dito. Se o espécime é festivo e gosta de dar presentes, trata-se de uma rena, a melhor amiga de Papai Noel. Quando sai no tapa e dá sandalhada, é cervo: mete o chifre, coisa e tal, mas acaba tudo em desenho animado, tipo Bambi. Agora, quando escreve resenha de livro de poesia do amigo naqueles suplementos literários de São Paulo, aí é antílope. Sacou?

Os convivas foram saindo de fininho. Também vou nessa. Como diria o Moacyr Luz: outra vitória da ilusão. Gudinaightzwt#$*&%*.
Aldir Blanc

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