domingo, 2 de maio de 2010
DEFENSORIA
Não lamente o que não viu sangrar.
Não ressinta o que jamais restou,
não me peça um pouco mais do que acabou...
Não ajunte os sentimentos maus,
Não desminta o bem que me negou.
Esqueça de outro verso do passado,
Ponha a culpa de lado,
Apague o que passou.
Cerre os dentes, em silêncio,
Engula a raiva
De me ver acalentada
Noutro amor sem ser o teu.
Foi pouco, foi por pouco,
Quase nada.
E agora, acostumada, sigo a estrada.
Mas já sei
O castigo, o pior,
O mais antigo:
No couro em que nascer, o asno há de morrer.
São cores, são dores,
Do amor que não me deu.
São flores, amores
Que jamais terás nos braços meus.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Uma Canção Inédita
Dentro do seu coração
Guarde esta canção inédita
Que num cantinho intocado
Será pra sempre inédita
Pode tudo consumir
O tempo que passa feroz
Mas esta valsa há de deixar pra nós
Fiz uma canção discreta
Só para você
Ninguém pode saber da letra
Que você lê
A música você desfruta
Os ouvintes não
Penetra a orelha e sai por outra
Cada refrão
Se outro amor surgir um dia, a valsa perde o ar
Definha
Mas se você descabeladamente me esperar
Sozinha no breu
Pé ante pé
Abra aos poucos o coração
E deixe
Ecoar nossa canção
E feche
Venha ouvir a valsa oca
Em primeira mão
Que a luva distraída toca
No violão
O público não acredita
Crítico não crê
Na inédita canção escrita
Só pra você
Se você beijar um outro, pode se partir
A valsa
Mas se roendo-as-unhasmente me quiser ouvir
Descalça no breu
Pé ante pé
Abra o peito bem devagar
E deixe
Sete notas a vibrar
E feche
Guarde numa caixa preta
A tímida canção
No fundo falso da gaveta
Do coração
É valsa pra se ouvir por dentro
Pra se ouvir a sós
Pra não se dissipar ao vento
Com minha voz
Com minha voz...
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Continente
Como uma viagem no seio do tempo,
No ventre do espaço,
Como um furacão na poeira,
Um tsunami na praia,
Uma miragem no deserto.
Como a bala de prata
Do filme de caubói.
Como o lenço branco
Do pedido de paz.
Como o medo surdo
Do clandestino,
Como a dúvida –
Sempre atroz.
Como um passo, um laço, um navio.
Puro e sujo como água,
Verde e morto como África,
Você é continente...
O futuro que eu não viverei,
Meu único presente.
Por você, esgarço flancos,
Mordo em fúria imanente.
Por você, eu perco lastro,
Indolente.
Por você, lamentarei.
Eternamente.
domingo, 8 de novembro de 2009
Duas (e só duas) lágrimas por isso.
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."
Ajudinha
A Vivi Fernandes achou o que eu perdi:
Já era
mas cadê vontade?
Era pra ter sido uma noite sem bebida,
mas cadê coragem?
Era pra eu esquecer o teu cheiro,
mas ele é tão bom...
Era pra eu não reconhecer a tua voz,
mas eu ainda me arrepio!
Era pra eu ficar em paz,
mas você é muito atento.
Era pra eu não querer te ver nunca mais,
mas nunca mais é muito tempo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Mais de mil
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Ponta de Areia
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento & Fernando BrantPonta de areia ponto final
Da Bahia-Minas estrada natural
Que ligava Minas ao porto ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra do povo alegre que vinha cortejar
Maria fumaça não canta mais
Para moças flores janelas e quintais
Na praça vazia um grito um oi
Casas esquecidas viúvas nos portais
quinta-feira, 23 de julho de 2009
CERTEZAS
A carta estava debaixo da porta. Nem precisou procurar o rementente, já sabia que era dela. A letra tremida dizia:
Eu acho que só ouvisse.
Eu acho que estou em surto.
Eu acho que estou com medo.
Eu acho que tenho um treco.
Eu acho que errei a conta.
Eu acho que me esqueci.
Eu acho que vou morrer.
Eu acho que só mentira.
Eu acho que me assustei.
Eu acho que me arrependo.
Eu acho que fiz besteira.
Eu acho que ainda aprendo.
Eu acho que não consigo.
Eu acho que vou morrer.
Eu acho que nem sonhar.
Eu acho que errei a porta.
Eu acho que fugi do timing.
Eu acho que rebaixaram o céu.
Eu acho que roubaram o chão.
Eu acho que sumi da sala.
Eu acho que fui embora.
Rasgou tudo bem pequeno. Lembrou da frase que o pai dizia: "felicidade é um momento de concentração". Ajeitou o botão do paletó, vestiu óculos escuros, o canto direito da boca se ergueu indisfarçavelmente e ele saiu pela manhã afora assoviando “Por una cabeza”.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Pra anja que virou estrela
Um momento único,
Que você gostaria de congelar.
Um único instante de amor,
De carinho,
no qual o grande congresso universal
fez sentido
e se desvelou por completo a você.
Pense de quem é
a mão que está pousada
carinhosamente,
piedosamente,
amorosamente,
protetoramente,
sobre si.
Pense de quem são os olhos sábios
E brilhantes
Que nesse tal instante
Despejam sobre você
A plenitude do infinito,
A confiança cega,
A fé amolada,
A candura do não.
Pense de quem é o sorriso
que se estende
franco,
contagiante,
perene,
acima de todas as coisas,
sempre.
Pense.
Seu momento não tem a mão?
Olhos? Nem o sorriso?
Das duas, uma:
ou você não sabe nada sobre momentos,
ou nunca viu uma estrela.
Hoje é o Dia Internacional das Estrelas.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Ajuda dos amigos.
Use o campo de comentários, de acordo com a numeração abaixo.
Se você é jornalista, me ajude respondendo:
1. Você já se viu envolvido em alguma polêmica relacionada à ética?
2. Que postura jornalística pouco ou nada ética chamou a sua atenção no noticiário recente?
3. Qual o pior defeito profissional que pode ter um jornalista?
4. A obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão vai fazer falta ou diferença?
5. Até onde você iria no desempenho da profissão?
Se você não é jornalista, ajude também respondendo:
6. Sua atividade profissional tem seu próprio código de ética?
7. Que postura jornalística pouco ou nada ética chamou a sua atenção no noticiário recente?
8. Você acredita em jornalismo imparcial?
9. A obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão vai fazer falta ou diferença?
10. Falta ética aos veículos de comunicação atuais?
Muito obrigada. Sua alma vai ficar na mesma, mas eu te devo essa. ;)
segunda-feira, 15 de junho de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Salva-vidas
De sangue, pra ser duradouro.
De carne, pra ser forte.
Com a alma, pra ter efeito.
De boca, pra ser gostoso.
De riso, pra ficar leve.
De luz, pra dar frutos.
Com os dentes, pra tirar dúvida.
De mentes, pra ter razão.
De ossos, pra ficar reto.
De línguas, pra fazer curva.
Com as mãos, pra ter afago.
De futuro, pra dar tempo.
De beijos, pra ter certeza.
De vida, pra ficar serena.
De amor, pra ser todo seu.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
A Voz Do Silêncio - Marta Medeiros

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.
Simples, rápido! E quanta força!
Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.
Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.
É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"
É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.
É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.
Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.
O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.
E fala alto.
É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Não põe corda no meu bloco
PLATAFORMA
João Bosco e Aldir Blanc
Não põe corda no meu bloco
Nem vem com teu carro-chefe
Não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
Que a gente não precisa
Que organizem nosso carnaval
Não sou candidato a nada
Meu negócio é madrugada
Mas meu coração não se conforma
O meu peito é do contra
E por isso mete bronca
Nesse samba-plataforma
Por um bloco que derrube esse coreto
Por passistas à vontade
Que não dancem o minueto
Por um bloco sem bandeira ou fingimento
Que balance e abagunce
O desfile e o julgamento
Por um bloco que aumente o movimento
Que sacuda e arrebente
O cordão de isolamento.
Não põe no meu.
Não põe corda no meu bloco
(Chico Alencar)
O Brasil é o país do carnaval. Além de título de livro do Jorge Amado, essa é uma marca cantada em prosa e verso por muitos poetas e músicos que engrandecem a nossa cultura. Recife, Olinda, Salvador, entre tantas outras cidades brasileiras, sempre tiveram grande expressão na imensa festa popular que recobre por inteiro o nosso território.
No entanto, vale reivindicar para os cariocas um lugar de destaque na constelação festiva. Lembrando o hino da Velha Guarda da Portela, segundo o qual "o nosso teor não é humilhar a ninguém", o carnaval do Rio de Janeiro é uma festa popular maravilhosa.
As festas populares, na história da humanidade, são sempre denúncia e anúncio. Denúncia, pelo riso e pela ironia, de tudo que entristece a vida, machuca as pessoas, suja o mundo e encarece o pão: fome, doença, opressão. Anúncio do céu na terra que há de vir, com um planeta solidário e justo, costurado em festa, trabalho e afeição. Os seres humanos, ao longo do tempo, comemoram colheitas, chegadas de primaveras, independências, fim de guerras, negação de inferno. O carnaval, no Brasil, também nasceu assim: a válvula de escape oferecida pelos senhores de escravos, nos dias que antecediam a Quaresma, foi se transformando em folguedo, folia, celebração da liberdade e da alegria de viver.
O povo, que mói no áspero o ano inteiro, ocupa as ruas com seu inesgotável estoque de alegria. E faz a festa do portentoso descarrego para as agruras de um cotidiano pesado e difícil. O desafogo é cronometrado, mas o que nele transborda é a alegoria da liberdade, que faz de Momo o único rei que a multidão aceita. Até quarta-feira, quando tudo volta ao normal, o que prevalece é a festa reveladora da vitalidade perene da presença popular. Nela se manifesta, como aspiração de uma vida melhor e mais feliz, aquilo que o cronista João do Rio chamava de "alma encantadora das ruas".
O carnaval do Rio é o carnaval de rua. O carioca, de nascimento ou adoção, é versado em resistir, insistir e não desistir da vida plena. Em matéria de resistência cultural, o Rio é um bloco
Nos blocos de rua do Rio de Janeiro não existe cordão de isolamento nem se exige abadá: é só chegar, com a "moeda" da fantasia inventada na hora e a disposição de entrega harmoniosa ao festival coletivo. Alegria não paga entrada. A cidade do samba, nos dias de carnaval, é a cidade inteira. Mais do que no espetáculo grandioso do Sambódromo, aprisionado pelo esquema empresarial da Liga que controla o desfile oficial, é nas ruas e becos da cidade que sobrevive e se alimenta o espírito libertário do carnaval carioca. Sem tal espírito, a materialidade da Sapucaí se desmancharia no ar. O concreto aparente, a parafernália eletrônica que monopoliza a transmissão, a grana que se reproduz nos desvãos da festa, além das celebridades siliconadas, são camadas superpostas sobre a força cultural do samba carioca. Até os grandes sambistas, músicos, passistas e carnavalescos que lá se apresentam sabem disto. Espantado com o aparato do espetáculo, um samba da velha guarda afirma nostálgico: "Portela / conheço teu passado / pertenço a tua raiz / no tempo da simplicidade eras mais feliz".
Oswald de Andrade,
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 18 de fevereiro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ
domingo, 18 de janeiro de 2009
DA CHEGADA DO AMOR
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Vírgula
Não se atreva, não fala.
Não pergunta.
Principalmente,
não provoca.
Estou em carne viva.
Não me toca.
Não me cobra, pára.
Não assunta.
Pacientemente,
me reserva.
Estou, em carne, viva.
Não me toca!
Não se move, não sai!
Não disjunta...
Secretamente,
me degusta.
Estou em carne, viva.
