sexta-feira, 30 de maio de 2008

Cinco Dias


trilha: Sabe Você (Carlos Lyra / Vinícius de Moraes) clica!


Primeiro dia – Prelúdio do Horizonte no Veraz do Mundo

No primeiro dia, ela olhou pra ele com a curiosidade de gato que se debruça no parapeito. Virava a cabeça de lado, tentando entender de onde, de onde, de quando, de onde ele aparecera? Uma gata, pisando deleitosa, que espia o brinquedo perfeito: intrigante, luminoso, súbito. Ora, nada demais, não vou cair. Além do que é só uma voltinha, volto pra casa em menos de meia hora. Olha essa lua. Ninguém vai sequer dar pela minha falta. Eu já sou crescidinha, posso sair e me cuidar e nem é tão alto assim. Olha a lua, que linda, faz o paralelepípedo parecer misturado a pó de diamante. Eu miro bem direitinho, com cuidado, e num lindo salto leve e seguro, eu passo do chão ao...

- Ele tinha aqueles olhos...

- Azuis?

- Não, vazios.

- Vazios? Vazio-indiferente?

- Vazio-faminto.


Segundo dia - Sarabanda do Horizonte no Limite do Mundo

No segundo dia, o tempo acelerou em volta e, por mais que ela corresse, não dava pra cheirar, lamber, esfregar, triturar, umedecer, sugar, intumescer, ou dominar nem a metade do que lhe era oferecido. No centro da sucessão de cenas girátórias e aceleradíssimas, ela se encantava – até para sua própria surpresa – não com o que lhe alucinava os sentidos, mas com pontinhos brilhantes de refração, cintilações cromáticas, o rosto congelado numa expressão mesmerizada e um tanto idiota, a vida virando um caleidoscópio gigante com som de candelabros de cristal e cavalinhos no carrossel. Era hipnose. Ou um anátema. Se beliscar, acorda?

- Nunca na minha vida.

- Por favor, não diga isso se não for verdade...

- Você quer a verdade?

-... por tudo que é mais sagrado!

- Então assimile: tudo que eu te digo é mentira. Isso inclusive.



Terceiro dia - Alemanda do Horizonte no Resvalo do Mundo

No terceiro dia, ela estava perdida. Insone, exausta, desnorteada, ela tentava em vão achar o caminho de casa. Tinha fome, sede e desdém. Mas a dor pior, anestesiada, estava por aturar: as almofadas das patas sangravam os passos em carne viva. E, insulada até de si, a péssima: uma saudade funda do parapeito. Sentir embaixo dos dedos a pedra fria que causava tamanha entrega no calor, o corpo frágil desmanchando-se no prazer do contraste quente-de-dentro com frio-que-arrepia; essa dor, quando batesse, não ia ter volta, a Saudade brincando de esconder com a Culpa e as duas tripudiando com a Razão.

- Ele nunca vai dizer.

- Que te ama?

- Isso ele já disse.

- Então o que mais?

- Que fica.



Quarto dia – Courant do Horizonte no Negrume do Mundo

No quarto dia, a fome era brasa e as retinas queimadas ardiam cheias de areia. Os tendões contraídos deixavam antever as garras para fora do que sobrou das patas escarnecidas. Tinha fome, sede e ódio. Todas as dores já estavam rindo, às gargalhadas desdentadas, expondo a alma desgraçada e aniquilada dela que um dia foi una. Controle-se, componha sua mente, resista e não se entregue ao desespero, caminhe, falta pouco agora, respira, você é capaz de saber a diferença entre Delírio e Suposição.

Luz.

- Por quê?!?

- Não sei do que você está falando.

- Eu não tenho como suportar mais!

- Nunca te enganei.

- Eu também nunca precisei da sua ajuda pra isso.



Quinto dia – Adágio do Horizonte na Curva da Esquina

No quinto dia, ela descobriu que apenas o corpo se parte, mas o espírito jamais se recobra. Como toda memória, a da pele também mora entre a solidão e a necessidade, no fundo do armário da mente. Sobre seu parapeito favorito, ela filosofa 19 latinhas de cerveja sabendo que, depois da rua, a casa nunca mais será a Casa. O parapeito estará sempre ali, frio, pedra, branco, contudo não dá pra subir no lugar seguro e aconchegante sem ver a rua todas as vezes. E, ainda que as patas e unhas doam rigorosa e concisamente só de pensar, ela tem certeza, a ponto de jamais ter hesitado o pensamento, certeza absoluta de que pularia de novo, se ele... Ah, se ele.

- Você não vai passar por aquela porta e pronto.

- Me deixa ir. Não brinca assim, me deixa ir...

- Fica, não vai, fica comigo. Fica.

- Me deixa ir, vc não pretende, e é mais do que eu agüento, eu vou... eu tenho...

- É só até amanhecer. Isso, assim, vem cá, me beija agora. Não chora. Ssshhh. Dorme. Quando acordar, eu não estarei mais aqui.

2 comentários:

Sylvia Araujo disse...

Shhhhhhhhhh

Acordar no silêncio interminável é que vai ser a merda federal.

Szegeri disse...

Que saudade...

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