sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Mais de mil
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Ponta de Areia
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento & Fernando BrantPonta de areia ponto final
Da Bahia-Minas estrada natural
Que ligava Minas ao porto ao mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra do povo alegre que vinha cortejar
Maria fumaça não canta mais
Para moças flores janelas e quintais
Na praça vazia um grito um oi
Casas esquecidas viúvas nos portais
quinta-feira, 23 de julho de 2009
CERTEZAS
A carta estava debaixo da porta. Nem precisou procurar o rementente, já sabia que era dela. A letra tremida dizia:
Eu acho que só ouvisse.
Eu acho que estou em surto.
Eu acho que estou com medo.
Eu acho que tenho um treco.
Eu acho que errei a conta.
Eu acho que me esqueci.
Eu acho que vou morrer.
Eu acho que só mentira.
Eu acho que me assustei.
Eu acho que me arrependo.
Eu acho que fiz besteira.
Eu acho que ainda aprendo.
Eu acho que não consigo.
Eu acho que vou morrer.
Eu acho que nem sonhar.
Eu acho que errei a porta.
Eu acho que fugi do timing.
Eu acho que rebaixaram o céu.
Eu acho que roubaram o chão.
Eu acho que sumi da sala.
Eu acho que fui embora.
Rasgou tudo bem pequeno. Lembrou da frase que o pai dizia: "felicidade é um momento de concentração". Ajeitou o botão do paletó, vestiu óculos escuros, o canto direito da boca se ergueu indisfarçavelmente e ele saiu pela manhã afora assoviando “Por una cabeza”.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Pra anja que virou estrela
Um momento único,
Que você gostaria de congelar.
Um único instante de amor,
De carinho,
no qual o grande congresso universal
fez sentido
e se desvelou por completo a você.
Pense de quem é
a mão que está pousada
carinhosamente,
piedosamente,
amorosamente,
protetoramente,
sobre si.
Pense de quem são os olhos sábios
E brilhantes
Que nesse tal instante
Despejam sobre você
A plenitude do infinito,
A confiança cega,
A fé amolada,
A candura do não.
Pense de quem é o sorriso
que se estende
franco,
contagiante,
perene,
acima de todas as coisas,
sempre.
Pense.
Seu momento não tem a mão?
Olhos? Nem o sorriso?
Das duas, uma:
ou você não sabe nada sobre momentos,
ou nunca viu uma estrela.
Hoje é o Dia Internacional das Estrelas.
terça-feira, 23 de junho de 2009
Ajuda dos amigos.
Use o campo de comentários, de acordo com a numeração abaixo.
Se você é jornalista, me ajude respondendo:
1. Você já se viu envolvido em alguma polêmica relacionada à ética?
2. Que postura jornalística pouco ou nada ética chamou a sua atenção no noticiário recente?
3. Qual o pior defeito profissional que pode ter um jornalista?
4. A obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão vai fazer falta ou diferença?
5. Até onde você iria no desempenho da profissão?
Se você não é jornalista, ajude também respondendo:
6. Sua atividade profissional tem seu próprio código de ética?
7. Que postura jornalística pouco ou nada ética chamou a sua atenção no noticiário recente?
8. Você acredita em jornalismo imparcial?
9. A obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão vai fazer falta ou diferença?
10. Falta ética aos veículos de comunicação atuais?
Muito obrigada. Sua alma vai ficar na mesma, mas eu te devo essa. ;)
segunda-feira, 15 de junho de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Salva-vidas
De sangue, pra ser duradouro.
De carne, pra ser forte.
Com a alma, pra ter efeito.
De boca, pra ser gostoso.
De riso, pra ficar leve.
De luz, pra dar frutos.
Com os dentes, pra tirar dúvida.
De mentes, pra ter razão.
De ossos, pra ficar reto.
De línguas, pra fazer curva.
Com as mãos, pra ter afago.
De futuro, pra dar tempo.
De beijos, pra ter certeza.
De vida, pra ficar serena.
De amor, pra ser todo seu.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
A Voz Do Silêncio - Marta Medeiros

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.
Simples, rápido! E quanta força!
Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.
Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.
É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"
É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.
É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.
Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.
O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.
E fala alto.
É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Não põe corda no meu bloco
PLATAFORMA
João Bosco e Aldir Blanc
Não põe corda no meu bloco
Nem vem com teu carro-chefe
Não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
Que a gente não precisa
Que organizem nosso carnaval
Não sou candidato a nada
Meu negócio é madrugada
Mas meu coração não se conforma
O meu peito é do contra
E por isso mete bronca
Nesse samba-plataforma
Por um bloco que derrube esse coreto
Por passistas à vontade
Que não dancem o minueto
Por um bloco sem bandeira ou fingimento
Que balance e abagunce
O desfile e o julgamento
Por um bloco que aumente o movimento
Que sacuda e arrebente
O cordão de isolamento.
Não põe no meu.
Não põe corda no meu bloco
(Chico Alencar)
O Brasil é o país do carnaval. Além de título de livro do Jorge Amado, essa é uma marca cantada em prosa e verso por muitos poetas e músicos que engrandecem a nossa cultura. Recife, Olinda, Salvador, entre tantas outras cidades brasileiras, sempre tiveram grande expressão na imensa festa popular que recobre por inteiro o nosso território.
No entanto, vale reivindicar para os cariocas um lugar de destaque na constelação festiva. Lembrando o hino da Velha Guarda da Portela, segundo o qual "o nosso teor não é humilhar a ninguém", o carnaval do Rio de Janeiro é uma festa popular maravilhosa.
As festas populares, na história da humanidade, são sempre denúncia e anúncio. Denúncia, pelo riso e pela ironia, de tudo que entristece a vida, machuca as pessoas, suja o mundo e encarece o pão: fome, doença, opressão. Anúncio do céu na terra que há de vir, com um planeta solidário e justo, costurado em festa, trabalho e afeição. Os seres humanos, ao longo do tempo, comemoram colheitas, chegadas de primaveras, independências, fim de guerras, negação de inferno. O carnaval, no Brasil, também nasceu assim: a válvula de escape oferecida pelos senhores de escravos, nos dias que antecediam a Quaresma, foi se transformando em folguedo, folia, celebração da liberdade e da alegria de viver.
O povo, que mói no áspero o ano inteiro, ocupa as ruas com seu inesgotável estoque de alegria. E faz a festa do portentoso descarrego para as agruras de um cotidiano pesado e difícil. O desafogo é cronometrado, mas o que nele transborda é a alegoria da liberdade, que faz de Momo o único rei que a multidão aceita. Até quarta-feira, quando tudo volta ao normal, o que prevalece é a festa reveladora da vitalidade perene da presença popular. Nela se manifesta, como aspiração de uma vida melhor e mais feliz, aquilo que o cronista João do Rio chamava de "alma encantadora das ruas".
O carnaval do Rio é o carnaval de rua. O carioca, de nascimento ou adoção, é versado em resistir, insistir e não desistir da vida plena. Em matéria de resistência cultural, o Rio é um bloco
Nos blocos de rua do Rio de Janeiro não existe cordão de isolamento nem se exige abadá: é só chegar, com a "moeda" da fantasia inventada na hora e a disposição de entrega harmoniosa ao festival coletivo. Alegria não paga entrada. A cidade do samba, nos dias de carnaval, é a cidade inteira. Mais do que no espetáculo grandioso do Sambódromo, aprisionado pelo esquema empresarial da Liga que controla o desfile oficial, é nas ruas e becos da cidade que sobrevive e se alimenta o espírito libertário do carnaval carioca. Sem tal espírito, a materialidade da Sapucaí se desmancharia no ar. O concreto aparente, a parafernália eletrônica que monopoliza a transmissão, a grana que se reproduz nos desvãos da festa, além das celebridades siliconadas, são camadas superpostas sobre a força cultural do samba carioca. Até os grandes sambistas, músicos, passistas e carnavalescos que lá se apresentam sabem disto. Espantado com o aparato do espetáculo, um samba da velha guarda afirma nostálgico: "Portela / conheço teu passado / pertenço a tua raiz / no tempo da simplicidade eras mais feliz".
Oswald de Andrade,
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 18 de fevereiro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ
domingo, 18 de janeiro de 2009
DA CHEGADA DO AMOR
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Vírgula
Não se atreva, não fala.
Não pergunta.
Principalmente,
não provoca.
Estou em carne viva.
Não me toca.
Não me cobra, pára.
Não assunta.
Pacientemente,
me reserva.
Estou, em carne, viva.
Não me toca!
Não se move, não sai!
Não disjunta...
Secretamente,
me degusta.
Estou em carne, viva.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
Veias abertas.
... e aí quando eu faço elogio, ele diz que não acredita. Eu vou lá saber como é que pode! Já chegou mesmo a afirmar que não merecia, dá pra imaginar? Dia desses, em tom confessional, deixou escapulir de uma desavisada que teria atravessado anos sem dar valor. Eu, de minha parte, nada tenho com essas loucas que não pensam. Eu penso, penso sempre, penso muito. E vou além: eu o sinto. Como fosse parte, atávico e indivisível...
Ele me chega como os mercadores das histórias, trazendo romances e falsas promessas, com uma estrela em cada olho e marcando com sangue doce de putas arredias a sola dos sapatos.
Aparece sempre na hora grande da madrugada, soprando segredos indizíveis nos meus ouvidos. Veste túnica de oferendas, arrematada com o riso dos mares e bordada com fios brilhantes das lágrimas que ainda não derramei.
Deita-se ao meu lado e alisa meus cabelos, a pele de lápide disfarçando o coração sempre sôfrego, cheirando a musgo fresco, me beija em vaticínio, me despe com pudor, me cobre de sentenças.
De sua ausência brotam rios de lava, veios rasos e cruéis que jamais se fecharão.
De sua ausência brotam as raízes que rompem minha lucidez. Sorvo cada minuto, desato meus nós enquanto cedo e entrego e descanso e desço pelo poço profundo dessa insanidade chamada desejo.
Eu ainda o vejo, como no sonho que eu sonhei.
E ele, ainda assim, não acredita...
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Só agora é que me explicaram:
Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.
Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.
Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.
Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.
Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.
Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.
Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.
Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.”
Martha Medeiros
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
In legend
Enter with him
These legends, Love;
For him assume
Each diverse form
To legend native,
As legend queer;
That he may do
What these require,
Be, Love, like him
To legend true.
When he to ease
His heart's disease
Must cross in sorrow
Corrosive seas,
As dolphin go;
As cunning fox
Guide through the rocks,
Tell in his ear
The common phrase
Required to please
The guardians there;
And when across
The livid marsh
Big birds pursue,
Again be true,
Between his thighs
As pony rise,
And swift as wind
Bear him away
Till cries and they
Are left behind.
But when at last,
These dangers passed,
His grown desire
Of legend tire,
O then, Love, standing
At legend's ending,
Claim your reward;
Submit your neck
To the ungrateful stroke
Of his reluctant sword,
That, starting back,
His eyes may look
Amazed on you,
Find what he wanted
Is faithful too
But disenchanted,
Your human love.

domingo, 19 de outubro de 2008
Mãos de homem
Ele tinha mãos de homem.
Mãos que seguram a moça na escada não porque ela precisa, mas porque não quer soltá-la.
Mãos que não deixam a moça cair, não porque ela é frágil, mas porque ele pode.
Mãos que estalam desejos na ponta dos dedos, em fagulhas de arrepios.
Ele tinha pulso de homem.
Pulso de quem agarra uma oportunidade pelos cabelos e não deixa passar.
Pulso de quem agarra um desafio pelos cabelos e não deixa de enfrentar.
Pulso de quem agarra a moça pelos cabelos e não a deixa nem querer escapar.
Ele tinha cheiro de homem.
Cheiro de coragem, de ternura, gradação de império.
O olfato imprimindo a ferro os passos para a memória,
e Ele... com cheiro de dádiva, de loucura, de impropério.
Ele tinha gosto de homem.
Um gosto de brisa, de devoção, quase punitivo.
De um homem assim não há partida,
se quer ser viva, luzir... e se tem motivo.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
D’après Flor de Belém
Clarah Averbuck
Não vejo a hora de encontrar o meu...
