segunda-feira, 23 de março de 2009

Salva-vidas

Quero fazer com você um pacto.
De sangue, pra ser duradouro.
De carne, pra ser forte.
Com a alma, pra ter efeito.

De boca, pra ser gostoso.
De riso, pra ficar leve.
De luz, pra dar frutos.
Com os dentes, pra tirar dúvida.

De mentes, pra ter razão.
De ossos, pra ficar reto.
De línguas, pra fazer curva.
Com as mãos, pra ter afago.

De futuro, pra dar tempo.
De beijos, pra ter certeza.
De vida, pra ficar serena.
De amor, pra ser todo seu.


Finalmente!

De cara nova.
Tava precisando.

A outra cascuda? Quem sabe, em breve. =]

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A Voz Do Silêncio - Marta Medeiros





Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.

Simples, rápido! E quanta força!

Imediatamente me veio à cabeça situações
em que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.

Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.

Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.

Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.

É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.

Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.

Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"

É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.

É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.

Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.

O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.

E fala alto.

É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Não põe corda no meu bloco

PLATAFORMA
João Bosco e Aldir Blanc

Não põe corda no meu bloco
Nem vem com teu carro-chefe
Não dá ordem ao pessoal
Não traz lema nem divisa
Que a gente não precisa
Que organizem nosso carnaval
Não sou candidato a nada
Meu negócio é madrugada
Mas meu coração não se conforma
O meu peito é do contra
E por isso mete bronca
Nesse samba-plataforma
Por um bloco que derrube esse coreto
Por passistas à vontade
Que não dancem o minueto
Por um bloco sem bandeira ou fingimento
Que balance e abagunce
O desfile e o julgamento
Por um bloco que aumente o movimento
Que sacuda e arrebente
O cordão de isolamento.
Não põe no meu.


Não põe corda no meu bloco
(Chico Alencar)

O Brasil é o país do carnaval. Além de título de livro do Jorge Amado, essa é uma marca cantada em prosa e verso por muitos poetas e músicos que engrandecem a nossa cultura. Recife, Olinda, Salvador, entre tantas outras cidades brasileiras, sempre tiveram grande expressão na imensa festa popular que recobre por inteiro o nosso território.
No entanto, vale reivindicar para os cariocas um lugar de destaque na constelação festiva. Lembrando o hino da Velha Guarda da Portela, segundo o qual "o nosso teor não é humilhar a ninguém", o carnaval do Rio de Janeiro é uma festa popular maravilhosa.
As festas populares, na história da humanidade, são sempre denúncia e anúncio. Denúncia, pelo riso e pela ironia, de tudo que entristece a vida, machuca as pessoas, suja o mundo e encarece o pão: fome, doença, opressão. Anúncio do céu na terra que há de vir, com um planeta solidário e justo, costurado em festa, trabalho e afeição. Os seres humanos, ao longo do tempo, comemoram colheitas, chegadas de primaveras, independências, fim de guerras, negação de inferno. O carnaval, no Brasil, também nasceu assim: a válvula de escape oferecida pelos senhores de escravos, nos dias que antecediam a Quaresma, foi se transformando em folguedo, folia, celebração da liberdade e da alegria de viver.
O povo, que mói no áspero o ano inteiro, ocupa as ruas com seu inesgotável estoque de alegria. E faz a festa do portentoso descarrego para as agruras de um cotidiano pesado e difícil. O desafogo é cronometrado, mas o que nele transborda é a alegoria da liberdade, que faz de Momo o único rei que a multidão aceita. Até quarta-feira, quando tudo volta ao normal, o que prevalece é a festa reveladora da vitalidade perene da presença popular. Nela se manifesta, como aspiração de uma vida melhor e mais feliz, aquilo que o cronista João do Rio chamava de "alma encantadora das ruas".
O carnaval do Rio é o carnaval de rua. O carioca, de nascimento ou adoção, é versado em resistir, insistir e não desistir da vida plena. Em matéria de resistência cultural, o Rio é um bloco em cada esquina. O Cordão do Bola Preta, símbolo maior, e a Banda de Ipanema, com Leila Diniz de eterna rainha, abrem a lista. Na seqüência interminável, uma infinidade de nomes onde a festa popular monta trincheiras de combate. Pela ordem da antiguidade: Clube do Samba, do saudoso João Nogueira, Barbas e Simpatia é Quase Amor. Em seguida, Suvaco de Cristo, Bloco de Segunda, Escravos da Mauá, Imprensa que eu Gamo, Meu Bem eu Volto Já, Nem Muda nem sai de Cima, Carmelitas e tantos outros. O Cordão do Boitatá, com seus maxixes na Praça Quinze, o Céu na Terra, que faz jus ao nome, o Rancho Flor do Sereno, no Bip Bip do Alfredinho. Os metais e frevos do Bloco da Ansiedade, a festa das crianças no Gigantes da Lira e o batuque familiar do Bagunça meu Coreto, além da promessa potencial do Esse é o Bom, mas Ninguém Sabe. São tantos, centenas ou milhares, e a cada ano surgem outros tantos: Marcangalhas,Vem ni mim Qui Sou Facinha, Badalo, Largo do Machado mas não Largo do Copo...
Nos blocos de rua do Rio de Janeiro não existe cordão de isolamento nem se exige abadá: é só chegar, com a "moeda" da fantasia inventada na hora e a disposição de entrega harmoniosa ao festival coletivo. Alegria não paga entrada. A cidade do samba, nos dias de carnaval, é a cidade inteira. Mais do que no espetáculo grandioso do Sambódromo, aprisionado pelo esquema empresarial da Liga que controla o desfile oficial, é nas ruas e becos da cidade que sobrevive e se alimenta o espírito libertário do carnaval carioca. Sem tal espírito, a materialidade da Sapucaí se desmancharia no ar. O concreto aparente, a parafernália eletrônica que monopoliza a transmissão, a grana que se reproduz nos desvãos da festa, além das celebridades siliconadas, são camadas superpostas sobre a força cultural do samba carioca. Até os grandes sambistas, músicos, passistas e carnavalescos que lá se apresentam sabem disto. Espantado com o aparato do espetáculo, um samba da velha guarda afirma nostálgico: "Portela / conheço teu passado / pertenço a tua raiz / no tempo da simplicidade eras mais feliz".
Oswald de Andrade, em seu "Primeiro Caderno de Aluno de Poesia", define a mescla na qual se origina a festa carnavalesca onde o Brasil se reconhece. Segundo ele, o Zé Pereira chegou de caravela e perguntou para o guarani da mata virgem: "sois cristão?" Recebeu como resposta sincopada: "Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte. Teterê, tetê, Quizá, Quizá, Quecê. Depois o negro zonzo saído da fornalha tomou a palavra e respondeu: "Sim, pela graça de Deus. Canhem Babá, Canhem Babá, Cum Cum! E fizeram o Carnaval". Os filhos da mata virgem, os filhos dos Quilombos e Quizombas, os filhos do sapateiro Zé Pereira formam as raízes que fazem do carnaval carioca uma festa popular maravilhosa. Evoé, Momo!

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 18 de fevereiro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ

domingo, 18 de janeiro de 2009

espelho

DA CHEGADA DO AMOR

Elisa Lucinda Sempre quis um amor que falasse que soubesse o que sentisse. Sempre quis uma amor que elaborasse Que quando dormisse ressonasse confiança no sopro do sono e trouxesse beijo no clarão da amanhecice. Sempre quis um amor que coubesse no que me disse. Sempre quis uma meninice entre menino e senhor uma cachorrice onde tanto pudesse a sem-vergonhice do macho quanto a sabedoria do sabedor. Sempre quis um amor cujo BOM DIA! morasse na eternidade de encadear os tempos: passado presente futuro coisa da mesma embocadura sabor da mesma golada. Sempre quis um amor de goleadas cuja rede complexa do pano de fundo dos seres não assustasse. Sempre quis um amor que não se incomodasse quando a poesia da cama me levasse. Sempre quis uma amor que não se chateasse diante das diferenças. Agora, diante da encomenda metade de mim rasga afoita o embrulho e a outra metade é o futuro de saber o segredo que enrola o laço, é observar o desenho do invólucro e compará-lo com a calma da alma o seu conteúdo. Contudo sempre quis um amor que me coubesse futuro e me alternasse em menina e adulto que ora eu fosse o fácil, o sério e ora um doce mistério que ora eu fosse medo-asneira e ora eu fosse brincadeira ultra-sonografia do furor, sempre quis um amor que sem tensa-corrida-de ocorresse. Sempre quis um amor que acontecesse sem esforço sem medo da inspiração por ele acabar. Sempre quis um amor de abafar, (não o caso) mas cuja demora de ocaso estivesse imensamente nas nossas mãos. Sem senãos. Sempre quis um amor com definição de quero sem o lero-lero da falsa sedução. Eu sempre disse não à constituição dos séculos que diz que o "garantido" amor é a sua negação. Sempre quis um amor que gozasse e que pouco antes de chegar a esse céu se anunciasse. Sempre quis um amor que vivesse a felicidade sem reclamar dela ou disso. Sempre quis um amor não omisso e que suas estórias me contasse. Ah, eu sempre quis um amor que amasse. (Poesia extraída do livro "Euteamo e suas estréias", Editora Record - Rio de Janeiro, 1999)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vírgula

Não me toca.
Não se atreva, não fala.
Não pergunta.
Principalmente,
não provoca.
Estou em carne viva.

Não me toca.
Não me cobra, pára.
Não assunta.
Pacientemente,
me reserva.
Estou, em carne, viva.

Não me toca!
Não se move, não sai!
Não disjunta...
Secretamente,
me degusta.
Estou em carne, viva.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Veias abertas.

... e aí quando eu faço elogio, ele diz que não acredita. Eu vou lá saber como é que pode! Já chegou mesmo a afirmar que não merecia, dá pra imaginar? Dia desses, em tom confessional, deixou escapulir de uma desavisada que teria atravessado anos sem dar valor. Eu, de minha parte, nada tenho com essas loucas que não pensam. Eu penso, penso sempre, penso muito. E vou além: eu o sinto. Como fosse parte, atávico e indivisível...



Ele me chega como os mercadores das histórias, trazendo romances e falsas promessas, com uma estrela em cada olho e marcando com sangue doce de putas arredias a sola dos sapatos.

Aparece sempre na hora grande da madrugada, soprando segredos indizíveis nos meus ouvidos. Veste túnica de oferendas, arrematada com o riso dos mares e bordada com fios brilhantes das lágrimas que ainda não derramei.

Deita-se ao meu lado e alisa meus cabelos, a pele de lápide disfarçando o coração sempre sôfrego, cheirando a musgo fresco, me beija em vaticínio, me despe com pudor, me cobre de sentenças.

De sua ausência brotam rios de lava, veios rasos e cruéis que jamais se fecharão.

De sua ausência brotam as raízes que rompem minha lucidez. Sorvo cada minuto, desato meus nós enquanto cedo e entrego e descanso e desço pelo poço profundo dessa insanidade chamada desejo.

Eu ainda o vejo, como no sonho que eu sonhei.

E ele, ainda assim, não acredita...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Só agora é que me explicaram:

“À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável.

Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.

Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.

Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam.

Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros.

Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente.

Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam.

Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente.

Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.”

Martha Medeiros

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

In legend

W. H. Auden

Enter with him

These legends, Love;

For him assume

Each diverse form
To legend native,

As legend queer;

That he may do

What these require,

Be, Love, like him

To legend true.


When he to ease

His heart's disease

Must cross in sorrow

Corrosive seas,

As dolphin go;
As cunning fox

Guide through the rocks,

Tell in his ear

The common phrase

Required to please

The guardians there;

And when across

The livid marsh

Big birds pursue,
Again be true,
Between his thighs
As pony rise,

And swift as wind
Bear him away
Till cries and they

Are left behind.


But when at last,

These dangers passed,

His grown desire

Of legend tire,
O then, Love, standing
At legend's ending,
Claim your reward;
Submit your nec
k
To the ungrateful stroke

Of his reluctant sword,

That, starting back,

His eyes may look

Amazed on you,

Find what he wanted

Is faithful too

But disenchanted,

Your human love.




domingo, 19 de outubro de 2008

Mãos de homem

Pro Ike. =]

Ele tinha mãos de homem.
Mãos que seguram a moça na escada não porque ela precisa, mas porque não quer soltá-la.
Mãos que não deixam a moça cair, não porque ela é frágil, mas porque ele pode.
Mãos que estalam desejos na ponta dos dedos, em fagulhas de arrepios.

Ele tinha pulso de homem.
Pulso de quem agarra uma oportunidade pelos cabelos e não deixa passar.
Pulso de quem agarra um desafio pelos cabelos e não deixa de enfrentar.
Pulso de quem agarra a moça pelos cabelos e não a deixa nem querer escapar.

Ele tinha cheiro de homem.
Cheiro de coragem, de ternura, gradação de império.
O olfato imprimindo a ferro os passos para a memória,
e Ele... com cheiro de dádiva, de loucura, de impropério.

Ele tinha gosto de homem.
Um gosto de brisa, de devoção, quase punitivo.
De um homem assim não há partida,
se quer ser viva, luzir... e se tem motivo.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

D’après Flor de Belém

"Hoje vou procurar a palavra que se perdeu, que escapuliu entre meus dedos, que escorreu por minhas mãos. Eu hoje vou conter nas letras esse fluxo que não pára de me levar pra longe daqui. Eu hoje vou ficar aqui quieta, enquanto frases se formam, enquanto parágrafos inteiros se fixam na tela. Alguns fogem. E eu deixo que fujam porque sei que posso recuperá-los, melhores, adiante. Não me desespero mais. Encontrei o leito por onde escoar o meu excesso."
Clarah Averbuck

Não vejo a hora de encontrar o meu...

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

SABE O QUE EU SEI

(Julio Zartos / Renata Costa / Mariana Blanc)


Sabe o que eu sei?
Tudo aquilo que não tive
Os olhares que não vi.
Sei de noites...

Sabe o que eu sei?
Sei de mares tão bravios,
de amores tão vazios,
sei de noites...
sei de noites...

Nada que sei
pode consolidar tanto amor.
Só eu quis...
Nada que você não fez
pode desconstruir esse amor.
Só eu vi esse filme.
Ah, se você soubesse essas noites!
Sei de noites...
Sei de noites...

Nada que fiz
pôde contagiar
teu olhar
não resiste
Nada que você não diz
pode contaminar esse amor
que eu quis sem limites.

Ah, se você nos desse essa noite!
Sei de noites...
sei de noites...


(fractal de Jeanne Adema)

domingo, 10 de agosto de 2008

Um caso de paixão.

E a moça não pára.

http://branca.multiply.com/music/item/79/79

As paixões realmente nos movem.
Ah, Coisa Linda...
Só você.

sábado, 9 de agosto de 2008

Um haikai para Syl.

Peguei uma esquerda
em algum lugar.
Como não sei onde foi,
também não sei voltar.

NÃO ME DEIXE SORRIR

Segurou firme na mão da amiga e pediu:
– Não me deixe sorrir.
– Tá louca?
– Falando sério.
– Por quê?
– Não quero dar mole pra malandro. Quero que ele me veja assim maravilhosa, por cima da carne-seca. Desde que eu descobri que ele tem vindo aqui, estou planejando esse momento. Quero esfregar na cara como estou serena e tranqüila, bem mesmo.
– E como você sabe se ele vem?
– Minhas fontes são as melhores.
– E vai ficar sem sorrir? Com cara de manga?
– Manga...
– Chupada.
– Ô, quem dera. Não é cara fechada, tonta. É serenidade e elegância. Agora disfarça, acho que é ele ali na porta, chegou! Deixa eu me sentar desse lado. E se eu começar de risinho, já sabe: me belisca.
– Você que sabe.
– Hi, ele parou na outra mesa.
– Qual?
– Ali, na esquerda.
– Aonde? No banheiro?
– A outra esquerda. Atrás da pilastra.
– Você tá vendo de costas e atrás da pilastra?
– Pelo espelho, merda. Olha direito você, que está de frente.
– Ah, tá. E aqueles, quem são?
– Nunca vi. Devem ser amigos do escritório.
– E você não conhece ninguém?
– Não.
– E todos aqueles almoços e festas?
– Nunca fui.
– Toda hora tinha um evento ou compromisso social...
– Sei de nada.
– Você nunca foi ou ele nunca te levou?
– Cala a boca.
– Bonita a mulher.
– Qual delas?
– Aquela do lado de quem ele sentou.
– Uma velha de azul?
– Não, uma ninfeta de vermelho. A que ele está abraçando.
– Abraçando?
– E beijando.
– Como, beijando? Na boca?
– Perfeitamente.
– Ah, mas claro, selinho de amigo, lógico.
– Se aquilo é selinho-amigo, tá na hora d’eu começar a ir pro Maracanã com o Osvaldo.
– Mas de que lado você está?!? Você deve estar enganada. Vou me virar.
– Eu-você não faria isso.
– Por quê?!?
– Porque ele tirou uma caixinha de veludo do bolso...
– ... !!!
– ... e está de joelhos, na frente do grupo todo.
– Esses aplausos?
– São pra eles.
– Você só pode estar brincando.
– Nunca se brinca com tantos quilates.
– É de brilhante???
– Brilhante é o fundo das minhas panelas. Aquilo é uma agressão.
– A mim! A mim! Ele nunca me deu sequer um tíquete-refeição!!
– E você aturava? Bem feito.
- Pára de enrolar! E agora? O que eles estão fazendo?
– Brindando de pé, traças entrelaçadas...
– Não é possível...
– ... e recebendo os parabéns.
– Mas não tem bem nem três meses! E nós ficamos juntos por dois anos e ele nunca propôs!
– Amiga, vou te dizer: ele propôs, submeteu, deferiu, registrou e entregou.
– Eu não consigo acreditar.
– Melhor você acreditar e rápido.
– Como assim?
– Ele tá vindo pra cá.
– Queísso!!
– E já te viu.
– Ele vai me ver como rosto inchado de choro, com jeito de arrasada, obviamente de-ses-pe-ra-da?
– Melhor botar um sorriso aí depressinha, porque ele vem, meio sem graça, com a melhor pinta de cumprir obrigação social, mas vem...
– Mas graça onde? Sorrir de que? Como?!
– Não sei! Quer que eu te belisque?!?

ATARAXIA

Cale-se.
Não arraste a materialidade fria da sua ausência para dentro do armário.
Mova-se.
Atalhe em curto o pasmo e o peso do desaire.
Despeça-se.
Sorria para os inimigos cultivados e deixe a casa pelo mesmo prefácio.
Cubra-se.
Poupe as crianças da vergonha futurível e covarde.
Convença-se.
Olhe apenas adiante e sempre próximo a seus próprios pés.
Livre-se.
Jogue fora seu apego, sua doença, seus vícios, seus pesados disfarces.
Controle-se.
Seja seu melhor e único amigo em perpétuo isolamento.
Desperte-se.
Acorde agora e nunca mais dê ouvidos a superfícies refletoras ou brilhantes.

Tears Dry On Their Own


Amy Winehouse


All I can ever be to you
is a darkness that we knew
and this regret I got accustomed to...
Once it was so right!
When we were at our high,
waiting for you in the hotel at night,
I knew I hadn´t met my match.
But every moment we could snatch,
I don’t know why I got so attached.
It's my responsibility,
and You don't owe nothing to me,
But to walk away I have no capacity...

He walks away,
the sun goes down,
He takes the day but I’m grown.
And in your grey,
In this blue shade,
My tears dry on their own.

I don't understand
why do I stress the man
when there's so many better things at hand.
We could have never had it all,
we had to hit a wall.
So this is inevitable withdrawal -
even if I stopped wating you,
A perspective pushes through:
I'll be some next man’s other woman soon...

Can I play myself again?
Or should I just be my own best friend?
Not fuck myself in the head with stupid men?

He walks away,
the sun goes down,
He takes the day but I’m grown.
And in your grey,
In this blue shade,
My tears dry on their own.

So we are history,
Your shadow covers me,
The skies above a blaze

He walks away,
the sun goes down,
He takes the day but I’m grown.
And in your grey,
In this blue shade,
My tears dry on their own.

I wish I could say no regrets
and no emotional debts
'Cause as we kissed goodbye the sun sets...
So we are history,
The shadow covers me,
The sky above a blaze
that only lovers see...

He walks away,
the sun goes down,
He takes the day but I'm grown.
And in your grey,
My blue shade
My tears dry on their own!(whooa!)

He walks away,
the sun goes down,
He takes the day but I'm grown.
And in your grey,
My deep shade,
My tears dry on their own!



sexta-feira, 30 de maio de 2008

Cinco Dias


trilha: Sabe Você (Carlos Lyra / Vinícius de Moraes) clica!


Primeiro dia – Prelúdio do Horizonte no Veraz do Mundo

No primeiro dia, ela olhou pra ele com a curiosidade de gato que se debruça no parapeito. Virava a cabeça de lado, tentando entender de onde, de onde, de quando, de onde ele aparecera? Uma gata, pisando deleitosa, que espia o brinquedo perfeito: intrigante, luminoso, súbito. Ora, nada demais, não vou cair. Além do que é só uma voltinha, volto pra casa em menos de meia hora. Olha essa lua. Ninguém vai sequer dar pela minha falta. Eu já sou crescidinha, posso sair e me cuidar e nem é tão alto assim. Olha a lua, que linda, faz o paralelepípedo parecer misturado a pó de diamante. Eu miro bem direitinho, com cuidado, e num lindo salto leve e seguro, eu passo do chão ao...

- Ele tinha aqueles olhos...

- Azuis?

- Não, vazios.

- Vazios? Vazio-indiferente?

- Vazio-faminto.


Segundo dia - Sarabanda do Horizonte no Limite do Mundo

No segundo dia, o tempo acelerou em volta e, por mais que ela corresse, não dava pra cheirar, lamber, esfregar, triturar, umedecer, sugar, intumescer, ou dominar nem a metade do que lhe era oferecido. No centro da sucessão de cenas girátórias e aceleradíssimas, ela se encantava – até para sua própria surpresa – não com o que lhe alucinava os sentidos, mas com pontinhos brilhantes de refração, cintilações cromáticas, o rosto congelado numa expressão mesmerizada e um tanto idiota, a vida virando um caleidoscópio gigante com som de candelabros de cristal e cavalinhos no carrossel. Era hipnose. Ou um anátema. Se beliscar, acorda?

- Nunca na minha vida.

- Por favor, não diga isso se não for verdade...

- Você quer a verdade?

-... por tudo que é mais sagrado!

- Então assimile: tudo que eu te digo é mentira. Isso inclusive.



Terceiro dia - Alemanda do Horizonte no Resvalo do Mundo

No terceiro dia, ela estava perdida. Insone, exausta, desnorteada, ela tentava em vão achar o caminho de casa. Tinha fome, sede e desdém. Mas a dor pior, anestesiada, estava por aturar: as almofadas das patas sangravam os passos em carne viva. E, insulada até de si, a péssima: uma saudade funda do parapeito. Sentir embaixo dos dedos a pedra fria que causava tamanha entrega no calor, o corpo frágil desmanchando-se no prazer do contraste quente-de-dentro com frio-que-arrepia; essa dor, quando batesse, não ia ter volta, a Saudade brincando de esconder com a Culpa e as duas tripudiando com a Razão.

- Ele nunca vai dizer.

- Que te ama?

- Isso ele já disse.

- Então o que mais?

- Que fica.



Quarto dia – Courant do Horizonte no Negrume do Mundo

No quarto dia, a fome era brasa e as retinas queimadas ardiam cheias de areia. Os tendões contraídos deixavam antever as garras para fora do que sobrou das patas escarnecidas. Tinha fome, sede e ódio. Todas as dores já estavam rindo, às gargalhadas desdentadas, expondo a alma desgraçada e aniquilada dela que um dia foi una. Controle-se, componha sua mente, resista e não se entregue ao desespero, caminhe, falta pouco agora, respira, você é capaz de saber a diferença entre Delírio e Suposição.

Luz.

- Por quê?!?

- Não sei do que você está falando.

- Eu não tenho como suportar mais!

- Nunca te enganei.

- Eu também nunca precisei da sua ajuda pra isso.



Quinto dia – Adágio do Horizonte na Curva da Esquina

No quinto dia, ela descobriu que apenas o corpo se parte, mas o espírito jamais se recobra. Como toda memória, a da pele também mora entre a solidão e a necessidade, no fundo do armário da mente. Sobre seu parapeito favorito, ela filosofa 19 latinhas de cerveja sabendo que, depois da rua, a casa nunca mais será a Casa. O parapeito estará sempre ali, frio, pedra, branco, contudo não dá pra subir no lugar seguro e aconchegante sem ver a rua todas as vezes. E, ainda que as patas e unhas doam rigorosa e concisamente só de pensar, ela tem certeza, a ponto de jamais ter hesitado o pensamento, certeza absoluta de que pularia de novo, se ele... Ah, se ele.

- Você não vai passar por aquela porta e pronto.

- Me deixa ir. Não brinca assim, me deixa ir...

- Fica, não vai, fica comigo. Fica.

- Me deixa ir, vc não pretende, e é mais do que eu agüento, eu vou... eu tenho...

- É só até amanhecer. Isso, assim, vem cá, me beija agora. Não chora. Ssshhh. Dorme. Quando acordar, eu não estarei mais aqui.