domingo, 19 de março de 2006

***

And since you know you cannot see yourself,
so well as by reflection, I, your glass,
will modestly discover to yourself,
that of yourself which you yet know not of.

William Shakespeare

sexta-feira, 10 de março de 2006

Procura-se

Coisas que só acontecem comigo: ganhei de presente e quem me deu pediu de volta!! :)
Eu sei, eu sei, tá esgotado...

Ficção Completa de Guimarães Rosa
Nova Aguilar.

quarta-feira, 8 de março de 2006

Cause and effect


Charles Bukowski

the best often die by their own hand

just to get away,

and those left behind

can never quite understand

why anybody

would ever want to

get away

from

them

terça-feira, 7 de março de 2006

Enteléquia ou Juris et de jure

...eu juro que eu não queria que fosse assim, sempre foi tão importante na minha vida, me faz uma falta absurda, mas e quando sou eu que canso, quando sou eu que não agüento mais, quando sou eu que desmorono, quando a voz não alcança nem pedir socorro, quem vem com riso doce me abraçar, quem me faz rir de piada besta, quem me conta causo esdrúxulo, quem me põe pra passear em carrossel de canudinho, com guarda-chuva e tudo, quem me cobre de promessa, quem me abandona sozinha no exercício do fim-do-mundo, quem me só tem pena, eu sei, eu sei que essa é que sempre foi a verdade, o tal atual presente com sabor antigo tão distante agora é que era fantasioso, imagina, interessado no que eu dizia, sendo amigo de uma pessoinha tão pequena, desinteressante, incompetente, dismórfica, tou pra ver projeto mais mal-feito e errado do que eu, e sempre foi lindo, até quando ainda não era lindo era, sempre teve sorriso de abraço e olho de vaga-lume, lume, lume, vago na memória, se meu irmão tivesse aqui me respondia, que ele era elegante, e ia saber contar direitinho tudo da frente pra trás, capaz até de ouvir dele o que não conseguiria ouvir de ninguém, e pior que eu errei foi tudo, quando achei demais me disse foi de menos, quando achei de menos me acusou de desmedida, quando fiquei quieta fui estranha e quando estrilei era tarde, e, faz favor, o título, poupe a ladainha.

Estás, meu amigo, coberto de razão, isto é um fato, porque ao contrário do teu coração enorme, que ainda consegues fazer crescer mais e mais a cada dia, ao contrário do teu, o meu desaprendeu de todo.

Eu nunca esqueço nada.




sábado, 7 de janeiro de 2006

ARTROSCOPIA

Aldir Blanc

Para Bel e Mariana, dupla de área

Ninguém faz mais arte
do que as articulações.
As minhas, por exemplo:
bastante arte, muitos cus,
poucas ações.
Espia só o joelho:
o espantalho do corpo,
o homem-lata de Oz,
o joelho é retrógrado
e atroz.
Diz que é pra frente.
Mente.
Joelho é reacionário,
dá pra trás,
encrenca,
trava.
Irado,
sempre com pressa
(da Alice, o Coelho?)
ou parado.
Art(r)ista do destrambelho,
não é joelho:
é pentelho!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

GUARDE UM DIA DE SOL

Carta Vieja, Syrah, Chile. 2002.

Dentro da taça o vermelho escuro cintila.
Desceu e subiu as escadas da casa vazia centenas de vezes, procurando um não-sei-quê. Ia olhando as paredes como se, de dentro do branco fastioso e hipnótico, fosse ver projetado um filme, em super-8, lembrando o tempo em que foram felizes juntos, só os dois. E agora, José, meu Deus, meus sais, minha nossa, e agora?
Na segunda taça, revirou pilhas de CDs, procurando, procurando... silêncio. Não tinha lamento compatível pra ser trilha de tanta dor. Lembrar de comprar trilhas de filme, são boas nessas horas.
Na terceira, discou o mesmo número umas cinco vezes. Só tentou realmente completar a ligação na última vez e ainda assim desligou antes de saber se ia chamar, se ele ia atender, se o maldito ia tocar ou não.
A quarta taça atinou a pergunta... a garrafa vai toda? E se não for, como guarda isso? Tá um calor, se sobrar é melhor pôr na geladeira, junto do Gatorade.
A quinta taça entornou um pouco na hora de servir, porque o tal super-8 piscou na parede. Era uma cena besta, que provavelmente nem aconteceu. Os dois riam, muito, muito, aos cochichos, enquanto sombras em volta faziam pequenos muxoxos e gozavam da falta de graça da piada que só os dois entenderam. O mesmo riso cúmplice ganha outro fundo e são os dois na beira de uma lagoa, cor de sépia e em dia de sol. O filme teimava em travar quando as lágrimas desciam e ela evitava a todo custo chorar, engolindo a ausência pra não perder a graça daquela cena infantil que era a cara do amor dos dois.
Na sexta taça ela simplesmente quis morrer. O despertencimento, que é, reparem bem, categoria totalmente distinta da perda, porque esta passa e o outro se arrasta pra sempre, faz parte de seu sempre. E se ele esquecer do Pequeno Príncipe e largar o coração dela por aí, numa mesa de bar ou noutro engano qualquer? O coração já tão castigado, coberto de hematomas e lanhos, vai parar certamente de bater.
Na sétima taça, chorou tanto, quis colo, acendeu dois cigarros ao mesmo tempo e deixou os dois queimarem inteiros e teve que acender um terceiro, sofreu, não pode, não pode...
Encheu a oitava taça e pensou que se ele guardasse desse amor um único momento que o fizesse sorrir com aquele conhecido calorzinho no peito, não teria sido tudo em vão. Pegou papel e caneta, escreveu um bilhete: “Guarde um dia de sol”. Colocou num envelope, com uma das muitas fotos guardadas dos dois, sempre cheias de tanto bem-querer. Desenhou uma rosa vermelha na frente e deixou sobre a cama. Serviu-se da nona taça, que bebeu aos soluços pra conseguir engolir todos os comprimidos tarja preta do estoque mantido na escrivaninha, segunda gaveta da esquerda, de baixo pra cima.



Jamais comente o passado, siga os conselhos de Dalva.
Não há xampu, não há creme, que apague ou que desmarque
da tua pele o meu beijo fedendo a conhaque...

(Dois bombons e uma rosa, no CD Vida Noturna, de Aldir Blanc)


Telegrama
Toledo, diz pro Marco Aurélio e pro Miguilho que o CD não pára de receber elogios. Eu sei que vcs estão tão orgulhosos como nós estamos. Eu amo vocês. Beijos pro Roberto, vê se faz chegar também pro Ronald e pro Gilberto. Fala pra Dona Helena que o cara é foda e que as rezas continuam chegando sempre, como não poderia deixar de ser. Té já.

VIDA NOTURNA

Como não consigo postar imagens, veja capa, listagem, links, matérias e fotos de estúdio em http://branca.multiply.com
Divirta-se! ;)

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Qual o diretor do filme da sua vida?


Quentin Tarantino

Your film will be 53% romantic, 29% comedy, 44% complex plot, and a $ 43 million budget.

Wow! What a life you have led thus far! Action-packed, anti-social with probably dark humor. Quentin hasn't really made many films, but each successive one is a bigger and grander project ... and more violent. Karate CHOP! Your life story will probably star Michael Madsen, Uma Thurman, or some TV or movie star from the 1980s for which your film will be the comeback -- let's say Emilio Estevez. Maybe. Now that the QT is dating Sofia Coppola, maybe he'll get some tips about putting some lump-in-the-throat romantic moments in his films. Quentin's short directing resume includes Reservoir Dogs, Pulp Fiction, Jackie Brown, and Kill Bill Vols. 1 & 2.












My test tracked 4 variables How you compared to other people your age and gender:
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You scored higher than 52% on action-romance
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You scored higher than 30% on humor
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You scored higher than 70% on complexity
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You scored higher than 77% on budget




Link: The Director Who Films Your Life Test written by bingomosquito on Ok Cupid, home of the 32-Type Dating Test

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Té logo, Roberto...

Eu não agüento mais. Esse ano precisa acabar. É o quarto amigo que se despede em menos de seis meses. Chega...


http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=1222


O adeus a Roberto Moura

José Reinaldo Marques
27/10/2005



A mensagem de Tereza Cristina comunicando — “com uma dor profunda no coração e na alma” — o falecimento do marido, Roberto M. Moura, e convidando para o velório no Memorial do Carmo pegou de surpresa os amigos do jornalista, que, aos 58 anos, morreu ontem no Rio, vítima de dengue hemorrágica.

Sócio número 1.672 da ABI, onde ingressou em 1977 e também era membro efetivo do Conselho Deliberativo, Roberto Moura faleceu às 20h no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde havia sido internado.

Além de sua mulher, do casal de filhos e outros parentes, compareceram ao funeral de Roberto, no Cemitério do Caju, dezenas de amigos, alunos e ex-alunos das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), jornalistas e representantes da ABI, como o Presidente da entidade, Maurício Azêdo; a Diretora de Jornalismo, Joseti Marques; e os Conselheiros Sérgio Cabral, Amicucci Gallo, Domingos Xisto e Chico Paula Freitas. Joseti Marques lamentou a perda do amigo e lembrou que o diagnóstico de dengue hemorrágica deve levar os jornalistas a se empenhar em uma pauta investigativa para saber como foram empregadas pelo Estado e o Município as verbas do SUS destinadas à prevenção de epidemias da doença, que geralmente ocorrem no verão:
— Perdemos o Roberto, que era nosso amigo querido, mas temos que continuar nos preocupando com aqueles que não conhecemos e dos quais o jornalismo se ocupa.

Também estiveram presentes músicos, produtores culturais, pesquisadores e professores — entre eles a museóloga Lygia Santos, filha de Donga, e o jornalista José Carlos Rego, ambos membros do júri do Estandarte de Ouro do Globo, que Roberto integrou por 28 anos; o compositor Sílvio da Silva Júnior; o violonista Cláudio Jorge; e Moacyr Luz, que comentou:
— Eu teria muitas coisas para falar do Roberto, inclusive menciono no meu livro (“Nos butiquins mais vagabundos”) que ele foi o primeiro jornalista a citar meu trabalho como compositor. Era um grande amigo de bar, de samba e de projetos. Fizemos vários trabalhos juntos, como “O samba falado”, e atualmente ele estava cuidando do roteiro do show de lançamento do meu CD “Voz e violão” e do projeto “Sedução e voz”. Acima de tudo, Roberto era meu companheiro de toda hora, vou sentir muita falta desse parceiro que era a cara da cultura do Rio.



Muito emocionado, Sérgio Cabral exaltou o trabalho de Roberto Moura como pesquisador da MPB:
— Era um brilhante analista da nossa música e da cultura popular de maneira geral. Roberto conhecia o tema e escrevia sobre ele com absoluta profundidade.

Roberto M. Moura foi diretor de espetáculos, produtor e crítico musical. Atualmente, além de dar aulas nas Facha, era comentarista de programas da TV Educativa e colunista do ABI Online e da Tribuna da Imprensa. Mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Doutor em Música pela UniRio, escreveu os livros “Carnaval — da Redentora à Praça do Apocalipse” (Jorge Zahar, 1986); “MPB — Caminhos da arte brasileira mais reconhecida no mundo” (Vitale, 1998); “Praça Onze — no meio do caminho tinha as meninas do Mangue” (Prefeitura do Rio/Relume Dumará, 1999); “Sobre cultura e mídia” (Vitale, 2003); e “No princípio, era a roda” (Rocco, 2004).

Para Iris Agatha, que foi sua “foca” no Diário de Notícias e colega no jornal Última Hora e na Rádio MEC, Roberto Moura foi “um grande mestre de brasilidade”. Para a também jornalista Zilmar Basílio, que foi aluna de Roberto na Facha, “esse carioca da Praça Onze fez da sua vida uma grande contribuição para a cultura da cidade do Rio de Janeiro e deixou marcas importantes dessa mesma cultura para o nosso País”.

domingo, 23 de outubro de 2005

SIM OU NÃO SEM TALVEZ

E que ninguém se engane: quem venceu não foi uma frente parlamentar, um publicitário competente, uma campanha agressiva, o conservadorismo, a direita, nem foi a esquerda que perdeu, nem uma campanha arrogante que jogou tudo por água abaixo, não foi a derrota da paz.
Esse referendo marcou a vitória do ruído.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

**suspiro**

Luís, o Filipe, mandou do Luís, de Camões e, pra variar, mesmo no escuro acertou em cheio.

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

sábado, 8 de outubro de 2005

Puxadinho

O Cartas ganhou um puxadinho em http://branca.multiply.com
Lá tem álbum de fotografias, faixas dos textos com trilha sonora e outras coisitas más.
Divirtam-se.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

What kind of kiss are you?

entrancing
You have an entrancing kiss~ the kind that leaves
your partner bedazzled and maybe even feeling
he/she is dreaming. Quite effective; the kiss
that never lessens and always blows your
partner away like the first time.

What kind of kiss are you?

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

À VIDA NOTURNA

Hugo Sukman
02/10/2005


Aldir Blanc grava disco e retoma histórica parceria com João Bosco

Quando João Bosco chegou ao estúdio o Aldir já estava lá. E também o Helinho com seu violão, o Cristóvão ao piano e o Mello, lápis, papel e prancheta em punho, desenhando tudo para uma futura capa.

Lá pelas tantas, depois de uns uísques já tinha até nego vendo a Elis lá, ouvindo tudo num canto, ou o falecido poeta Paulo Emílio chorando em outro, enquanto João e Aldir mandavam o samba em sua homenagem: “Eu gosto quando alvorece/Porque parece que está anoitecendo/E gosto quando anoitece que só vendo/Porque penso que alvorece/E então parece que eu pude/Mais uma vez outra noite, reviver a juventude/Todo boêmio é feliz/Porque quanto mais triste/Mais se ilude...”.

Não, isso não aconteceu em 1977 quando, no auge de sua parceria com Aldir Blanc, João Bosco gravou esse samba, “Me dá a penúltima”, no disco “Tiro de misericórdia”, com Hélio Delmiro na guitarra, Cristóvão Bastos ao piano e capa do artista plástico Mello Meneses (Elis Regina, principal intérprete da dupla, provavelmente passou no estúdio para visitar; Paulo Emílio, parceiro de João e Aldir, estava sempre por lá...).

Aconteceu, tudo inacreditavelmente como antes, ao anoitecer da última quinta-feira, num estúdio em Copacabana. Aldir Blanc gravava seu primeiro disco solo como cantor e seu parceiro João Bosco chegou para fazer uma participação. Ia cantar com Aldir e tocar, como fez, o samba- canção que dá título e conceitua o disco, “Vida noturna” (do LP “Galos de briga”, 1976). Mas veio de casa com essa surpresa, um arranjo novo de “Me dá a penúltima”, que acabou entrando no disco e fazendo todo mundo chorar ao fim da gravação rápida, impecável, de primeira.

— Depois dessa estou no limite emocional — confessou Aldir, do cubículo oculto no estúdio onde ficava seu microfone, ecoando o sentimento geral.

CD privilegia o cantor Aldir

Limite emocional viu-se a partir dali. Finda a gravação, João informalmente pegou o violão e surpreendeu a todos cantando a primeira música que ele e Aldir fizeram juntos após 20 anos da interrupção de parceria e amizade mais lamentada da história da MPB e que agora reencontrou de vez o prumo.

Trata-se do magnífico samba-canção “Mentiras de verdade” (letra ao lado), sobre a parceria dos dois, a briga e finalmente o reencontro. É primeira música que os dois fazem juntos desde a épica “As minas do mar”, de 1983 e lançada só em 87. “Quero esquecer de mim, ser mais você, menos do que eu...”, confessa Aldir, numa homenagem a essa forma de amor fraternal chamada parceria.

— As nossas parcerias transcendem o negócio da música — dizia Aldir, na conversa solta entre ele, João e seu mais constante parceiro atual, Moacyr Luz, aliás produtor e idealizador do seu disco solo. — Eu sou profundamente ligado aos meus parceiros. Se eu pudesse resolver a dor nas costas do João ou a dor na barriga do Moacyr, renunciando para isso a tudo que nós fizemos em música, eu não vacilaria um minuto.

“Mentiras de verdade”, que tem direito até a elegante citação a Tito Madi (“Mentira, foi tudo mentira...” ) não está no disco que Aldir acabou de gravar ontem. Estará junto com outras parcerias novíssimas da dupla, no CD de inéditas que João grava em fevereiro para o selo independente MP,B.

“Vida noturna”, o disco de Aldir, sairá ainda este ano pela Lua Discos, gravadora paulista que lança os discos de seu parceiro Moacyr Luz. A idéia de Moacyr, como o samba-canção-título indica, nasceu do convívio boêmio com Aldir.

— A gente tem a idéia desse disco há muito tempo — explica Moacyr ainda com a voz embargada pela experiência da gravação. — Quando todo mundo vai embora no fim da noite, vem o Aldir e pega o violão. E caramba, meu Deus, que histórias que ele canta. Histórias de noite, de chão. Aquele troço inusitado e espontâneo que há aí tinha que ser registrado.Além de “Vida noturna”, “Me dá a penúltima”, “Cordas” (com Guinga, já gravada por Leila Pinheiro), o bolero “Causa perdida” (com Rosa Passos, regravada por Alcione) e o clássico “Resposta ao tempo” (com Cristóvão Bastos, sucesso de Nana Caymmi), todas as outras músicas são inéditas. E inéditas de Aldir e parceiros muito em forma, o que fez João Bosco, depois de ouvir as novas músicas de Aldir, arriscar uma análise da obra do parceiro.

— O Aldir canta as histórias que ele inventa como ninguém — dizia João. — Ele observa o mundo que está em volta dele, a vida que está acontecendo e nada escapa ao Aldir. Ele faz isso com um brilhantismo de quem não teme a morte. Ele canta a vida o tempo todo e só utiliza a morte quando precisa dela para fazer um verso. A morte para ele é o trecho de uma calçada onde ele cai. A morte coincide com o paralelepípedo e é apenas um detalhe do cenário. Ninguém mais consegue escrever com essa total liberdade de alguém que não teme nada.

João se refere a coisas como o desmedido amor contido em “Dois bombons e uma rosa”, letra e rara música de Aldir, que diz: “Não há xampu, não há creme/Que apague ou que desmarque/Da tua pelo o meu beijo/Fedendo a conhaque”. Ou do soco-no-estômago “Lupicínica” (parceria com Jayme Vignolli) e seu cheiro de morte ao relembrar um amor por uma enfermeira do Salgado Filho “com a chama vital de Ana Karenina”: “Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes/Não teve sequer um calmante pra dor sem remédio/Que aflige os amantes”.

— Essas coisas acontecem num mundo blanquiano, único — diz João. — Essa poesia, essa generosidade, essa visão de mundo, essa loucura que mistura Tolstoi com esparadrapo, tudo isso é ele. E quando ele canta, canta assim.

Os parceiros, mesmo desfrutando da intimidade de ouvir Aldir cantar nas rodas boêmias, surpreendem-se de como ele está cantando bem.

— O Aldir nem precisava cantar como um cantor, ele é um criador e tudo se resolve a partir daí. Mas ele cantou como nunca vi em todos esses anos de convívio — testemunha Moacyr, emocionado com o fato de estar dando esse presente ao parceiro.

Mocyr concebeu um disco só de piano (sempre Cristóvão Bastos) e violão (normalmente João Lyra, mas com participações de Hélio Delmiro, Guinga e João Bosco nas suas composições), valorizando as músicas e o universo blanquiano. Como a primeira e histórica parceria de Aldir e Hélio Delmiro, “Constelação maior” (letra ao lado), uma lírica ode amorosa ao seu cachorro.

Aldir só gravara outros dois discos na vida, o histórico álbum duplo em parceria com Maurício Tapajós em 1985 e o CD comemorativo aos seus 50 anos em 1996. Emocionado depois de quase enfartar ouvindo o solo de Hélio Delmiro, Aldir tenta explicar por que resolveu sair da toca.

— Eu fiz 59 anos e tenho alguns problemas de saúde. Ao mesmo tempo minha vida nunca teve tanta beleza. Eu nunca gostei tanto de uma mulher como eu gosto da Mary (Sá-Freire, sua mulher há 20 anos, que chorava ao lado enquanto Aldir dizia isso). Eu gosto muito mais das minhas filhas, eu vejo também as duas que morreram em volta de mim. Eu tenho quatro netos que me suavizaram em relação a coisas que principalmente o João conhece bem, que é uma agressividade terrível. Eu fiz questão de vir aqui gravar o disco para que tudo isso não se perca.

Aos 59 anos, Aldir começa uma nova vida no auge da sua poesia e de sua voz, cercado pelos parceiros, até mesmo o que era impensável há tempos atrás, João Bosco. Os dois são prova de que sempre se pode começar vida nova.

Jornal: O GLOBO
Editoria: Segundo Caderno
Página: 1
© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

Do disco novo do Aldir

Amei
uma enfermeira do Salgado Filho,
paixão passageira, sem charme nem brilho,
roteiro batido, romance na tarde.

E aí, numa seresta na Dois de Dezembro,
me perguntaram por ela: “- Nem lembro...”,
eu respondi com um sorriso covarde.

Ouvi - que bofetada! - “Morreu duas vezes.
Uma aqui e agora, a outra há seis meses”.
Balbuciei: “- Morrida ou matada?”

“- Depende do seu conceito de assassinato.
Um pobre amor não é amor barato.
Quem fala de tudo não sabe de nada.”

II
Na rua do Tijolo, bloco 5, aquele de esquina,
morou uma enfermeira com a chama vital de Ana Karenina.

Dirá um dodói que Tosltói era chuva demais pra tão pouca planta.
Ô trouxa, heroínas sem par podem brotar na Rússia ou lá em Água Santa...

Aquela mulher que dosava o soro nas veias dos agonizantes
não teve sequer um calmante pra dor sem remédio que aflige os amantes.

Por mais que a literatura celebre figuras em vã fantasia
ninguém foi mais nobre que a Pobre da Enfermaria.

LUPISCÍNICA (Dedicada a Valmir Gato Manso) Jayme Vignoli / Aldir Blanc




Tenho um fiel companheiro
que vigia meu lar.
Tantos me dirão: quem é?
Mas não vou nomear.
Ele é bonito
e a minha garota
o recebe em seu leito
Eu mesmo às vezes
abro mão do orgulho
e com ele me deito.
Assim é o amor que ignora
simplórias fronteiras.
O bom-bocado conhece a medida do fel.
Ciúmes tenho mas eu renuncio.
Coisas maiores existem entre os três:
sabor antigo pela primeira vez...

CONSTELAÇÃO MAIOR, de Hélio Delmiro e Aldir Blanc



Assoviei, fingi à beça,
fiz promessa e o amor não some
Criei um muro e a mesma fome
morde os braços do adeus.
Com a boca eu me despedi,
minhas mãos desdisseram: não, não...
“Mentira, foi tudo mentira,"
você me enganou
Verdade, foi tudo verdade,
eu hoje admito:
somos um mito, sim,
maldade e carinho
ternura sem fim,
num laço,
coleira de cetim...
Quero esquecer de mim,
ser mais você, menos do que eu.
Verdade e mentira que o amor entre nós reviveu
— E um breque é coisa nossa num samba-canção porque...


MENTIRAS DE VERDADE, João Bosco e Aldir Blanc

sábado, 17 de setembro de 2005

Sagração à inteligência

(para Fernando Toledo)
Áurea Alves

Poderiam meus braços ser mais longos a ponto de se estender por 420 km e alcançá-lo. Poderia o livro do lado tê-lo prendido por mais alguns minutos. Poderia um amigo tê-lo chamado para discutir literatura russa ou a dicotomia existente no ambíguo mundo das HQs. Talvez um novo invento, a reinvenção do País, talvez algo pudesse mudar. Talvez a força de um super-homem virando o mundo e o tempo, no supra-sumo da imaginação, movido pelo amor piegas e pela ignorância completa da Física. Talvez apenas eu pudesse gritar-lhe o nome avisando que chegara para encontrá-lo.

Poderia apenas contê-lo eufórico diante do microcomputador para escrever um artigo sobre Mahler ou James Joyce. Talvez um chamado, o gritar de alguém, pudesse acordá-lo, ineditamente, como nunca precisara acontecer antes. Talvez o menino que aprendera a ler Edgar Alan Poe aos oito anos não pudesse mais retornar. Talvez.

Era certo que andava feliz e trabalhava como louco. Era certo que tinha ao lado a companheira que o respeitava e o enxergava como o homem de sua vida, o grande homem que era. Era certo que sabia ser da mulher o que ela esperava dele - tudo, nem mais um pouco. Sabia beijá-la na hora certa e tomá-la livre, sabendo-se dela.

Era certo que tinha uma inteligência anormal e que - mais que tudo - amava o bom uso desta qualquer que fosse o ambiente em que se encontrasse. Era certo que domesticava a alma lendo desesperadamente. Não temia demonstrar seu conhecimento, compartilhando-o com o mundo: tinha orgulho de saber-se.

Era certo que pensava em fazer um chek-up e deixar o cigarro.

Era certo que por sua cabeça passavam as grandes piadas, próprias das pessoas que não são amargas. Era certo que seus livros, grandes amigos, eram especiais cúmplices e professores em sua pós-graduação e doutorado fora das amarras, dos calendários e dos programas da Academia.

Era certo que seu ouvido aguçado, a ponto de não incomodar-se com a rotação fora de ordem de um toca-discos, sabia filtrar as diferenças e identificar a voz cristalina de Ella Fitzgerald e os legatos de Louis Armstrong. Era certo que me amava e chorava por mim ouvindo George Gershwin e Pixinguinha.

Fernando Toledo morreu aos 37 anos, atropelado por um ônibus, quando chegava em nossa casa, na Tijuca, Rio de Janeiro. O acidente provocou a fratura de seu crânio e, ironicamente, seu cérebro nunca mais funcionou. O hemorragia, que os médicos não conseguiram conter, poderia traduzir-se como o implorar de seu sangue para recuperar a antiga função dos neurônios, pois Fernando tinha nas veias o desespero de conhecer e amar.

Foi meu grande companheiro de longas conversas, de textos e trabalhos e de uma jornada amorosa de 1127 dias inesquecíveis. Perdi sua voz, perdi seus gestos e sua emoção incessante, mas não perdi sua memória e é a ela que dedicarei minha vida. Isso é certo que eu poderei.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Palavra de Mulher



De: Chico Buarque
Canta: Selma Reis
(não, não adianta procurar... quem não ouviu ao vivo, só pode torcer pra que ela grave. )

Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar para trás
Palavra de mulher, eu vou voltar

Posso até
Sair de bar em bar, falar besteira
E me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar

Vou chegar
A qualquer hora ao meu lugar
E se uma outra pretendia um dia te roubar
Dispensa essa vadia
Eu vou voltar

Vou subir
A nossa escada, a escada, a escada, a escada
Meu amor eu, vou partir
De novo e sempre, feito viciada
Eu vou voltar

Pode ser
Que a nossa história
Seja mais uma quimera
E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar

Pode ser
Que passe o nosso tempo
Como qualquer primavera
Espera
Me espera
Eu vou voltar

Réquiem para um girassol

Fausto Wolf

(como prometido, o lindo texto escrito pro Fernando e publicado no JB.)

Quando um homem mete na cabeça que quer fazer papel de idiota, dificilmente alguém pode obrigá-lo a mudar de idéia. Isso aconteceu comigo, quando fui convidado pelo PDT para disputar uma cadeira de deputado federal em 1990. Pedi dinheiro ao partido e disseram-me que eu tinha de dar-lhes certa quantia em dinheiro - mil dólares se não me engano - em troca de alguns bônus que eu me encarregaria de vender. Desisti na hora e, diante disso, eles desistiram de me cobrar a grana.
Só estou falando nisso porque no meu único (sei do cacófato) comitê na Rua da Lapa, 24, o Madame Satã, vinha muita gente trabalhar de graça. Um deles era um rapaz magro, desengonçado, voz característica, pois engrolava os érres, cabelo encaracolado, que parecia estar sempre de bom humor. Não devia ter mais de 20 anos. Ele ficava no comitê e distribuía material, instruía eleitores que quisessem me ajudar. Entre um comício e outro - sem que ele visse - ouvi-o explicar claramente a mais-valia e seus efeitos a um grupo de operários. Ficamos amigos e ele - como mais uma meia dúzia de moças e rapazes - tornou-se uma espécie de filho emprestado.

Eu e Fernando, este seu nome, jamais deixamos de manter contato. Nesse meio tempo, ele se casou com Áurea Alves, como ele, uma das maiores estudiosas de música do Brasil.
Autodidata, falava várias línguas e escrevia muito bem. Para dizer a verdade, ele estava entre os dez jornalistas que melhor escrevem neste país. Quando leu Joyce, foi paixão à primeira vista e não conheço ninguém que conhecesse melhor os truques literários do grande escritor irlandês. Porrista como o autor de Ulysses era coisa que Fernando também era, mas seu porre tinha uma alegria calma. Continuava inteligente. Gostava mais de escutar, sempre olhos fixos nos teus e um sorriso que demonstrava o incrível prazer que tinha em aprender algo novo. Era um prazer dar qualquer coisa a ele - de um chope a um livro - pois parecia que você estava sempre lhe dando o mundo. Morava na Lapa e o dinheiro lhe era de pouca serventia, pois o usava apenas para pagar suas contas, comprar suas canas e seus livros.
Atrás daquele garoto com cara de nerd gozador havia um grande filósofo encontrável, aliás, na resenha que publicou neste Caderno B, no dia 27 de julho último, sobre um livro menor de Herman Melville, Bartleby. Trata-se de um escrivão de Wall Street que descobre a mediocridade da vida que leva e começa a se recusar a fazer tarefas sem dar justificativa a não ser que a tarefa não lhe agrada. O homem negando-se a permitir que o transformem num objeto. Este era o Fernando. O que aos outros preocupava - sucesso, dinheiro, boa vida - estava em terceiro plano para ele. Um dia telefonou-me da Finlândia. Fora fazer um curso de projetista de instrumentação meteorológica para aeroportos. Explicou-me que era um trabalho que não o obrigava a pensar fora das horas de trabalho. ''O resto do tempo é para ler, escrever e ouvir música e beber.'' Não tinha um inimigo porque não discutia bobagens. Uma vez por mês bebíamos e eu tomava conhecimento dos seus progressos literários. Um gênio, tinha um cérebro privilegiado, um bom coração e não mentia nunca. Confirmação viva da minha teoria de que, se lhe derem o básico, o homem será feliz, pois nasceu para isso. Pretendo encontrar um editor para sua obra. Será o nosso grande póstumo.
Nos últimos anos perdi alguns dos meus melhores amigos - Albino Pinheiro, Elmar Machado, Ferdy Carneiro, Silvio Redinger, Jurij Moskvitin. Estes, porém, já haviam se preparado para a visita da sinistra senhora. Fernando Toledo morreu aos 37 anos, uma semana atrás. Às nove horas da noite. Três dias antes, fora atropelado na Muda por um irresponsável em alta velocidade. Conversei com ele em seu coma. Não respondeu. A morte levou um homem que tornaria qualquer rua, qualquer cidade do mundo um lugar melhor para se morar, um criador. Talvez houvesse descoberto coisas que não interessava ao Infinito revelar. Por isso o levaram. Como quem corta um talo de girassol com uma espada.

sábado, 10 de setembro de 2005

CORRICANDO NO RECANTO

ILHA GRANDE – PARTE 1

Então.
Aí meu pai fez aniversário na semana passada. E a Dodô, uma pessoa que eu costumava considerar pelo menos razoável, inventou uma viagem pra juntar o Hospício Blanc com a Turma da M.A.R.I.A. (Magnificante Agremiação Realizadora de Içamentos Alcoólicos).

Sempre pensei que a maior reunião de malucos do universo estava ou no Estephanio’s ou na minha casa. Enganei-me nas duas. Nunca tinha visto nada parecido e olha que eu já fui pra tudo quanto é canto nas piores companhias – espécie de péssimo hábito disfarçado em causa humanitária – mas desse jeito... impossível. Na escala de insanidade:

(na foto: Roberto, Basile, Aldir e Ivan)

Roberto, o anfitrião: o dono da Pousada Recanto das Estrelas é o louco-mor, por ter aceito receber essa turma. Construiu uma linha de defesa formada por Bárbara, doce Bárbara, e os funcionários Rose, Franklin e Luciana, zagueirões à antiga pra fazer frente ao ataque dos hunos. Professor emérito da nossa oficina de Gargalhada para Agradar o Sogro.

Aldir, o desversariante: a-do-ra essas datas... Mesmo assim, pintou e bordou. Fez serenata de madrugada, dançou fados, polcas e outras menos conhecidas. Ficou emocionado quando descobriu que a travessia Mangaratiba-Abrahão seria feita na barca Lagoa, a mesma que tantas vezes o levou na adolescência para Paquetá, e por pouco não acabou com o Jack Daniels que abasteceria três dias de viagem. Na viagem de volta, tentou seqüestrar o filho de uma desavisada e perplexa criatura.

Dodô: imbuída do espírito coordenador 24 horas por dia, organizou todo o passeio, os horários, a van, o pagamento, a divisão dos quartos, a cota de vodka e de porções do churrasco pra cada um, a cor das camisas do Franklin pra melhor combinar com a decoração dos quartos, a distribuição das bolas de soprar pelas crianças por cor, o método de feitura do arroz, os horários de dormir do Basile e, num momento de maior tumulto, por pouco não convenceu o Sérgio Touro a trocar a Gilda pelo Eduardo Gordo.

Ivan, o terrível: pescador incansável, foi de corrico do continente até a pousada, passando inclusive pelos paralelepípedos da vila. Dizem que só conseguiu mesmo pescar o Basile, seu companheiro de quarto. Teve um ataque de espirros que nos fez rir durante hora e meia. Imagina um sujeito desse tamanho que espirra assim: Aaaa...fiiissssss... Céus. Olha ele aí na foto ao lado, corricando tranqüilamente sob o céu de deputado!!

Mello Menezes: autor de diversas façanhas famosas, conseguiu acrescentar outras tantas ao seu invejável currículo. Pouco depois de ingressarmos na Lagoa, com uma inacreditável imitação de apito, Tio Mello fez tripulação e comandante baterem cabeças (início de tumulto, passageiros correram, duas caixas de tangerina caíram no mar, houve disputa de salva-vidas, tendo o Ivan conseguido apenas, e com algum custo, pôr um em cada pulso). Acabou provocando prematura partida da barca. A Capitania dos Portos instaurou inquérito investigativo tentando esclarecer o mistério. E eu não tenho isso filmado porque sou uma azêmola...

Basile: recebeu do Mello o carinhoso apelido de “Tia Ciata”, tanto por seu vastíssimo repertório quanto pelo... ahn... conjunto da obra, eu acho. Sempre um dos primeiros a acordar e um dos últimos a dormir, na maior disposição. Campeão do TIPS, Torneio Intermunicipal de Puxa-Saquismo. Segundo Isabel, presidente do comitê de organização do torneio, a vitória deu-se pelo singelo placar de 1.437 X 15 do segundo colocado.

No quesito façanhas coletivas, a melhor aconteceu na noite de sábado, quando nosso heróico anfitrião foi surpreendido pelo contingente de segurança pública da Vila do Abrahão, formado, na verdade, por um único guarda. Perturbação da ordem, muita reclamação dos vizinhos... enfim. Até num lugar desse, a Turma é caso de polícia!

[Aguardem os próximos capítulos. ]

terça-feira, 6 de setembro de 2005

DAS PARTES E DO TODO

Quem sabe se, pagos alguns de meus silêncios, eu pare de ouvir a voz que me cobra incessantemente ter saído do único lugar onde não me faltam tantos pedaços...

PS: a revisão tornou-se uma impossibilidade etílica. Queixumes para a redação.

SINFONIA DE BEM-TE-VI

O pai da moça sempre foi assim: arredio, estranho, malcriado, genial, chorão, egoísta, ensandecido, amantíssimo, devotado, fiel, imprevisível, brilhante, teimoso feito uma porta. O pai da moça imita bem-te-vi, bem que mal, mas tão bem que ela nunca viu igual. O pai da moça faz uma falta absurda... sumido no meio dum sertão árido de incongruências, deixou de dar conta de tanto amor. Culpa nenhuma. Culpa dela, que sempre foi maluca. Por ele, verdade, mas maluca. Todo dia faz falta o peito do tamanho dum continente, pêlo de barba com sorvete de flocos e restos desindentificáveis, um cheiro meio doce e azedo, sola de pé que nunca fica limpa, taça de cristal da bisa, Monteiro Lobato pintado de lápis-de-cor, mofo com cerveja, saudade do bisavô-vô-pai gigante, turno na janela de madrugada, abrir a porta pra ver se tá bem fechada, Condessa de Smirnoff, bisavó já morta dentro do armário, porta de ferro com janela de treliça... “O sabiá sabia já”: Bem-te-vi, tanto bem, bem de longe, bem de perto, bem toda hora-toda, bem pra mim, bem-te-vi pra sempre...